Os nomes carregam peso, são como ramos de uma árvore: memória, lugar, pertença e genealogia. Para um escritor é nas páginas de um livro que as palavras encontram refúgio; é também ali que a imaginação se liga aos olhos de quem lê.
A sociedade move-se à velocidade dos dólares, dos kwanzas e dos euros, enquanto as árvores são cortadas para que os livros cheguem às estantes. O ecrã, porém, ainda não reproduz a essência e o cheiro das folhas, nem o tacto do papel nas mãos.
Em 2020, Lucas Cassule fundou a É Sobre Nós Editora para "contribuir de uma forma diferente" para o mercado interno, tornando as publicações "menos burocráticas" e "menos onerosas".
A chancela juntou à publicação de livros iniciativas de promoção da leitura, realizou actividades em diferentes partes de Angola e criou um portal para divulgar a literatura nacional.
"Durante estes cinco, seis anos de existência, publicámos mais de 30 autores, e nas nossas poucas possibilidades publicámos e financiámos livros que tinham potencial para circular nas mãos dos leitores", conta o director-geral.
A editora publica sobretudo ficção em prosa, entre contos, novelas e romances, além de alguma poesia e livros de desenvolvimento. Os preços situam-se, em média, entre os 10 e os 12 mil kwanzas.
Para Lucas Cassule, o mercado angolano cresceu nos últimos seis anos, tanto no número de leitores como no interesse pelo livro e pela leitura. Entre os fenómenos que contribuíram para esse movimento aponta o surgimento das bibliotecas comunitárias, iniciado com a 10Padronizada e posteriormente alargado a várias províncias.
Os escritores que apareceram nesse período têm procurado melhorar a qualidade da escrita e da publicação, enquanto editoras e outras entidades ligadas ao livro se tornaram mais criteriosas no tratamento e divulgação das obras, acrescenta.
"Os livros que chegam às nossas mãos continuam a ser uma mistura entre a boa qualidade e aqueles que precisam da sua melhoria, uma certa estrada para o seu crescimento."
A produção livreira, observa, está ligada à educação: "O sector da produção do livro está muito associado ao sector da educação, então o reflexo daquilo que é a nossa qualidade de escrita é o reflexo da qualidade de ensino."
Musseleji, uma editora que faz a diferença fora dos grandes centros
Criada no mesmo horizonte temporal da É Sobre Nós, em Malanje, a Musseleji actua no interior do País como um ponto de partida para identificar talentos, trabalhar com agentes locais e mostrar que há igualmente produção literária fora dos grandes centros.
"Ser uma editora de Malanje é uma vantagem porque nos permite estar próximos de uma realidade cultural que muitas vezes não recebe a mesma atenção de Luanda. Conhecemos autores, leitores, professores, estudantes e agentes culturais locais e conseguimos identificar talentos que poderiam permanecer invisíveis", afirma o fundador, Kibuku Kianjije.
Para os escritores malanjinos, publicar numa editora local significa também ter uma estrutura mais próxima e maior possibilidade de participação em actividades culturais, lançamentos, feiras e debates.
Há, porém, um obstáculo comercial. "O mercado livreiro em Malanje é menor, o poder de compra é limitado, a distribuição para outras províncias tem custos elevados, e ainda existe uma concentração da actividade editorial e livreira em Luanda."
Cada publicação é, por isso, encarada como um "acto de descentralização cultural".
"Queremos demonstrar que é possível produzir, editar e promover livros a partir de outras províncias", vinca Kibuku Kianjije.
O custo de produção, sobretudo da impressão, pesa nesse propósito.
O número de páginas, o tipo e a qualidade do papel, o formato, a tiragem, o acabamento, a revisão, a paginação e o design da capa são alguns dos factores que determinam o valor final. "Não existe um preço único para a edição de um livro", explica o director-geral da Musseleji.
Mercado interno sob pressão
A falta de investimento atravessa o sector.
Lucas Cassule revela que são necessários mais recursos, um plano efectivo para fomentar a leitura e políticas capazes de acompanhar o crescimento do mercado.
O Plano Nacional da Leitura, aprovado em 2024, continua a ser uma preocupação: "até agora ainda não o temos em execução".
