Esta é uma razão para que a Casa Branca mantenha o optimismo de Donald Trump a pairar sobre esta crise global, a outra é que a crise, ao contrário do que sucedia no passado, desta feita não aparece no valor do barril, já é visível no preço do gasóleo e outros refinados.
É que, como explica Jeffrey Currie, analista de mercados e director da Abbax Commodity Exchange, apesar da escassa variação, em termos comparativos, do preço do barril de crude, o mercado dos refinados está em brasa há muito, com, por exemplo, a tonelada métrica do gasóleo a subir mais de 300 USD só nos últimos 4 meses.
É que o crude não é a variante determinante nesta crise, porque nas duas guerras a que o mundo assiste presentemente, na Ucrânia e no Golfo Pérsico, uma das maiores atracções para os mísseis e drones estão a ser as refinarias, entre estas, algumas das maiores do mundo, na Rússia e na Arábia Saudita.
E o afunilamento da capacidade de refinação transforma a oferta de petróleo bruto numa quase irrelevância na roda vida em que estão actualmente os preços dos combustíveis, porque a capacidade de refinação foi brutalmente diminuída nos últimos meses, especialmente de gasóleo, cujo crude mais indicado é o de média densidade.
Para isso contribui o facto de alguns dos maiores fornecedores deste refinado aos mercados, que era a Rússia, terem fechado a torneira das exportações devido aos danos nas suas refinarias especializadas na produção de gasóleo como nas dificuldades de abastecimento interno.
Com o gasóleo a subir mais de 300 USD por tonelada métrica, de acordo com a Platts Market Data da S&P Global Energy, alguns analistas andam incrédulos com o alheamento dos mercados da gigantesca crise que já está na esquina do tempo mais próximo, aparentemente sob o "feitiço" das manobras de distração do Presidente dos EUA que insiste em falar no controlo que mantém sobre o preço do barril de petróleo bruto, quando isso já não tem, ou tem escassa, importância para o "motor" da economia global.
A par desta realidade, o problema do petróleo bruto permanece no horizonte como uma brasa á beira do rastilho que liga o mundo a um barril de pólvora, porque se as refinarias podem, em escassos meses, ser repostas na sua plenitude de capacidade, a guerra no Médio Oriente tem todas as "octanas" para evoluir para uma "forever war".
Que é como quem diz, uma crise sem prazo de validade e muito menos fim à vista, até porque, além do conflito entre os norte-americanos e o Irão, que deixa o Golfo Pérsico em chamas, por vezes literalmente, porque entre petroleiros de um e do outro lado, terão sido, dependendo das fontes, destruídos cerca de 25 só numa semana.
Além disso, o Estreito de Ormuz está parcialmente fechado pelo Irão, através da ameaça dos seus drones e mísseis, porque por ali só estão a passar, segundo dados recolhidos pela Reuters, perto de 10% do tráfego marítimo normal em tempo de paz, correspondendo aos acordos que o Irão tem com alguns países e os petroleiros que zarpam sob protecção da marinha dos EUA.
E agora começa a emergir do outro lado da Península Arábica um perigo igualmente minimizado nestes longos meses de guerra, que é o reatar da guerra civil no Iémem, entre os guerrilheiros da AnsarAllah-Houthis, com apoio iraniano, e o Governo apoiado pela Arábia Saudita.
Esta guerra já se espalha no tempo desde pelo menos 2012 e, em 2014 sofreu uma forte escalada até que em 2022 foi acordado um cessar-fogo, que deixou a capital, Saná, nas mãos da AnsarAllah, bem como uma parte substancial da costa domar Vermelho e Mar Arábico(Oceano Índico).
Essa relativa paz acabou, entretanto, já este ano, em Julho, de forma limitada e totalmente há duas semanas, quando Houthis e as tropas governamentais voltaram à condição de guerra aberta, com a Arábia Saudita a emergir, como não sucedia há anos, num dos mais violentos palcoas deste conflito, tendo quase toda a sua infra-estrutura energética fora da costa do Golfo Pérsico, sob ataque dos mísseis "iranianos".
Só nas últimas duas semanas, a AnsarAllah atacou com sucesso duas grandes refinarias sauditas, tirando assim do mercado quantidades substantivas de produtos refinados do crude.
Além disso, os guerrilheiros apoiados pelo Irão estão a avançar com violência e rapidez ao longo da costa do Mar Vermelho ainda sob domínio estatal dentro do Iémen, e, segundo os últimos relatos, a cidade mais importante da costa iemenita sob controlo estatal, Al-Mokha (ver mapa na foto), já caiu para o lado da AnsarAllah.
O que alguns analistas defendem que se esse cenário de confirmar as forças apoiadas por Riade deixam de poder manter posições na costa iemenita do Mar Vermelho, deixando aos guerrilheiros total controlo sobre essa linha de costa estratégica e sobre o Estreito de Bab al-Mandeb, o que significa terem o controlo de quase 15% do comércio geral global e agora mais de 6 milhões de barris de crude saudita.
Esta realidade resulta de através do Mar Vermelho/Canal do Suez passarem centenas de navios por dia de e para a Ásia, incluindo China e Índia, os dois gigantes asiáticos e mundiais, sendo que agora os sauditas, para colocarem a sua produção diária de crude no mercado asiático passam a estar obrigados a contornar todo o continente africano via Mar Mediterrâneo, o que se torna insustentável no médio prazo.
A complicar todo o xadrez no Médio Oriente, Donald Trump veio agora garantir que os EUA vão continuar a destruir os petroleir0os iranianos, mesmo que isso leve Teerão a ter os seus drones e mísseis apontados a dezenas de petroleiros dos aliados dos americanos na região, desde o Kuwait aos Emiratos Árabes Unidos, Catar ou Arábia Saudita.
Com tal perspectiva não é de estranhar que o barril de crude, no caso do Brent, esteja esta quinta-feira, 10, a passar largamente os 100 dólares, o que indicia que o pânico começa a ganhar forma entre os analistas.
Essa a razão para que o barril de Brent, a referência principal para as exportações angolanas, estivesse esta quinta-feira, 10, perto das 12:40, hora de Luanda, a valer 101,95 USD, uma subida de quase 1,5%, que se soma a ganhos de mais de 13% nas duas últimas semanas, depois de logo pela manhã ter passado dos 102 USD.










