Embora nenhuma página consiga contar todos os capítulos desta história, é preciso recuar até ao século XVIII para encontrar as primeiras linhas de um confronto que, muito antes de ser sobre futebol, já se escrevia entre impérios, bandeiras e disputas de soberania.

Em 1764, a França estabeleceu uma colónia em Port Louis, na ilha Soledad (East Falkland), num arquipélago que a Argentina designa por Malvinas e o Reino Unido por Falkland Islands.

A expedição francesa liderada pelo navegador Louis Antoine de Bougainville baptizou aquelas ilhas de "Îles Malouines", uma designação associada aos marinheiros do porto de Saint-Malo.

Um ano depois, em 1765, o capitão britânico John Byron chegou à ilha Saunders, nas Falklands Ocidentais (West Falkland), onde encontrou um porto natural que baptizou de Port Egmont. Em 1766, a Grã-Bretanha estabeleceu ali um assentamento permanente, dando início a uma sucessão de reivindicações que envolveria França, Espanha, Grã-Bretanha e, mais tarde, a Argentina.

Mas o que despertava tanta cobiça naquele pequeno arquipélago perdido no Atlântico Sul? Mais do que a extensão das suas terras, eram as águas que o rodeavam e a posição que ocupava no mapa que lhe conferiam um valor estratégico quando os impérios se mediam pela força dos seus mares.

No século XVIII, a importância das ilhas estava precisamente na sua localização. Situadas junto às rotas marítimas que ligavam o Atlântico ao Pacífico pelo extremo sul da América, podiam servir como ponto de apoio para navios, abastecimento e projecção do poder naval.

Antes da abertura do Canal do Panamá, em 1914, a passagem pelo sul do continente americano era uma das principais ligações entre os dois oceanos. Ter presença naquele arquipélago significava ocupar uma posição privilegiada numa zona onde as grandes potências procuravam ampliar a sua influência marítima.

Para a Grã-Bretanha, uma força naval global, as ilhas eram também uma importante base de apoio para a Marinha Real, reforçando a capacidade de projecção no Atlântico Sul.

Para a Argentina, aquelas ilhas representavam mais do que uma posição estratégica: eram um território que Buenos Aires entendia ter herdado da Espanha após a independência e cuja soberania considerava ter perdido com a consolidação da presença britânica no século XIX. Essa questão tornou-se uma das principais marcas da relação entre os dois países e ganhou uma nova dimensão com a guerra de 1982.

Aos interesses políticos e militares juntaram-se outros factores: a riqueza das águas envolventes, a biodiversidade marinha, os recursos naturais, incluindo o potencial petrolífero da região, e a importância estratégica que o arquipélago mantém até aos dias de hoje.

O futebol que veio de Inglaterra e ganhou identidade argentina

Outra ligação que importa aprofundar entre Argentina e Inglaterra remonta à influência da comunidade britânica instalada no país durante o século XIX, numa época em que o desporto começava a espalhar-se para além das suas origens.

Em Junho de 1867, sócios do Buenos Aires Cricket Club organizaram aquele que viria a ser considerado o primeiro jogo de futebol disputado nas margens do Rio da Prata. Numa altura em que as regras ainda não estavam totalmente uniformizadas, a partida misturava características do Rugby Football e do Association Football, a modalidade que daria origem ao futebol moderno.

Em Agosto do mesmo ano, era fundado o Buenos Aires Football Club, uma instituição pioneira na organização do futebol. O que começou como uma actividade recreativa rapidamente se transformaria numa das maiores paixões colectivas do país.

Numa primeira fase, confinado às comunidades britânicas, às elites urbanas e aos espaços onde o desporto era apreciado, o futebol acabaria por ultrapassar essas fronteiras. Operários, imigrantes e habitantes dos bairros populares apropriaram-se do jogo, acrescentando-lhe novas formas de expressão, mais espontâneas e criativas.

Dessa fusão entre a matriz inglesa e a cultura local nasceria uma maneira própria de interpretar e viver o desporto-rei, baseada no improviso, na habilidade individual e numa relação emocional com a bola. Décadas mais tarde, essa identidade seria sintetizada na expressão "La Nuestra". Entre os gestos que melhor traduzem essa herança está a "gambeta", a arte de driblar o adversário com habilidade e irreverência.

Quase um século depois, Argentina e Inglaterra cruzar-se-iam num torneio internacional. Nos quartos-de-final do Mundial de 1966, em Wembley, o duelo ficou associado à expulsão do capitão da "Albiceleste", Antonio Rattín, num episódio envolto em confusão, barreiras linguísticas e sentimento de injustiça do lado sul-americano.

Numa época em que ainda não existiam cartões vermelhos, a ordem de saída era transmitida verbalmente pelo árbitro. A polémica daquela partida contribuiu para a reflexão sobre a necessidade de tornar mais claras as sanções disciplinares.

Rattín recordaria mais tarde que mostrou a braçadeira de capitão ao alemão Rudolf Kreitlein e pediu um intérprete para tentar compreender a decisão do árbitro.

A polémica de Wembley seria apenas um prelúdio para um confronto que atingiria um novo patamar no Mundial de 1986, quando Argentina e Inglaterra se reencontraram no México.

Da guerra ao relvado

Em 1978, os "Três Leões" estiveram perto de enfrentar a "Albiceleste", mas o encontro nunca chegou a acontecer. A ferida diplomática em torno das Malvinas/Falklands, já aberta há décadas, tornar-se-ia mais profunda em 1982.

