Tudo, porque a seguir à descida vertiginosa de 15% em minutos com o alívio do cessar-fogo entre beligerantes no Médio Oriente, esta quinta-feira, 09, está de novo a ser histórica mas apenas porque a normalidade está a ser reposta.
Isto porque, como a maior parte dos cessar-fogo naquela conturbada, mas estratégica, região do mundo, este também parece estar em desmoronamento mas ganhou forma, com Israel a atacar o Líbano com uma violência raramente vista, sendo que o Irão diz que as tréguas também abrangem aquela "frente" e Telavive e Washington dizem que não. (Ver aqui a razão de uns e de outros).
A verdade é que a questão do conflito que tem como opositores a coligação israelo-americana, que o começou a 28 de Fevereiro, e o Irão, e tem o epicentro no Golfo Pérsico, onde diariamente é produzido 20% do crude e do gás mundiais, esmaga todas as razões comuns para o sobe e desce nos mercados energéticos, como se não existisse mais nada.
E assim está a ser este dia de quinta-feira, 09, especialmente desde que o Irão voltou a fechar o Estreito de Ormuz, por onde essa energia passa, saindo do Golfo Pérsico para o Oceano Índico, acrescentando minas navais ao problema, o que torna ainda mais audaciosa qualquer tentativa de o atravessar pelos milhares de navios que esperam e desesperam de um e do outro lado.
E é assim que perto das 14:20 de hoje, hora de Luanda, o barril de Brent, referência principal para as ramas exportadas por Angola, estava a valer 98,1 USD, uma subida de quase 3,5% face ao fecho de quarta-feira, 08, quando em Nova Iorque, onde, como raramente sucede, o WTI passou a valer mais que a medida londrina, o preço estava acima de 99,5 USD.
E os analistas alertam para o facto de estes valores não terem disparado de novo para perto dos 110 USD porque o Irão e os EUA ainda não desmarcaram oficialmente a ronda de negociações que estava, e está, agendada para esta sexta-feira, 10, em Islamabad, a capital do Paquistão, país que liderou os esforços de mediação entre beligerantes.
Perante a periclitância deste contexto, como todos os países exportadores e com economias petrodependentes, Angola está numa natural expectativa para ver como correm os dias, ou horas, que se seguem.
Angola soma ganhos, mas...
O actual cenário internacional tende ainda a manter os preços acima do valor estimado pelo Governo angolano para o OGE 2026, que contempla um ajustamento em baixa deste valor, 61 USD, em relação aos 70 USD de 2025, que compara ainda com os actuais 98 USD, perto de 37 USD acima do OGE do ano corrente.
O que pode ser uma faca de dois gumes, porque se o país obtém mais rendimentos deste sector, é igualmente verdade que, enquanto grande importador, especialmente de bens alimentares e refinados do petróleo, esse impacto vai ser fortemente sentido nas contas nacionais de forma igual aos restantes com as mesmas características e perfil económico.
Angola é, por isso, um dos países mais atentos a estas oscilações devido à sua conhecida dependência das receitas petrolíferas, e a importância que estas têm para lidar com a grave crise económica que atravessa, especialmente nas dimensões inflacionista e cambial.
Isto, porque o crude ainda responde por cerca de 90% das exportações angolanas, 35% do PIB nacional e 60% das receitas fiscais do país, o que faz deste sector não apenas importante mas estratégico para o Executivo.
O Governo deposita esperança, no curto e médio prazo, de conseguir o objectivo de aumentar a produção nacional, uma das razões por que abandonou a OPEP em 2023, actualmente abaixo de 1 mbpd, gerando mais receita no sector de forma a, como, por exemplo, está a ser feito há anos em países como a Arábia Saudita ou os EAU, usar o dinheiro do petróleo para libertar a economia nacional da dependência do... petróleo.
O aumento da produção nacional, cujo potencial cresceu significativamente já este ano com o anúncio da TotalEnergies de uma grande descoberta com potencial de 500 mb, não está a ser travada por falta de potencial, porque as reservas estimadas são de nove mil milhões de barris e já foi superior a 1,8 mbpd há pouco mais de uma década, o problema é claramente o desinvestimento das majors a operar no país.
Aliás, o Governo de João Lourenço tem ainda como motivo de preocupação uma continuada e prevista redução da produção de petróleo, que se estima que seja na ordem dos 20% na próxima década, estando actualmente â beira de 1 milhão de barris por dia (mbpd), muito longe do seu máximo histórico de 1,8 mbpd em 2008.
Por detrás desta quebra, entre outros factores, o desinvestimento em toda a extensão do sector, deste a pesquisa à manutenção, quando se sabe que o offshore nacional, com os campos a funcionar, está em declínio há vários anos devido ao seu envelhecimento, ou seja, devido à sua perda de crude para extrair e as multinacionais não estão a demonstrar o interesse das últimas décadas em apostar no país.
A questão da urgente transição energética, devido às alterações climáticas, com os combustíveis fosseis a serem os maus da fita, é outro factor que está a esfumar a importância do sector petrolífero em Angola.

