Novo Jornal (NJ): Qual é a importância de ver o seu documentário Cesária Évora chegar a Angola, um país onde já esteve várias vezes e conhece bem?
Ana Sofia Fonseca: Partilhar o filme Cesária Évora em Angola é muito especial. Levar o filme a Angola é algo que queria há muito tempo, pelo que fiquei muito feliz com o convite da Geração 80, a quem agradeço a possibilidade. Angola é um país que tive a felicidade de conhecer e pelo qual tenho um carinho muito, muito especial, viajei bastante por Angola. Por outro lado, a Cesária cantou em Angola, esteve no país várias vezes. Aliás, outros músicos de Cabo Verde vão com alguma frequência a Angola, como é o caso de Tito Paris e da Diva. Existe uma afinidade entre os dois países que vai muito para além da partilha de uma localização geográfica, de uma história e de uma língua oficial. Por todas essas razões, e em particular pelo carinho que tenho por Angola, é muito importante e especial exibir o meu filme aí.
NJ: O facto de ter vivido no Mindelo levou-a a inspirar-se para avançar com este documentário?
Ana Sofia Fonseca: Vivo em Lisboa e passo temporadas no Mindelo, onde tenho família e uma casa, e isso foi fundamental para realizar este filme. Por um lado, deu-me entendimento e conhecimento sobre o que é ser mindelense, sobre a forma de estar, a cultura e as tradições. Por outro, deu-me uma certa liberdade. Acho que conciliar este conhecimento íntimo com a possibilidade de algum distanciamento foi muito importante, porque me permitiu não ficar presa e fazer um filme que pretende ser uma viagem ao universo íntimo da Cesária. Um filme que mostra a artista, mas também a mulher. Desde o início tive a consciência de que a voz da Cesária é, de certa forma, o retrato dela própria.
NJ: A dimensão de Cesária Évora resulta das características sociológicas de São Vicente ou foi a própria artista, pela sua singularidade, que ajudou a projectar a ilha e Cabo Verde para o mundo?
Ana Sofia Fonseca: Cesária Évora é Cabo Verde, é ainda mais São Vicente e, em particular, o Mindelo. A sua voz carrega este mar azul, carrega o vento, carrega o sentido de humor tão peculiar dos mindelenses. Nesse sentido, o lugar de onde vem é decisivo para o seu sucesso. Noutro, poderia até ter sido um impedimento. Mas acredito que o sucesso da Cesária vem muito dela própria: vem da voz, desta voz que encanta o mundo e que põe o mundo a cantar numa língua que, para muitos, era desconhecida - o crioulo. Vem também da sua forma de ser, da sua forma de estar. Estamos a falar de uma mulher profundamente complexa e profundamente humana.
Uma mulher que não conhecia, por exemplo, expressões como empoderamento feminino ou igualdade de género, mas que vivia essas lutas no dia-a-dia, na forma como se posicionava e se relacionava com os outros.
A Cesária Évora conseguiu um feito notável: colocou um país no mapa. Quantas pessoas, quantas mulheres, podem dizer que colocaram o seu país no mapa? É importante lembrar que Cabo Verde tem mais filhos na diáspora do que habitantes nas suas dez ilhas. A Cesária deu a esses cabo-verdianos orgulho da sua identidade.
NJ: Numa nota mais descontraída: podemos dizer que Vozinha é hoje o "rival" de Cesária Évora como grande estandarte de Cabo Verde no mundo? Já pensou documentar a história dele?
Ana Sofia Fonseca: Confesso que não percebo nada de futebol, mas que vivi intensamente este Mundial. Estou muito feliz com o resultado de Cabo Verde. De certa forma, Cabo Verde ganhou o Mundial. Numa Copa marcada por polémicas tristes, realizada num país que perdeu muito a sua dimensão humana, Cabo Verde levou a jogo o que de melhor tem este país: as suas gentes, a resiliência, a sua força, a capacidade de sonhar. Este Mundial Cabo Verde fez sonhar o mundo e isso é não só inspirador, como mágico.
Não acho que o Vozinha seja um rival da Cesária Évora, pelo contrário, acho que o Vozinha e a Cesária são aliados. Ambos levam o nome deste país ao mundo, fazem as pessoas descobrir Cabo Verde, e quanto mais Cesárias e Vozinhas tivermos, muito melhor para Cabo Verde e para todos.
NJ: Já pensou em documentar a história de Vozinha?
Ana Sofia Fonseca: Se eu penso fazer um filme sobre o Vozinha? Confesso que não está nos meus planos, mas estou certa que outras pessoas poderão fazê-lo. Aliás, há um documentário a ser feito sobre a selecção de Cabo Verde.
NJ: E sobre Angola e os angolanos, alimenta essa possibilidade?
Ana Sofia Fonseca: Angola é um caudal sem fim de histórias maravilhosas, pelo que é difícil alguém não querer contar histórias sobre Angola. Para mim, para fazer um filme é preciso estar completamente apaixonada pelo tema, porque são muitos anos da minha vida dedicada a um projecto e isso só é possível se eu estiver realmente obcecada pela história. Por outro lado, é preciso ter um certo lugar de fala, uma relação muito especial com o mundo que documentamos, por isso, neste momento, não está no horizonte fazer um documentário em Angola. Mas quem sabe se, um dia, não possa surgir uma parceria com cineastas angolanos?