Depois da consagração de Mario Kempes no Estádio Monumental, em 1978, a história mudaria de tom: a disputa saiu dos gabinetes e transformou-se num conflito armado. Quatro anos mais tarde, Diego Maradona reencontraria a Inglaterra no Estádio Azteca, num embate onde a bola carregava memórias que vinham muito antes do apito inicial.

A sua exibição histórica ficaria marcada pelo golo da "Mão de Deus", que "El Pibe" ligaria mais tarde ao sentimento de desforra simbólica que muitos argentinos associariam ao momento após a guerra das Malvinas.

Esse duelo permaneceria na retina dos adeptos ingleses. Em 1998, a história voltou a colocar Argentina e Inglaterra frente a frente. David Beckham, num gesto de frustração perante Diego Simeone, passou de esperança a vilão após a eliminação da Inglaterra. A redenção chegaria em 2002, com um penálti convertido frente à Argentina de Marcelo Bielsa.

No total, Argentina e Inglaterra mediram forças três vezes em Mundiais. Em 2026, em Atlanta, chega o quarto capítulo, num duelo onde o passado continua a pesar tanto quanto o presente.

Percurso das equipas

Após se qualificar com tranquilidade no grupo J, só com vitórias diante da Argélia (3-0), Áustria (2-0) e Jordânia (3-1), com oito golos marcados e apenas um sofrido, a "Albiceleste" percebeu rapidamente que o caminho até Atlanta não seria feito em velocidade cruzeiro.

"La Scaloneta" foi obrigada a adaptar-se constantemente a adversários destemidos, aguerridos e bem preparados. Cabo Verde levou os homens de Lionel Scaloni ao limite, num triunfo por 3-2 após prolongamento. Frente ao Egipto, a Argentina precisou de uma reviravolta épica por 3-2, antes de superar a Suíça por 3-1 nos quartos-de-final.

Com 14 golos marcados e nove sofridos, o talento ofensivo tem convivido com momentos de maior fragilidade defensiva. A campanha também ficou envolta em polémica, com adversários, analistas e adeptos a contestarem algumas decisões de arbitragem e do VAR ao longo da competição.

A caminhada argentina foi construída entre talento individual, experiência competitiva e a capacidade de encontrar soluções quando o jogo ameaça fugir ao controlo. Para isso, conta com a polivalência de Lionel Messi e com o sacrifício colectivo de uma equipa que terá hoje o maior teste até ao momento.

Do lado inglês, prevalece a convicção de uma equipa que aprendeu a sobreviver aos diferentes rostos do Mundial. Mais pragmática do que exuberante, a Inglaterra construiu o caminho na capacidade de resistir aos momentos de maior exigência.

Os "Três Leões" terminaram o grupo L no primeiro lugar, com triunfos diante da Croácia (4-2) e Panamá (2-0), além de um empate sem golos frente ao Gana, fechando a primeira fase com seis golos marcados e dois sofridos.

Nos dezasseis avos-de-final, a equipa de Thomas Tuchel encontrou a República Democrática do Congo, que a obrigou a uma reviravolta para vencer por 2-1. Frente ao México, voltou a demonstrar capacidade de reacção num triunfo por 3-2 e, nos quartos-de-final, eliminou a Noruega por 2-1 após prolongamento.

A Inglaterra chega à meia-final com 14 golos marcados e oito sofridos, sustentada pela força ofensiva de Harry Kane e Jude Bellingham, mas também pela capacidade de sobreviver quando o jogo exige resistência.

Trata-se de uma geração à procura de transformar talento em conquista. Kane continua a ser a referência no último terço, enquanto Bellingham personifica o desequilíbrio e a ambição de uma equipa que sonha regressar a uma final 60 anos depois de 1966, embalada pelo eterno "It"s Coming Home".

Chaves da vitória

A Argentina terá de encontrar os espaços que a Inglaterra por vezes concede entre linhas e nas costas dos laterais. Para isso, a influência de Alexis Mac Allister e Enzo Fernández será decisiva na missão de libertar Messi e aproximá-lo das zonas de decisão. No equilíbrio, Leandro Paredes e Emiliano Martínez terão de responder ao mais alto nível.

A Inglaterra terá uma missão clara: reduzir o raio de influência de Lionel Messi e impedir que o oponente transforme posse em desequilíbrio. A exploração das alas poderá ser uma das armas dos europeus, sobretudo perante uma selecção argentina que revelou algumas fragilidades defensivas nesses corredores.

Factor-X

No conjunto sul-americano, o nome pode ser Leandro Paredes. O médio funciona como o pêndulo da "Albiceleste", equilibrando os momentos defensivos e ofensivos e permitindo que os talentos criativos apareçam.

Do lado inglês, Declan Rice será uma peça determinante. Mesmo sem estar a 100% diante do México, a sua influência permanece decisiva quando consegue impor a capacidade de recuperar, pressionar e organizar o jogo.

Lionel Scaloni guarda ainda alternativas capazes de alterar a dinâmica da partida. Do outro lado, Thomas Tuchel terá a missão de construir a teia capaz de prender o fluxo ofensivo argentino.

Entre o chá e o mate, entre a memória das Malvinas e o peso do relvado, Argentina e Inglaterra procuram uma passagem para a final que pertence ao presente, mas ficará imediatamente inscrita na história.