O plano oficial corresponde ao PLANALEITURA 2024-2027, "é um programa estratégico do Governo de Angola, aprovado pelo Decreto Presidencial n.º 247/24, com um orçamento quadrienal avaliado em cerca de 456 mil milhões de kwanzas para promover a massificação da leitura, elevar os níveis de literacia e expandir o acesso ao livro no País".
Essa falta de investimento "impulsiona a desaceleração desse crescimento da cultura do livro que se espera", considera, apontando ainda uma redução, nos últimos dois anos, do interesse dos jovens pelos livros e pelos grandes eventos.
"Honestamente, fica um bocado difícil apontar razões que justifiquem o pouco investimento que se faz na cultura do livro. (...) As pessoas que nos governam, que dirigem o país, precisam de olhar para o livro como um factor determinante para o pensamento livre, para a consciência sustentável, para o desenvolvimento de um país sadio, de um país que se reinventa, que se desenvolve, um País também se faz com livros."
O director-geral da É Sobre Nós Editora realça que a conjuntura económica pesa sobre os leitores.
"Podemos dizer que a vida das pessoas ficou mais apertada com essa inflação galopante que aconteceu nas nossas vidas. A maioria das famílias está mais focada nas questões em que elas acham mais importantes, e o livro é preterido para um lugar menos cimeiro, infelizmente."
Por seu turno, Kibuku Kianjije não esconde as dificuldades de uma pequena editora. "No nosso contexto é muito difícil uma pequena editora sobreviver se publicar apenas por paixão, e não conseguir recuperar parte do investimento. Cultura e sustentabilidade financeira precisam de caminhar juntas."
A Musseleji busca, por isso, equilibrar a descoberta de novos escritores com os custos de edição. "Uma editora como a Musseleji precisa muitas vezes de equilibrar duas responsabilidades: a cultural e a empresarial."
Esta experiência alterou os critérios de selecção. "Mais importante do que lamentar uma publicação é perceber o que ela nos ensinou para que os próximos livros tenham maior qualidade."
Daí a convicção da editora malanjina de que "nem todo manuscrito precisa necessariamente de se transformar num livro".
"Publicar também é assumir uma responsabilidade perante o leitor, o nosso primeiro crivo é a qualidade e a consistência do texto", reforça Kibuku Kianjije.
A chancela avalia estrutura, linguagem, coerência, criatividade, relevância, potencial da obra e o trabalho que o autor está disposto a fazer sobre o próprio manuscrito.
Num País onde o ensino de base enfrenta dificuldades, "recebemos textos com boas ideias, criatividade, e experiências muito interessantes, mas que apresentam dificuldades de estruturação, ortografia, pontuação, construção frásica e organização das ideias", ressalta Kianjije.
Contudo, o responsável acautela que não é correcto atribuir todos os problemas dos manuscritos ao ensino de base.
Há talentos que não dispõem ainda das ferramentas necessárias para os transformar em textos mais sólidos, por isso mantém que a formação do leitor e do escritor "deve começar muito cedo", com o apoio dos hábitos de leitura, da escrita criativa, da interpretação e do contacto com a literatura nas escolas.
É também nesse ponto que entram iniciativas como a Rede de Leitores de Malanje (REJOLMA) e Malanje Lê, através das quais a Musseleji tenta contribuir para a formação de novos leitores e, consequentemente, de futuros escritores.
Do papel ao ecrã
A transformação tecnológica acrescenta outra camada ao mercado editorial.
"A digitalização é uma realidade inevitável", diz Lucas Cassule, para quem a inteligência artificial está "às portas" e coloca novos desafios a quem escreve e a quem lê.
"Esta transformação oferece-nos ferramentas que nos obrigam a adaptar ao tempo, ao contexto e aprendermos com elas e descobrirmos como é que vamos viver com a nossa arte, com a nossa produção, dentro desse novo cenário", frisa.
Os e-books ganharam força durante a Covid-19, mas, em Angola, o hábito não se consolidou como produto comercial.
"Hoje o angolano de forma geral não olha para o livro digital como um produto comercializável, ainda continuamos muito conservadores em relação aos livros físicos."
A circulação digital, por outro lado, pode aproximar obras angolanas de outros mercados, embora também aumente a exposição à contrafacção, ao plágio, à apropriação de criações e à republicação sem respeito pelos direitos autorais.
