Esta entrevista foi concedida inteiramente em português, um dia antes da corrida final do E1 Luanda GP, a uma profissional cujo percurso internacional atravessa a Volvo Ocean Race, a Ocean Race, a aviação, o sector marítimo, os mercados de carbono e a conservação dos oceanos.

Ana, como é estar em Angola?

É uma experiência extraordinária como portuguesa, é um orgulho poder estar aqui em Angola pela primeira vez. Vai ser a primeira, mas não será certamente a última. Espero poder voltar não só com o campeonato de E1, mas também várias vezes fora do campeonato e conhecer um bocadinho melhor da cultura e tudo o que Angola tem para oferecer em termos de turismo também.

O que a trouxe para a E1, uma vez que esteve quase 20 anos ligada à Ocean Race? De onde nasce essa paixão pelo mar?

Bom, eu não estive ligada, estou há muitos anos a trabalhar na sustentabilidade em vários sectores, incluindo no desporto, e, portanto, já tinha passado pela Volvo Ocean Race e pela Ocean Race. Gosto muito de trabalhar a sustentabilidade em várias frentes, de A a Z, diria assim. Considero que o desporto é algo que me apaixona e é algo que me fascina porque o desporto é emoção. O desporto não é razão, não é racional, não é cabeça, é emoção.

As pessoas ligam-se muito mais facilmente ao desporto do que a um relatório de sustentabilidade. Conseguimos envolver a comunidade, conseguimos envolver os jovens, conseguimos explicar o que é que nós estamos a fazer e a criar um impacto social e ambiental positivo, e é muito mais fácil que as pessoas se apaixonem e que se comprometam a ajudar e a melhorar o sítio onde vivem quando estamos ligados a um desporto do que apenas uma perspectiva de sustentabilidade. Então, o desporto para mim é uma plataforma, uma ferramenta muito, muito, muito importante para gerar um amor e uma paixão pela nossa terra.

E, dentro do desporto, o que é que a E1 tem de especial para si?

Um conjunto de factores, na verdade, mas a E1 tem esta vantagem que para mim é muito desafiante, é um desporto que já combina a mobilidade eléctrica, a inovação, a sustentabilidade, portanto por si só já é um desporto sustentável e um desporto em que eu tenho orgulho em fazer parte. Por outro lado, é também um desporto novo que está apenas na terceira temporada, ainda tem muito para crescer e temos muito para fazer em conjunto e isso para mim também é muito fascinante, podermos trabalhar em conjunto para fazer mais e melhor.

Falou em trabalhar em conjunto. Como é a articulação entre os "team leaders" de sustentabilidade das outras equipas?

Bom, eu creio que fui a primeira líder de sustentabilidade de uma das equipas, as equipas estão também a dar alguns passos nesta área.

Pode-se dizer que é pioneira.

Sim, podemos dizer que sim, pelo menos tentamos. Acho que todas as equipas estão a fazer um trabalho fantástico nesta área, com diferentes representantes em cada uma das equipas. A relação entre todas é muito boa. Na sustentabilidade, nós não competimos dentro de água. Fora da água, a sustentabilidade não é uma competição, é algo que nós todos tentamos ganhar em conjunto, porque todos ganhamos: o ambiente e o planeta ganham.

Que projectos de sustentabilidade ambiental a Westbrook Racing by Visit Angola está a desenvolver neste momento no País?

Bom, a E1 é a principal impulsionadora como um desporto inovador que liga a inovação, o desporto de alta performance e também a sustentabilidade. Acabamos por estar debaixo desta "umbrella" de sustentabilidade da E1. Cada equipa depois tem a sua própria responsabilidade e o seu próprio projecto ambiental.

Dentro da equipa Westbrook Racing by Visit Angola, nós temos a nossa política de sustentabilidade desde o ano passado. Criámos uma estratégia de sustentabilidade chamada Powering Performance with Purpose e, dentro desta nossa estratégia, deste nosso plano de acção, temos a decorrer várias iniciativas onde quer que corramos no circuito, que é global.

O nosso objectivo é que nós possamos criar um impacto positivo e que possamos deixar cada lugar melhor do que o encontrámos quando chegámos, neste caso aqui a Angola para competir.

O que é que encontraram?

Olha, fizemos para já em Angola uma activação Science, Technology, Engineering, and Mathematics (STEM) com estudantes de engenharia, para que possam conhecer os nossos engenheiros, o trabalho que estamos a fazer, o barco, os motores, e que possa haver esta partilha também de experiência e que possamos motivar esta geração a trabalhar mais nesta área e mostrar tudo aquilo que é possível.

Temos também uma parceria com a Agência Espacial Europeia e a Earth Observation and Mapping (EOMAP). Estamos a usar satélites e aplicações espaciais para monitorizar a qualidade da água e também para verificar a presença de lixo marinho. Já temos o relatório preliminar, que partilhámos com o Governo local, e que iremos trabalhar em conjunto, juntamente com os dados recolhidos por Angola e pelo Governo, para que possamos anunciar, depois da corrida, o nosso relatório final com os resultados deste trabalho, desta monitorização.

