Na quinta-feira, os jornalistas tiveram uma introdução clara sobre o que estaria em jogo: Angola não seria apenas um destino passageiro, mas uma etapa com potencial para se tornar permanente.
Este sentimento é partilhado pelo fundador da E1, Alejandro Agag, que confirmou ao Novo Jornal a continuidade da prova em Angola, e por pilotos como Rusty Wyatt, da Team AlUla, Sara Price, da Westbrook Racing by Visit Angola, e a bicampeã Emma Kimiläinen, da Team Brady, que também expressaram o desejo de voltar.
Para esta percepção concorreram vários factores, desde as condições da água, mais calmas do que nas etapas realizadas este ano em Jeddah, na Arábia Saudita, Lake Como, em Itália, Dubrovnik, na Croácia, e Mónaco, até ao próprio cenário da Baía, que permitiu corridas rápidas e desempenhos imprevisíveis.
Isso ajudou a explicar o resultado de sábado, com a AOKI Racing a destacar-se e a Team Brady a ter uma performance abaixo do esperado, terminando em sétimo lugar.
Na final, a dupla "Sam e Kimi", como são tratados carinhosamente, voou sobre a água. Parte do desempenho pôde ser acompanhada a partir do barco da imprensa, conduzido por Tom, sempre atento ao walkie-talkie para garantir pista livre aos pilotos, sem que nenhum detalhe escapasse aos olhares da imprensa nacional e internacional a bordo, em posição privilegiada.
Um dos pontos altos desta experiência foi a possibilidade de estar perto do pódio, conviver e tirar fotografias com os pilotos e observar a camaradagem entre equipas. Esses detalhes ajudaram a perceber outra dimensão da E1. Mesmo a concorrerem umas contra as outras, houve espaço para o fair-play.
Foi o caso da Team Drogba Global Africa, que correu a bordo do barco da Team Miami, e da Westbrook Racing by Visit Angola, que utilizou o barco da Team AlUla depois de danificar o seu RaceBird.
No Ocean Club, o ambiente completava-se com animação, DJ e a corrida acompanhada de perto, permitindo aos jornalistas melhor acesso ao momento decisivo. Dali, com a Baía inteira à frente e o público a vibrar a cada volta dos RaceBirds, percebeu-se o impacto do cenário.
Não era apenas uma competição. Era um cartão-postal em directo para o mundo de que Luanda veio para ficar.
No paddock, zona de acesso restrito aos bastidores onde ficam as equipas e a imprensa nas suas estações de trabalho, antes de seguirmos para o pódio, aproveitámos para conversar com colegas sobre o que vieram reportar em Luanda.
Da Nigéria, ouvimos o editor-chefe da Africa 24, Kenneth Igbomor, que esteve pela primeira vez no País e já tinha acompanhado a E1 Series em Lagos, em 2025.
"Vim cobrir o campeonato, a competitividade, o efeito das celebridades para fazer o evento crescer. Tive uma sessão individual com o CEO e falámos sobre por que África deve ser mais significativa no calendário. No ano passado foi em Lagos, no meu quintal, na Nigéria, e é bom ver agora outra capital africana."
Desafiado a comparar as duas experiências, assumiu um posicionamento "pró-africano".
"Não gosto muito de comparar porque África é bonita de muitas formas."
Realçou, porém, que a organização esteve ao mais alto nível nos dois eventos e que "aqui também tem sido tratado de forma muito profissional", tendo ficado encantado com a beleza da zona da Baía.
"Nunca soube que Angola tinha esta skyline", afirmou, embora tenha deixado claro que "os nigerianos são muito acolhedores. Não estou a dizer que Angola não seja acolhedora, mas quando se experimenta a hospitalidade nigeriana nota-se a diferença".
O jornalista destacou ainda a organização da competição em Angola, com "as secções bem delimitadas" e as medidas de segurança tomadas, mas viu no evento uma mensagem que ultrapassa a corrida.
"Vejo uma mensagem maior que vai além da corrida, uma questão em torno da sustentabilidade e do porquê de ser importante."

O contraste de visões não é significativo. O jornalista sénior do La Repubblica, Alessandro Alocca, também em estreia em Angola, veio igualmente para saber mais sobre a forma como têm sido aplicadas medidas para um futuro ambiental mais saudável e sustentável no País.
"Quero saber como Angola tem trabalhado na transição energética, porque acolher a E1 significa promover-se de uma forma muito mais sustentável", expressou.
"É a minha primeira vez em Angola. É um país lindo, cheio de oportunidades, mas ver em primeira mão é outra coisa", sublinhou, explicando que o primeiro contacto com a E1 ocorreu em Silverstone, um dos mais antigos circuitos de Fórmula 1 em Inglaterra.
Comparou o paddock onde estão os RaceBirds a uma Fórmula 1 "em escala reduzida, mas com super excitação".

