O conhecimento não é o da arquitectura. É sobre Angola, através da sua arquitectura. Esta mudança de perspectiva é fundamental. Quando observamos uma antiga missão religiosa no Moxico, uma escola na Huíla, uma estação do Caminho-de-Ferro de Moçâmedes ou uma Nova Centralidade no Huambo, não estamos apenas perante objectos arquitectónicos. Estamos perante testemunhos materiais da forma como diferentes comunidades ocuparam o território, responderam ao clima, organizaram a vida colectiva, produziram riqueza, educaram gerações e imaginaram o futuro. Cada edifício ajuda-nos a compreender um capítulo da nossa história. Cada cidade explica uma etapa da construção do território. Cada paisagem construída acrescenta conhecimento sobre quem fomos, quem somos e quem queremos ser. É por isso que a arquitectura deve ser entendida como uma infra-estrutura estratégica para o conhecimento de Angola. Tal como um arquivo conserva documentos, a arquitectura conserva informação. Mas fá-lo de uma forma única: através dos espaços onde a vida das pessoas aconteceu e continua a acontecer. Contudo, importa esclarecer um equívoco que frequentemente acompanha o debate sobre o património. Documentar não significa preservar tudo. Nenhum país preserva todos os edifícios que produz. As cidades crescem, adaptam-se e transformam-se. Mas nenhuma destas decisões deveria resultar do desconhecimento. Conhecer não é conservar. Conhecer é poder escolher. Só um país que conhece a arquitectura existente no seu território pode decidir, de forma crítica e fundamentada, o que merece protecção, o que pode ser transformado e o que pode ser substituído. O desconhecimento nunca foi uma boa política pública, é apenas ausência de política. É precisamente por isso que Angola precisa de começar a construir uma cultura de identidade documental dos seus edifícios.
Se exigimos que cada cidadão possua um Bilhete de Identidade para provar quem é, porque não exigir que cada edifício público (e não só) possua igualmente a sua identidade documental? Cada escola, hospital, universidade, tribunal, administração municipal, museu, mercado ou outro equipamento público deveria possuir um Bilhete de Identidade do Edifício. Um documento simples, mas rigoroso, onde constassem informações essenciais: data de construção, autor do projecto, entidade promotora, localização, principais características arquitectónicas, intervenções realizadas, documentação gráfica, fotografias e o papel que se espera que desempenhe na vida da comunidade. Não se trata de criar mais burocracia. Trata-se sim de produzir conhecimento acessível. Sem identidade documental, os edifícios tornam-se anónimos. E um país que desconhece a identidade dos seus próprios edifícios conhece mal a sua própria história.
Ao longo destes cinquenta anos foram realizados importantes estudos sobre edifícios, cidades que marcaram os diferentes períodos da arquitectura angolana. Esses trabalhos constituem contributos valiosos e merecem o devido reconhecimento. Contudo, permanecem dispersos e insuficientes para proporcionar uma visão nacional, sistemática e territorialmente equilibrada da arquitectura existente nas, hoje, vinte e uma províncias. Persistem lacunas documentais significativas. Muitos edifícios desapareceram sem qualquer registo. Perderam-se desenhos, fotografias, processos de obra e testemunhos que poderiam ajudar-nos a compreender melhor a evolução do País. As consequências ultrapassam largamente o domínio da arquitectura. Sem conhecimento é mais difícil escrever a história de Angola. É mais difícil compreender a evolução das cidades. É mais difícil valorizar o património cultural. É mais difícil desenvolver o turismo. É mais difícil planear o território. É mais difícil tomar decisões públicas mais informadas.
É neste contexto que surge o Projecto 50 Anos de Arquitectura Angolana. O seu propósito é criar conhecimento para apoiar melhores decisões sobre o território e contribuir para uma compreensão mais profunda do País. Mas o verdadeiro desafio vai muito além deste projecto. Para conhecer melhor Angola através da sua arquitectura, precisamos de uma estrutura permanente de produção e partilha de conhecimento. Precisamos de um Sistema Nacional de Conhecimento da Arquitectura Angolana. Não como mais uma instituição administrativa, mas como uma infra- estrutura estratégica para o conhecimento de Angola. Um sistema que reúna universidades, centros de investigação, administrações locais, arquivos, museus, profissionais e comunidades; que inventarie, documente, cartografe, investigue e acompanhe continuamente a evolução da arquitectura angolana; e que coloque esse conhecimento ao serviço da educação, da cultura, do turismo, do ordenamento do território e das políticas públicas.
O verdadeiro legado deste projecto não será apenas produzir novos estudos sobre arquitectura. Será contribuir para que Angola conheça melhor a si própria. Porque conhecer a arquitectura não é um fim em si mesmo. É compreender como o território foi sendo ocupado, como as cidades cresceram, como as comunidades viveram, como a economia evoluiu e como a identidade nacional se foi construindo ao longo do tempo.
Nesse sentido não estamos a propor apenas inventariar edifícios. Estamos a propor construir conhecimento sobre Angola. Um país que se conhece melhor é, inevitavelmente, um país mais preparado para decidir o seu futuro.
* Arquitecto e Investigador
A arquitectura como infra-estrutura estratégica para o conhecimento de Angola
Quando pensamos em arquitectura, pensamos, quase sempre, em objetos, em edifícios. Pensamos em projectos, materiais, formas, cidades ou arquitectos. É uma associação natural, mas insuficiente. A arquitectura deve ser muito mais do que a arte de projectar ou construir edifícios. Deve ser capaz de constituir uma das mais importantes infra-estruturas estratégicas para o conhecimento de um país. Não se estuda a arquitectura apenas para compreender edifícios. Estudamo-la para compreender o território, a economia, a cultura, a educação, a saúde, as infra- estruturas, as formas de habitar e, em última análise, a própria construção da nossa angolanidade.