Ok, e até aqui, do que se pode apurar, o que se vê em termos da água é que existem queixas da parte de certos activistas ambientais e preocupações significativas com resíduos industriais que chegam aqui à costa, sobretudo da Baía?

Há sempre muito por fazer, eu acho que nós temos que olhar sempre com uma perspectiva de um plano de acção, nós estamos todos juntos e devemos estar todos juntos para tentar ter um impacto positivo e acho que é isto que estamos a fazer também aqui com o Governo local de Angola, aqui na Baía.

A informação que nós temos do relatório que fizemos é que está com muito boa qualidade da água, não temos presenças de algas tóxicas e temos aqui sim alguns resíduos que vêm com a corrente do lado este de Angola, onde temos aqui alguns registos de algumas ocorrências, mas estamos a trabalhar agora para recolher os nossos dados para que sejam mais reais e os dados também que são recolhidos "in situ" pelo Governo local de Angola e que possamos em conjunto não só anunciar os resultados desta análise, mas também possamos talvez poder trabalhar em conjunto para melhorar e impactar positivamente a comunidade.

Podemos saber ao certo quando é que isso poderá acontecer, num time frame, uma aproximação?

Nós monitorizamos o local da corrida durante uns dias a seguir à corrida, portanto eu imagino que num espaço de duas semanas estamos a partilhar este relatório publicamente.

Outra questão que importa saber é, daquilo que vocês vêem no satélite, sei que já fizeram em Lake Como e noutras regiões, o que é que encontram ao certo que permite melhorar ou mitigar o impacto ambiental?

Nós estamos a analisar diferentes parâmetros da qualidade da água como a clorofila ou a turbidez e isto é importante para perceber qual é que é o impacto não só que a corrida tem ou neste caso não tem, felizmente, é isso que temos verificado nestas corridas, mas também a perceber, tentar extrapolar para se a água estiver com fraca qualidade o porquê de ter esta fraca qualidade e o que é que nós podemos fazer.

Não tem sido o caso aqui em Angola e os resultados que nós analisámos são bons, mas aqui o que nós podemos fazer é trabalhar em conjunto, perceber as causas, perceber o contexto e desenvolver um plano de acção para melhorar não só a qualidade da água ou, quando encontramos um grupo, um conjunto maior de resíduos, que possamos organizar uma limpeza costeira e retirar esses resíduos, esse lixo da água.

E o que espera nestes próximos dois anos, pelo menos, não sabemos se vai haver extensão ou não, o que é que consegue com o legado da Westbrook Racing?

Nós somos a equipa da casa, certo? Eu sou a única portuguesa da competição e, portanto, sim, estou aqui a falar português convosco e o nosso objectivo em Angola, em Luanda, é poder abrir mais os braços, podermos ter um maior contacto com o Governo nacional e local, possamos chegar mais às comunidades, possamos envolver mais os jovens na questão da sustentabilidade, na questão mesmo da engenharia e podermos perceber como é a lógica da nossa missão, como é que podemos impactar positivamente a região e como é que podemos deixar Angola melhor do que estava quando nós a encontrámos. Queremos muito aprender convosco e fazer mais.

E como é esse papel de estar por trás deste trabalho e ser alguém que apoia em tudo o que está a acontecer na equipa?

Eu acho que aqui a minha mensagem nesta área da sustentabilidade como em qualquer área, a diferentes indústrias, o que importa é ser resiliente, importa não desistir, importa perceber que nem sempre temos vitórias todos os dias, mas vamos conquistando pequenas vitórias com frequência, é isso que nos faz mover, é isso que nos faz querer mais e melhor.

Como é ter Will Smith como dono da equipa, ele envolve-se na parte da sustentabilidade ambiental?

O Will Smith tem uma preocupação também muito grande com a questão do ambiente, aliás podem ver o novo documentário que ele tem com a National Geographic e perceber um pouco melhor a visão que ele tem nesta protecção do nosso planeta e, como pessoa, é extraordinário. O que nós vemos no ecrã é o que vemos fora do ecrã e é a pessoa que eu espero que Angola também possa vir a conhecer melhor.

Como é que tem sido o seu trabalho como tradutora para a Westbrook Racing By Visit Angola?

(Ana Agostinho ri-se antes de responder.)

Com todo o gosto e todo o prazer em ajudar.

E, para terminar, Ana, como portuguesa, que mensagem gostaria de deixar aos angolanos e aos portugueses sobre esta experiência na E1?

Uma mensagem?

Lutar, tentar fazer mais pelas comunidades, pelo planeta em diferentes áreas dentro do desporto, querer fazer mais, querer ganhar, acho que todos nós devemos querer ganhar na vida, aqui no desporto queremos com certeza ganhar, mas queremos também deixar um impacto positivo e acho que esta é a mensagem.

E quanto ao campeonato?

Que possamos ganhar aqui em Luanda, em casa, vai ser, se tudo correr bem, esperemos que seja uma vitória para a Westbrook Racing by Visit Angola e uma vitória em casa teria um gosto especial, por isso espero que todos os angolanos estejam a torcer por nós.