Início da reestruturação dos felinos - primeira fase com a chegada de Florent Ibengé

Em Agosto de 2014, o presidente da Federação Congolesa, Constant Omari, declarou, citado pela BBC: "Decidimos dar uma chance a um técnico local. Ele fez um bom trabalho com o seu clube, levou-os a uma meia-final da Liga dos Campeões da CAF".

Referia-se ao percurso de Florent Ibengé no AS Vita Club, que naquela temporada protagonizou uma campanha memorável na principal competição africana de clubes. A equipa de Kinshasa terminou a fase de grupos em segundo lugar com os mesmos 11 pontos que o pentacampeão africano TP Mazembe e acabaria por chegar à final, onde perdeu diante do ES Sétif da Argélia pelo critério dos golos fora, após um empate (3-3) no agregado.

Embora assumisse a selecção, manteve também o cargo de treinador do AS Vita Club, porque a oportunidade que lhe era concedida era experimental.

O arranque da qualificação era em Setembro para o CAN 2015, num grupo com Camarões, Serra Leoa e Costa do Marfim.

A missão passava por substituir Claude Le Roy, responsável por conduzir os "Leões Indomáveis" ao título continental em 1988, e que, anos mais tarde, guiou o Gana à 14.ª posição no "Ranking" FIFA, a melhor classificação de sempre das "Estrelas Negras" até então.

Um dos nomes que se pode destacar desse período é Chancel Mbemba, um dos líderes da actual selecção aos 31 anos.

O defesa central lançado por Claude Le Roy, em 2012, aos 17 anos, tornou-se peça-chave com Florent Ibengé. Foi titular em todos os encontros da qualificação, exceptuando dois em que ficou fora devido a uma lesão no joelho, e foi totalista no CAN 2015.

O apuramento foi conseguido com um terceiro lugar, tendo como auge a célebre vitória frente à Costa do Marfim por 4-3, em Abidjan.

Na competição sediada na Guiné Equatorial, a República Democrática do Congo classificou-se para a próxima ronda em segundo lugar, enquanto a Tunísia foi líder do grupo, Cabo Verde ficou em terceiro e a Zâmbia em último.

Nos quartos-de-final, a RDC derrotou a vizinha República do Congo por 4-2, numa partida épica, sucumbindo nas meias-finais perante os "Elefantes" (1-3) que se desforraram da derrota consentida na fase de qualificação.

Porém, a turma às ordens de Ibengé logrou superar os anfitriões nos penáltis por 4-2, depois do nulo no tempo regulamentar, e ficou com o bronze, algo que os congoleses não conseguiam desde 1998, justificando a aposta de Constant Omari.

O ciclo do técnico foi fundamental para criar as bases para o futuro.

Um dos maiores feitos do seu período aconteceu no torneio de selecções destinado a jogadores locais, o CHAN 2016, conquistado pela RDC, com Meschack Elia, uma das figuras daquela campanha, a ser eleito o melhor futebolista da competição. Hoje é uma das vozes de balneário dos "Leopardos".

Cédric Bakambu, uma das referências do ataque congolês, também fez parte do ciclo de Ibengé, que procurou combinar talento formado no país com a diáspora, para fortalecer a base da RDC desde cedo.

A herança mais emblemática da sua equipa nem sequer são os nomes ou os resultados, mas sim o gesto "Fimbu na Fimbu", que deriva da palavra "chicote" traduzida literalmente.

De acordo com a imprensa congolesa, este festejo transforma uma marca historicamente ligada à violência colonial dos opressores belgas num gesto de afirmação e identidade nacional, popularizado entre 2016 e 2017. A celebração ficou associada à canção "Fimbu", de Félix Wazekwa, e à coreografia criada pelo animador Eclipse Mosososo, adoptada nos golos da selecção e evocando a ideia de que os "Leopardos" estavam a punir os adversários.

Em 2018, Florent Ibengé revelou à BBC Sport que pretendia concentrar-se na família e deixar o cargo de seleccionador. A saída acabou por acontecer em 2019, nos oitavos-de-final do CAN diante do Madagáscar, encerrando cinco anos ao leme da República Democrática do Congo e consolidando uma nova identidade.

A fase seguinte foi de transição. Christian Nsengi-Biembe, director técnico da Federação Congolesa, assumiu o comando da selecção, mas não conseguiu garantir o apuramento para o CAN 2021. Um ano antes do Mundial do Qatar 2022, a aposta dos dirigentes recaiu sobre Héctor Cúper para liderar a fase de qualificação. O objectivo falhou com a eliminação frente a Marrocos no play-off.

Segunda fase - Sébastien Désabre, o francês que elevou os "Leopardos" a outro patamar

Se Ibengé devolveu identidade aos Leopardos, o novo timoneiro transformou-a numa equipa preparada para competir no palco máximo.

O nome de Sébastien Désabre já era conhecido pelos adeptos do Girabola. O francês orientou o Recreativo de Libolo e saiu por rescisão amigável quando liderava o campeonato isolado, num contexto de "alegadas divergências à gestão do plantel da equipa no que respeita à valorização dos activos", conforme noticiou a Rede Angola em 2015.

No futebol africano tinha uma reputação construída pelas passagens por ASEC Mimosas (2010-2012), Coton Sport (2012-13) e Espérance de Tunis (2013-14), fase da carreira em que se destacou por potencializar talentos e aprimorar o rendimento das equipas.

A partir de 2022, surgiu uma mudança de mentalidade na selecção congolesa.

Sébastien Désabre recuperou a confiança de um grupo abalado pelo fracasso no caminho para o Mundial do Qatar e voltou a fazer dos "Leopardos" uma equipa competitiva, disciplinada, organizada defensivamente, intensa, solidária, capaz de sofrer sem perder o controlo dos jogos e de ferir os adversários nos momentos decisivos.

A RDC reencontrou no CAN 2023, disputado na Costa do Marfim em 2024, o caminho das grandes campanhas continentais. Os congoleses sobreviveram à fase de grupos com três empates. Eliminaram os "Faraós" nos oitavos-de-final, a Guiné-Conacri nos quartos, e só caíram frente aos futuros campeões, os Elefantes, e frente à África do Sul na batalha pelo terceiro lugar, nos penáltis. Foi a melhor campanha desde o bronze em 2015.

A reconstrução estava em marcha. A fome dos "Leopardos" estava longe de ser saciada. Faltava conquistar o derradeiro objectivo: alcançar as Américas.

Na qualificação para o Mundial 2026, superaram um percurso exigente e carimbaram o passaporte para a maior competição de selecções do planeta, deixando a Nigéria pelo caminho nos penáltis no play-off.

A recuperação diante do Uzbequistão revelou a fortaleza mental deste grupo

Na madrugada de sábado para domingo, a vitória sobre o Uzbequistão confirmou a capacidade de reacção desta geração. Depois da desvantagem desde o minuto 10, com golo de Eldor Shomurodov, a RDC viu um golo anulado num lance contestado, antes de Yoane Wissa empatar aos 68 minutos, de penálti, bisar aos 90+1 e Fiston Mayele completar a reviravolta aos 78 minutos.

Os congoleses terminaram a fase de grupos em terceiro lugar, liderando a classificação dos melhores terceiros.

Agora, segue-se a Inglaterra nos dezasseis avos-de-final. Do outro lado estarão os "Três Leões"; eis a oportunidade de mostrar que há um felino mais feroz neste Mundial.