Já Andrew Gamble, do The Mirror, britânico a trabalhar em Nova Iorque, lembrou que a sua memória de infância sobre Angola vinha do futebol.
"É a minha primeira vez em Angola. Tem sido incrível. As pessoas têm sido tão queridas. Honestamente, a única coisa que sabia sobre Angola quando era miúdo era que se tinha qualificado para o Mundial de 2006 na Alemanha."

Tendo estado a cobrir a E1 em Miami, onde irão decorrer as duas etapas finais, não hesitou em comparar as experiências.
"A organização da corrida é até melhor em Angola do que em Miami. Aqui na Baía, com a cidade ali mesmo, é um cenário muito mais vivo e bonito."
Compreendeu as restrições impostas pela organização na separação entre quem pagou para estar no Ocean Club, mas concordou com algumas críticas de jornalistas nacionais que queriam maior proximidade da rampa de lançamento dos RaceBirds.
Sobre a cidade, ficou marcado pelo tour da manhã.
"Fizemos um tour pela cidade esta manhã. Vimos a Fortaleza, lá em cima na colina. Aprendemos mais sobre a história da cidade, sobre a guerra da independência. Sabia que houve uma guerra, mas não tinha noção de quão recente foi. E contaram-nos que muitos dos arranha-céus, o skyline todo, foi construído nos últimos 15 anos. É impressionante. É realmente uma cidade em ascensão."
Os jornalistas internacionais, afinal, não ficaram apenas no Yacht Club.
Após ter estado em Angola em 2010 para cobrir o Campeonato Africano das Nações, Nick Said, da SuperSport, da África do Sul, confessou que foi tão bem recebido quanto da última vez e que o evento foi excepcionalmente bem organizado.

"É uma cidade maravilhosa. As pessoas foram fantásticas, como da última vez. Isso não mudou."
Sobre as restrições, comparou-as com o Mundial nos Estados Unidos.
"Em Houston foram muito pesadas. Aqui são padrão para um grande evento internacional."
Questionado sobre uma futura etapa na África do Sul, mostrou reservas quanto à Cidade do Cabo.
"Cidade do Cabo seria fantástica, mas há muita ventania nas regiões costeiras e não sei como isso limitaria os barcos. A nossa única opção provavelmente seria Durban", referiu.
Ainda assim, evidenciou que é importante a E1 estar em África.
"É uma série global e se não houvesse etapa africana, faria falta, exactamente como nos faz falta não ter uma corrida de Fórmula 1 em África."
As duas vozes da Baía
Fora das credenciais e dos coletes de imprensa, a corrida também se viu da rua. Ou melhor, do quintal e da água.
Perto do Yacht Club, encontrámos Dona Madalena.
NJ: Como é o seu dia-a-dia?
Dona Madalena: O meu dia-a-dia, acordo de manhã, vou à rua, varro a rua e depois entro para o quintal. Tenho o meu negócio aí no quintal e vendo.
NJ: O que é que vende?
DM: Vendo cerveja e faço almoço.
NJ: Com esta competição que surgiu agora, isto veio afectar o seu negócio?
DM: Por acaso não afectou nada, só ainda me deu mais força para vender o meu negócio. Desde ontem entram os clientes aqui, estão a comprar a minha gasosa, a minha cerveja.
NJ: E em termos desta competição, o que é que isto lhe diz?
DM: O movimento que estou a ver está a agradar-me mesmo, para mim, para o meu negócio.
NJ: Sabe alguma coisa sobre o desporto em si?
DM: Não, não sei nada. Disseram-me ontem que eu estava a aparecer na televisão, mas não vi nada. Hoje quero ver, vou abrir a televisão para poder ver como é que estão as coisas.
Ao lado do pódio, encontrámos o mergulhador Terêncio, que trabalha das seis às dez da manhã.
NJ: O que é que sabes sobre esta competição?
Terêncio: Não sei de nada, só sei que vêm aí alguns americanos.
NJ: Ouviste falar que o LeBron James está cá?
Terêncio: Sim, o basquetebolista.
NJ: O que significa para ti que ele esteja aqui?
Terêncio: Não significa nada. Não muda nada na minha vida. Nunca.
NJ: E esta competição?
Terêncio: Acho que muda alguma coisa. Quanto mais turistas, para mim melhor.
Sobre o impacto na sua rotina, foi directo:
"Sei o quê, mas isso aqui é leve."
Quando lhe dissemos que Luanda tem contrato por mais dois anos, com opção de extensão, e perguntámos se gostaria que a prova fosse permanente, foi peremptório:
"Para mim acho que já é. Já é."
É a Baía a responder.
Para lá dos RaceBirds, dos DJs do Ocean Club e do skyline que impressionou os jornalistas estrangeiros, ficou a percepção de que a E1 encontrou em Luanda mais do que uma pista para correr.
Encontrou uma cidade que quis mostrar-se, uma Baía capaz de oferecer espectáculo e um público que começou a descobrir uma competição ainda nova.
E, sobretudo, deixou uma certeza que atravessou pilotos, organização, jornalistas e moradores: Luanda veio para ficar.






