Só que este sobe e desce, resultante da imprevisibilidade das decisões oriundas da Casa Branca, começa a banalizar, está a deixar de ser o foco dos analistas dos mercados energéticos, que se concentram agora no que será o futuro, mais cedo ou mais tarde, em paz.

É que estas seis semanas de conflito, e duas de cessar-fogo agora sem prazo de validade definido, porque Donald Trump apenas o prolongou, não lhe conferiu qualquer prazo de vigência, aumentando assim as dúvidas nos mercados, não fecharam apenas o Estreito de Ormuz.

Cuja relevância estratégica global é bem conhecida, considerando que por ali escoa 20% do crude e do gás queimados diariamente na fogueira inconsolável da economia planetária, e isso tem, até agora, merecido todas as atenções.

O que começa a deixar de ser verdade porque emerge com veemência acelerada a questão do advir, que é: como vai ser no dia em que a guerra acabar... mesmo!!? A resposta estava à frente dos olhos do mundo mas ninguém lhe deu atenção.

É que o fim da guerra está longe de ser a condição para a normalização dos mercados, do reequilíbrio entre a oferta e a procura... E a razão é simples: uma boa parte da infra-estrutura de produção de crude e LNG no Golfo Pérsico vai levar anos a recompor-se.

Como recorda Alex Kimani, um analista veterano, no site OilPrice, o petróleo tem normalmente um valor de equilíbrio, nem sempre percebido por quem está de fora deste meio e negócio, que, até aqui tem sido de 70 USD, e agora, perante este novo cenário, deverá, citando um relatório do Standard Charter, assentar, no caso do Brent, nos 95 USD.

Nesteas semanas de conflito, onde a coligação israelo-americana, que o começou, tem atacou o Irão, deixando vasta destruição também na infra-estrutura industrial do petróleo e do gás, também o Irão atingiu com severidade o sector energéticos dos aliados dos EUA do outro lado do Golfo Pérsico, que albergam dezenas de bases militares norte-americanas.

Catar, Kuwait, Arábia Saudita e Emiratos Árabes Unidos, todos eles viram os drones e misseis iranianos atingir refinarias, oleodutos, gasodutos, campos de extracção... deixando problemas que nalguns casos podem levar uma década a resolver... e a normalizar.

Isto, quando está a suceder um problema semelhante, embora menos impactante, com a indústria energética da Rússia, devido aos ataques ucranianos às refinarias, portos de exportação, oleodutos...

O que, tudo somado, garante que o futuro não voltará a ser de energia barata, antes de um preço de equilíbrio alto, nos 95 USD, até que pelo menos a situação do lado da oferta volte ao seu fluxo normal...

Para já, o barril de Brent, a referência maior para as ramas exportadas por Angola, estava, perto das 11:30, hora de Luanda, nesta quinta-feira, 23, a valer 103, 8 USD, uma subida de 1,8% face ao fecho anterior, fazendo regressar aos mercados não apenas a dúvida, mas também um sinal de que a partir de agora, as subidas e descidas acontecerão ao ritmo dos ataques da marinha dos EUA a navios iranianos e da marinha iraniana a embarcações ligadas a interesses norte-americanos.

Perante a periclitância deste contexto, como todos os países exportadores e com economias petrodependentes, Angola está numa natural expectativa para ver como correm os dias, ou horas, que se seguem.

Angola soma ganhos, mas...

O actual cenário internacional tende ainda a manter os preços acima do valor estimado pelo Governo angolano para o OGE 2026, que contempla um ajustamento em baixa deste valor, 61 USD, em relação aos 70 USD de 2025, que compara ainda com os actuais 103 USD, no vaso do Brent, perto de 43 USD acima do OGE do ano corrente.

O que pode ser uma faca de dois gumes, porque se o país obtém mais rendimentos deste sector, é igualmente verdade que, enquanto grande importador, especialmente de bens alimentares e refinados do petróleo, esse impacto vai ser fortemente sentido nas contas nacionais de forma igual aos restantes com as mesmas características e perfil económico.

Angola é, por isso, um dos países mais atentos a estas oscilações devido à sua conhecida dependência das receitas petrolíferas, e a importância que estas têm para lidar com a grave crise económica que atravessa, especialmente nas dimensões inflacionista e cambial.

Isto, porque o crude ainda responde por cerca de 90% das exportações angolanas, 35% do PIB nacional e 60% das receitas fiscais do país, o que faz deste sector não apenas importante mas estratégico para o Executivo.

O Governo deposita esperança, no curto e médio prazo, de conseguir o objectivo de aumentar a produção nacional, uma das razões por que abandonou a OPEP em 2023, actualmente abaixo de 1 mbpd, gerando mais receita no sector de forma a, como, por exemplo, está a ser feito há anos em países como a Arábia Saudita ou os EAU, usar o dinheiro do petróleo para libertar a economia nacional da dependência do... petróleo.

O aumento da produção nacional, cujo potencial cresceu significativamente já este ano com o anúncio da TotalEnergies de uma grande descoberta com potencial de 500 mb, não está a ser travada por falta de potencial, porque as reservas estimadas são de nove mil milhões de barris e já foi superior a 1,8 mbpd há pouco mais de uma década, o problema é claramente o desinvestimento das majors a operar no país.

Aliás, o Governo de João Lourenço tem ainda como motivo de preocupação uma continuada e prevista redução da produção de petróleo, que se estima que seja na ordem dos 20% na próxima década, estando actualmente â beira de 1 milhão de barris por dia (mbpd), muito longe do seu máximo histórico de 1,8 mbpd em 2008.

Por detrás desta quebra, entre outros factores, o desinvestimento em toda a extensão do sector, deste a pesquisa à manutenção, quando se sabe que o offshore nacional, com os campos a funcionar, está em declínio há vários anos devido ao seu envelhecimento, ou seja, devido à sua perda de crude para extrair e as multinacionais não estão a demonstrar o interesse das últimas décadas em apostar no país.

A questão da urgente transição energética, devido às alterações climáticas, com os combustíveis fosseis a serem os maus da fita, é outro factor que está a esfumar a importância do sector petrolífero em Angola.