"Corremos esse risco, é inevitável, mas também podemos ser beneficiados com a rápida circulação das nossas obras para mercados emergentes. É sempre uma moeda de duas faces."
Kibuku Kianjije vê igualmente no digital uma oportunidade, mas não a única saída.
"O livro físico mantém uma importância cultural, simbólica e comercial", afirma, defendendo uma combinação entre os formatos, a venda online e novas formas de distribuição e promoção.
A inteligência artificial (IA) coloca mais outra questão: onde termina a ferramenta e começa a autoria?
Para Kibuku Kianjije, aplicações como o ChatGPT não são "necessariamente inimigas nem salvadoras da literatura".
O problema é quando o escritor entrega à máquina a responsabilidade de criar e apresenta o resultado como fruto integral da sua experiência e criatividade, complementa.
A literatura nasce também da experiência humana, da observação, da cultura, da história e da linguagem. A IA pode auxiliar na organização de ideias e na pesquisa preliminar, mas não deve substituir "a capacidade criativa do autor, a voz do autor".
Para a Musseleji, essa distinção já começa a ter peso editorial.
"Interessa-nos perceber se existe uma voz literária própria, autenticidade e responsabilidade autoral."
Representatividade ou segregação?
A milhares de quilómetros de Luanda e Malanje, o problema assume outra forma.
Em 2019, Elga Fontes criou o Quem Me Lera, inicialmente como uma plataforma para partilhar sugestões de livros. O projecto acompanhou o seu percurso como tradutora e revisora e tornou-se um espaço de reflexão sobre diversidade no mercado editorial português. A Bantumen também situa em 2019 o início da plataforma.
Em 2023, a tradutora defendia ao Jornal Público a necessidade de conhecer a composição dos catálogos das grandes editoras portuguesas para perceber as disparidades existentes no mercado editorial.
Mais tarde, disse à Bantumen que a análise da presença de autores negros era, para si, uma forma de tornar visível uma disparidade que considerava insuficientemente medida.
A Kiala estreou-se no mercado com Feminismo na Periferia, de Mikki Kendall. O livro foi lançado em Maio e apresentado em Junho como primeiro título da chancela. O critério da editora não é o tema da obra, mas a identidade do escritor. O Afrolink descreve Feminismo na Periferia como um dos títulos inaugurais da Kiala e refere a apresentação de 11 de Junho.
À Lusa, Elga Fontes distingue literatura feita por escritores negros de uma literatura necessariamente centrada em racismo, colonialismo ou discriminação.
A Kiala quer publicar também histórias de amor, amizade, identidade e relações familiares, contrariando a ideia de que escritores negros devem necessariamente escrever sobre questões raciais, assinala a mesma fonte.
Essa é uma das razões apresentadas por Elga Fontes para a escolha de um catálogo dedicado a autores negros.
A opção abriu um debate sobre a forma de combater a sub-representação: uma chancela criada especificamente para autores negros pode ampliar o espaço disponível no mercado ou corre o risco de os colocar numa categoria editorial separada?
Elga Fontes rejeita essa segunda leitura.
Na mesma entrevista, afirmou que a editora pretende contribuir para o panorama cultural português "trazendo mais vozes negras" e distinguiu a criação de um espaço dirigido a um grupo específico do conceito de segregação.
Considerou também positivo que a iniciativa tenha colocado em discussão a presença e a visibilidade de autores negros no mercado editorial português.
O Afrolink acompanhou o lançamento em Junho e registou reacções distintas à iniciativa, incluindo críticas à exclusividade do catálogo, enquadrando a Kiala no percurso de Elga Fontes e na sua preocupação anterior com a diversidade editorial.
Elga Fontes estabelece ainda como horizonte a continuidade da chancela, a publicação de mais autores e a criação de oportunidades para profissionais negros em áreas como revisão, tradução, design e produção editorial.
Entre Luanda, Malanje e Lisboa, as respostas são diferentes. Há quem procure baixar os custos de publicação, quem tente descentralizar a produção editorial e quem crie uma chancela a partir da alegada ausência de determinadas vozes nos catálogos.
Em comum, fica uma pergunta que atravessa o mercado: como fazer chegar mais livros a mais leitores sem deixar pelo caminho os escritores que encontram menos espaço para publicar?
