E não é mentira que, depois de ter chegado muito próximo da barreira dos 120 USD logo nos primeiros dias de Março, os mercados foram ganhando a forma de uma montanha-russa, reagindo às declarações do Presidente dos EUA.

Precisamente o que está a suceder no primeiro dia de Abril e 32º dia de guerra que tem o Golfo Pérsico como epicentro, e o Estreito de Ormuz, por onde os petroEstados da região escoam 20% do crude e do gás (LNG) mundiais, que o Irão mantém fechado, como a vala de escape que todos querem ver abrir...

Em declarações aos jornalistas, Donald Trump voltou agora a mexer fortemente nos gráficos ao afirmar que os EUA vão sair deste conflito "dentro de duas a três semanas", com ou sem acordo com o Irão.

Os mercados gostaram de ouvir que em três semanas, no máximo, os mais de 20 milhões de barris que todos os dias lhes chegam desde o Golfo Pérsico, poderão voltar a escorrer pela economia planetária...

Se imediatamente com a mesma fluidez de antes, essa é outra ponta do problema, porque os danos causados pelas explosões na infra-estrutura petrolífera e do LNG, tanto entre os aliados dos EUA, onde estão dezenas de bases militares, como no Irão, fustigado por 32 dias de bombardeamentos israelo-americanos, estão longe da capacidade de resposta pré-conflito.

E é neste emaranhado de incertezas que o barril de Brent, que serve de referência principal para as exportações angolanas, estava esta manhã de quarta-feira, 01, perto das 09:00, hora de Luanda, a valer 99,10 USD, menos 3% que no fecho da sessão anterior, onde já tinha resvalado outros tantos degraus, logo após as declarações de Trump.

O que faz com que Angola, um dos países produtores de crude, e também de gás LNG, seja um espectador entre os mais atentos em todo o mundo para o que está a acontecer no Médio Oriente.

Angola soma ganhos, mas...

O actual cenário internacional tende, apesar de com menos vigor assim que o conflito terminar, a manter os preços acima do valor estimado pelo Governo angolano para o OGE 2026, que contempla um ajustamento em baixa deste valor, 61 USD, em relação aos 70 USD de 2025, que compara ainda com os actuais quase 100 USD, 39 USD acima do OGE do ano corrente.

O que pode ser uma faca de dois gumes, porque se o país obtém mais rendimentos deste sector, é igualmente verdade que, enquanto grande importador, especialmente de bens alimentares e refinados do petróleo, esse impacto vai ser fortemente sentido nas contas nacionais de forma igual aos restantes com as mesmas características e perfil económico.

Angola é, por isso, um dos países mais atentos a estas oscilações devido à sua conhecida dependência das receitas petrolíferas, e a importância que estas têm para lidar com a grave crise económica que atravessa, especialmente nas dimensões inflacionista e cambial.

Isto, porque o crude ainda responde por cerca de 90% das exportações angolanas, 35% do PIB nacional e 60% das receitas fiscais do país, o que faz deste sector não apenas importante mas estratégico para o Executivo.

O Governo deposita esperança, no curto e médio prazo, de conseguir o objectivo de aumentar a produção nacional, uma das razões por que abandonou a OPEP em 2023, actualmente abaixo de 1 mbpd, gerando mais receita no sector de forma a, como, por exemplo, está a ser feito há anos em países como a Arábia Saudita ou os EAU, usar o dinheiro do petróleo para libertar a economia nacional da dependência do... petróleo.

O aumento da produção nacional, cujo potencial cresceu significativamente já este ano com o anúncio da TotalEnergies de uma grande descoberta com potencial de 500 mb, não está a ser travada por falta de potencial, porque as reservas estimadas são de nove mil milhões de barris e já foi superior a 1,8 mbpd há pouco mais de uma década, o problema é claramente o desinvestimento das majors a operar no país.

Aliás, o Governo de João Lourenço tem ainda como motivo de preocupação uma continuada e prevista redução da produção de petróleo, que se estima que seja na ordem dos 20% na próxima década, estando actualmente â beira de 1 milhão de barris por dia (mbpd), muito longe do seu máximo histórico de 1,8 mbpd em 2008.

Por detrás desta quebra, entre outros factores, o desinvestimento em toda a extensão do sector, deste a pesquisa à manutenção, quando se sabe que o offshore nacional, com os campos a funcionar, está em declínio há vários anos devido ao seu envelhecimento, ou seja, devido à sua perda de crude para extrair e as multinacionais não estão a demonstrar o interesse das últimas décadas em apostar no país.

A questão da urgente transição energética, devido às alterações climáticas, com os combustíveis fosseis a serem os maus da fita, é outro factor que está a esfumar a importância do sector petrolífero em Angola.