São passados quatro anos desde o início daquela que a Rússia chama de "Operação Especial", que resultou num conflito que parece não ter fim à vista. Qual é a vossa visão sobre a situação actual?

O conflito, inicialmente intra-ucraniano, já dura, de facto, 12 anos. Começou em 2014 quando um grupo neonazista que glorifica os criminosos de guerra da Segunda Guerra Mundial chegou ao poder em Kiev, na sequência do golpe de Estado fomentado pelo Ocidente e desencadeou uma operação punitiva contra a parte da população que se recusou a obedecer às leis repressivas que proibiam a cultura e a língua russas, que lhes são nativas.

Até 2022, a Rússia actuou como mediadora entre as regiões em causa e Kiev, procurando encontrar uma solução política e diplomática para o conflito. No entanto, o regime de Kiev, aproveitando-se da ajuda financeira e militar maciça do Ocidente, continuou a aumentar o seu potencial militar. As ameaças contra a Rússia cresceram, uma vez que Kiev oficializou a estratégia de confronto com o nosso país como um dos princípios fundamentais da sua política externa.

A operação militar especial tornou-se uma medida necessária em resposta ao nível crítico de ameaças à Rússia. Entre elas, podem-se citar as declarações da liderança ucraniana sobre a possibilidade de criar as suas próprias armas nucleares (contrariando acordos internacionais) e o seu desejo de entrar na Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO).

A perspectiva de colocar infra-estruturas militares da aliança, incluindo armas nucleares, no território ucraniano é inaceitável, considerando que a NATO foi historicamente criada como um bloco contra a Rússia.

Actualmente, o nosso país está a empreender ainda mais uma tentativa de alcançar uma resolução política e diplomática para o conflito.

A primeira foi feita em Istambul, na Primavera de 2022, mas Kiev, com o incentivo dos seus patrocinadores britânicos, recusou-a.

Neste momento, os esforços estão direccionados para alcançar a paz, levando em conta as realidades existentes "no terreno". 

Têm sido realizados vários processos negociais, mas certo que até hoje a paz nunca foi alcançada. Acreditam numa solução pacífica para o conflito?

A prioridade do nosso país sempre tem sido a solução política e diplomática. O primeiro sucesso significativo na via pacífica foi alcançado menos de um ano após o início do conflito entre as autoridades de Kiev e a resistência do Donbass foram assinados os Acordos de Minsk, que faziam parte vinculativa do Direito Internacional, tendo sido aprovados pelo Conselho da Segurança da ONU.

No entanto, a sua implementação foi regularmente minada pela parte ucraniana e, após 2019, Kiev começou a declarar abertamente a sua relutância em cumprir os acordos anteriormente alcançados.

Na primeira metade de 2022, as autoridades ucranianas recusaram-se, mais uma vez, a prosseguir com o projecto de acordo que já tinham rubricado. A propósito, foi este documento que o Presidente da Rússia Vladimir Putin apresentou à delegação de líderes africanos em 17 de Junho de 2023 em São Petersburgo.

A relutância das autoridades ucranianas e da parte das elites do Ocidente em chegar a um acordo pacífico pode ser explícita pelo facto de os patrocinadores ocidentais não estarem dispostos a "registar prejuízos" após investimentos tão significativos (segundo estimativas, o montante chegará a quase 400 mil milhões de dólares dos EUA) no actual sistema ucraniano.

A questão da neutralidade da Ucrânia e a garantia de que Kiev não entre na NATO continua a ser uma das vossas posições nestas negociações. Há um receio de um envolvimento e um confronto directo com a NATO?

Ainda a 14 de Junho de 2024, o Presidente da Rússia anunciou os pontos fundamentais que a Rússia considera necessárias para resolver o conflito. Um deles é a recusa oficial da adesão da Ucrânia à NATO, uma vez que este bloco militar é, na sua essência, uma força militar dirigida contra a Rússia e, portanto, representa uma ameaça existencial para o nosso país.

Por outro lado, é óbvio que, nas condições actuais, a adesão da Ucrânia à NATO é impossível - isso é reconhecido pelos próprios líderes da aliança. Consequentemente, a retórica sobre um confronto directo entre a NATO e a Rússia não passa de um discurso para o público interno do Ocidente, destinado a justificar o aumento das despesas militares e a deterioração da situação socioeconómica da sua própria população.

