Fernão Lopes Simões de Carvalho nasceu em Luanda a 27 de Outubro de 1929 e faleceu esta terça- feira , aos 96 anos de idade, em Portugal. Foi o homem que teve as suas "impressões digitais" na Unidade de Vizinhaça nº1 do Prenda , que inclui os famosos Lotes do Prenda, o Futungo de Belas, o Mercado do Caputo, o Bairro do Pescadores da Ilha de Luanda, o Aldeamento da Quilunda, o Centro de Radiofusão de Angola ( Actual Rádio Nacional de Angola), o Bairro dos CTT, Faculdade de Medicina de Luanda, Hospital do Lubango, edifícios da Junta Autónoma de Estrada entre outros grandes projectos.

Formou-se em Lisboa no período 1956-59, trabalhou em Paris na equipa de Le Corbusier, sob coordenação de André Wogenscky. Participou em projectos como as Unités d'Habitation de Berlim e Briey-en-Forêt e no Convento de La Tourette. Ressalta aqui um pormenor importante: a sua formação não se limitou aos campos da academia, Simões de Carvalho esteve no atelier onde se estava a produzir uma parte fundamental da arquitectura moderna internacional e transportou este conhecimento para Angola e o resultado está na obra que deixou entre nós. Em 1961, regressa à Luanda e assume a chefia do Gabinete de Urbanização da Câmara Municipal. Cria um gabinete que viria a descrever como "a verdadeira escola do urbanismo", com uma equipa multidisciplinar constituída por engenheiros, desenhadores, maquetistas, topógrafos , pintores e administrativos. "Estamos perante uma tentativa de criar capacidade institucional de produção de conhecimento urbano dentro de Luanda", afirma Wilfredo Figueiredo. Simões de Carvalho não concebia a arquitectura como obra isolada, mas como sistema de conhecimento, investigação, planeamento, documentação e decisão pública.

Entre 1961/62 esteve ligado à elaboração e revisão do Plano Director de Luanda e de vários planos parciais, aqui identificamos especificamente a Revisão do Plano Director de Luanda de 1962 e o Plano de Urbanização do Futungo de Belas de 1960/62. A sua "coqueluche" foi a Unidade de Vizinhança nº1 do Prenda desenvolvida no período 1963/65 que inclui as residências e 22 edifícios construídos, os famosos Lotes do Prenda, sendo que o projecto incluía uma área de 30 hectares. Segundo informação consultada pelo NJ, o plano de Simões de Carvalho era o da construção de um total de dez Unidades de Vizinhança. Por exemplo, o Marçal era a Unidade de Vizinhança nº7, na sua estratégia de transformar os musseques em unidades de vizinhança.

No processo de "Extinção dos Musseques e a sua futura legislação", Simões de Carvalho escreve ao Governador da Provincia de Angola, Venâncio Augusto Deslandes, a carta nº 6406, datada de 20 de Dezembro de 1961, na qual considera "Assunto de carácter político e social ", o qual "só ao Governador compete definir as características para a sua planificação". É um problema cuja solução exige que se considere todo o território da província. A opção do Gabinete baseia-se na política de sociedade multicultural que julgamos ser a vigente para os princípios sociais básicos para a vida nas cidades, isenta de atritos, e nelas se restruture o bem-estar social, que impõe como condição a não realização de qualquer espécie de segregação".

O Centro de Radiodifusão de Angola, a actual Rádio Nacional de Angola (RNA) foi construído no período 1963/67 num projecto de Simões de Carvalho com José Pinto da Cunha e Fernando Alfredo Pereira. Este actual edifício da RNA está relacionado ao seu trabalho académico, a sua tese de arquitectura foi sobre um Centro de Radiodifusão em Angola. E há aqui uma continuidade entre formação, investigação, projecto, construção e infraestrutura nacional de comunicação. Para a defesa da sua tese de arquitectura, Simões de Carvalho realizou visitas de estudo às casas de rádio em França ( Paris, Rennes e Estrasburgo), Alemanha ( Banden- Banden e Hamburgo) e Holanda ( Amsterdão e Hilservum). A sua estrutura arquitectónica, os "aquários " bem vidrados, os espaços verdes, as entradas de luz e a circulação de ar fazem das instalações da actual RNA uma das obras mais marcantes simbólica e emocionamente para o arquitecto.

"O seu maior legado não está nos edificios ou nos planos; está na ideia de que a arquitectura, urbanismo e ensino não deveriam ser campos separados. Simões de Carvalho pertenceu a uma geração que ainda precisamos de estudar com maior profundidade", descreve o arquitecto e colunista do NJ, Wilfredo Figueiredo.

Depois da sua passagem por Luanda, Simões de Carvalho regressou à Lisboa e depois de 1974 trabalhou no Brasil. Entre 1977/79 desenvolveu planos para a Bahia, incluindo o Plano integrado da Cidade de Caji (pensada para cerca de 300 mil habitantes) e o projecto Vilas Atlântico em Salvador. Em 1979, através de um primo, foi enviada uma solicitação ao Ministério da Construção e Habitação para que pudesse regressar e trabalhar em Angola mas que não aconteceu. Ainda voltou a visitar a sua amada Angola, andou pelo seu Prenda, Futungo e esteve na sua RNA. Em 2021, Simões de Carvalho doou o seu acervo à Fundação Marques da Silva, em Portugal. Um nome e um homem cuja obra deve ser estudada e preservada. Um homem cujo o nome devia fazer parte da toponímia de Luanda.