Angola já alcançou importantes avanços na área da saúde, mas o país deve elevar ainda mais o nível de excelência dos seus serviços. O Sistema Nacional de Saúde ( SNS) já tem um Ferrari, mas o grande desafio consiste em colocá-lo na pista da Fórmula 1 e vencer", disse a ministra da Saúde, Sílvia Lutucuta, quando falava aos funcionários do Hospital dos Queimados "Julius Nyerere", no Kilamba, avançando que o SNS vai contar com um Ferrari a correr na pista de Fórmula 1 para ganhar a competição dos cuidados prestados pelos angolanos.
Com estas declarações, fiquei a saber que temos finalmente um "SNS" que anda a altas rotações, que "tem já um Ferrari"... assim sendo, o novo Hospital Militar deve ser o "Lamborghini" , o Hospital Cardeal D. Alexandre do Nascimento o "Aston Martin", o Hospital Pedalé o "Rolls- Royce" e o Azancoth de Menezes o "Bugatti" nesta classificação de hospitais de alta cilindrada, fazendo recurso à analogia que a ministra Lutucuta decidiu inventar. Obviamente que a ministra Lutucuta não vai falar dos " rabos de pato", dos " galinha-rija", " gira-bairro", " Starlet Bolinha", " Kaleluias", "Dudu faz Tudo" ou os " Katukutukus" do Sistema Nacional de Saúde que existem e andam esquecidos no sistema primário.
Esquecidos também devem estar os órgãos de comunicação social privados como o NJ, que já enviou mais de vinte cartas de pedidos de entrevista à titular do sector da saúde, a qual juntamente com a sua equipa nunca se dignaram a responder. São os servidores públicos da era do "comunicar mais". Ter um Ferrari no "SNS" é ter indicadores epidemiológicos aceitáveis que não nos envergonham: baixas mortalidade infantil e materna, acesso aos cuidados primários de saúde a mais de 90% da população, baixa mortalidade por patologias infecto- parasitárias como a malária e a tuberculose, baixo índice de desnutrição e elevado de vacinação das suas populações, da qual só cerca de 30% encontra-se vacinada contraa Hepatite. Estes indicadores é que deveriam ser o nosso cartão-postal, o nosso verdadeiro "Ferrari"! A ministra Lutucuta, é que é a mecânica - chefe da equipa da Ferrari quando o principal piloto da sua escuderia desiste de conduzir o Ferrari que tem em Angola e opta por passar 22 dias a conduzir um "Calhambeque" no Brasil.
Um Governo que não aposta nos cuidados primários, os quais de facto, seriam as prioridades, como a requalificação dos centros e postos de saúde, com programas de saúde pública...! Mas o propósito é claro: é o de construir e apetrechar mega obras para, na proporção da instituída "mixa", assegurar o "bolo gigante". É a nova acumulação primitiva de capitais; é que os da era "pós- marimbondos" têm apenas dez anos e não os 37 que tiveram os seus antecessores, e depois vêm os outros. Andamos assim há cinquenta anos! Como diz Paulo Flores, "é mais um esperto para nos enganar, é mais um deserto para atravessar". Assim sendo, robótica, tecnologia de ponta, hospitais terciários e multi- diferenciados têm de ser a aposta de quem agora manda na casa, e quem ousar questionar é inimigo público, ainda que morram crianças pelo país por falta de soro ou de uma aspirina.
Os indicadores gritam: a malária continua a ser a principal causa de morbi-mortalidade no país. A seguir temos as doenças diarreicas e respiratórias, depois a hipertensão arterial e as diabetes, a tuberculose e o VIH/ SIDA fecham a lista. Daí que muitos profissionais do sector defendam um pacto nacional multissectorial, no qual o Governo, numa perspectiva transversal, implemente programas de urbanização, saneamento, àgua potável e medidas de prevenção para as principais causas de mortalidade.
Mas a estratégia é de uma aposta invertida nos cuidados terciários em detrimento dos primários. As manutenções destas infraestruturas são de custos astronómicos, os recursos humanos estão a ser formados em massa e não com a sustentabilidade temporal que se lhe exige pelas especialidades. Os desafios do país continuam a ser primários, o dinheiro em excesso continua a ditar as más escolhas e a falta de estratégias estruturadas. Assim, avançamos para os hospitais ditos de "alta cilindrada", mas os donos das escuderias e os principais pilotos preferem fazer " Velocidade Furiosa" em Espanha, Àfrica do Sul, Brasil, EUA e Portugal.
Perdemos todos nós por causa dos silêncios cobardes, por falta de conhecimentos, pelas lealdades convenientes, por incompetência , por cansaço e pela necessidade de manter o "pão na mesa". E mais lá à frente virá a factura e alguém vai pagá-la, quer sejamos nós, os nossos filhos ou os nossos netos. A atenção primária deve ser a prioridade dos sistemas de saúde. Mas a ministra Lutucuta diz que o nível dos serviços de saúde em Angola são, afinal, de excelência, e só nós, o "povo em geral", é que não sabemos. Nós o povo é que andamos distraídos e atrasados num país que já tem hospitais de "alta cilindrad"a.