A Rússia pretende que a Ucrânia e a comunidade internacional reconheçam a sua soberania na Crimeia, Lugansk, Donetsk, Kherson e Zaporizhia. Trata-se de uma posição que Kiev e os seus aliados não aceitam e que pode estar a dificultar todo o processo. Que legitimidade e autoridade tem a Rússia sobre esses territórios?

Resulta-se do Direito Internacional. A legitimidade da integração das Repúblicas Populares de Donetsk e de Lugansk e regiões de Kherson e de Zaporozhie na Rússia é garantida pelos referendos realizados entre a população desses territórios. Estes, por sua vez, baseiam-se no direito dos povos à autodeterminação, consagrado na Carta das Nações Unidas.

Tanto Kiev como o Ocidente, que afirmam respeitar o Direito Internacional, terão de reconhecer a vontade expressa pelas pessoas.

Enquanto decorre o processo negocial, a Rússia tem aumentado a pressão e os ataques sobre Kiev e outras regiões da Ucrânia.

Admitem um cessar-fogo durante este período negocial?

Ocidentais são um instrumento de coacção e subjugação de outros Estados, o que, na sua essência, é uma forma de neocolonialismo.

Ao longo dos últimos anos, a Rússia desenvolveu mecanismos eficazes de protecção da economia, que lhe permitem manter a resistência à pressão externa. Graças a isso, o nosso país conseguiu lidar com sucesso com inúmeras restrições impostas. O mesmo não se pode dizer dos próprios iniciadores das sanções, especialmente dos países europeus. Uma das principais razões para o seu declínio socioeconómico foi precisamente a recusa dos combustíveis tradicionais russos, que afectou gravemente a sua própria indústria e o bem-estar dos cidadãos.

Sentem que a Rússia tem perdido influência no continente africano em função deste conflito. Qual tem sido a vossa estratégia de fortalecimento das relações e reforço da influência com os países africanos?

A cooperação com África é uma das prioridades da política externa da Rússia. Desde 2019, são realizadas reuniões regulares, incluindo ao mais alto nível, no formato "Rússia-África". Já foram realizadas duas cimeiras e duas conferências ministeriais. A última ocorreu no final de Dezembro, onde o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Serguei Lavrov, realizou cerca de 20 reuniões com os seus homólogos africanos.

A minha própria experiência profissional de interacção com representantes oficiais de países africanos também atesta o alto nível de confiança e compreensão mútua entre África e a Rússia.

Como estão hoje as relações entre a Rússia e Angola? Acredita que podiam estar melhor?

As relações entre os nossos países estão num nível excelente, o que foi constatado, em particular, no decorrer do meu recente encontro com Sua Excelência o Ministro das Relações Exteriores, Téte António, em 6 de Fevereiro de 2026. Já existe uma base sólida e potencial para o futuro em todas as áreas: agricultura, cooperação técnico-militar, indústria, mineração, energia, comércio, alta tecnologia, formação, cultura... Todas as opções estão na mesa. Estamos a trabalhar juntos para concretizar os projectos desta ampla gama de possibilidades.

As relações entre Moscovo e Luanda são fortalecidas por laços históricos de amizade e cooperação mutuamente benéfica, inclusive na conquista por Angola da Independência nacional.

Neste sentido, destacam-se as palavras de Sua Excelência o Presidente da República, João Manuel Gonçalves Lourenço: "Os povos africanos que beneficiaram dessa ajuda estão eternamente gratos à Rússia por este apoio dado".

Desde Agosto do ano passado que Moscovo não tem embaixador em Luanda e não há memória de um período tão longo sem um chefe de missão da Rússia em Angola.

Existe algum "irritante" diplomático?

Está a correr os seus trâmites. A nomeação do novo Embaixador é um processo que requer tempo, devido à necessidade de cumprir procedimentos internos, bem como as normas diplomáticas previstas pelo Direito Internacional.

Até à chegada de um novo Embaixador nomeado, as suas funções são desempenhadas pelo Encarregado de Negócios, o que é práctica comum.