Assinalam-se quadro anos desde o início do conflito Rússia-Ucrânia. Qual é a sua avaliação da situação actual?
A agressão russa destruiu a paz na Europa e constituiu um desafio directo ao princípio essencial do direito internacional e da Carta das Nações Unidas - proibição fundamental da ameaça ou uso da força contra a integridade territorial ou a independência política de qualquer Estado, baseando-se no respeito à soberania e na solução pacífica de controvérsias.
Quatro anos de guerra em grande escala confirmaram o essencial: a Rússia não alcançou os seus objectivos estratégicos. A Ucrânia resistiu como Estado soberano, preservou as suas instituições democráticas e continua a defender a sua liberdade.
Ao mesmo tempo, a guerra permanece extremamente brutal, e a Rússia aposta cada vez mais não numa "vitória no campo de batalha", mas no terror contra a população civil.
Os últimos ataques russos deixaram mais de um milhão de ucranianos sem aquecimento. Como é que vocês estão a lidar com isso?
A Rússia transformou o Inverno e a energia em armas. A nossa abordagem baseia-se numa recuperação o mais rápido possível, esquemas de fornecimento de energia de reserva, descentralização, caldeiras móveis e geração alternativa, bem como na importação de electricidade da rede eléctrica europeia interligada. A assistência internacional é igualmente crucial em particular o fornecimento de geradores e equipamentos.
Agradecemos, sinceramente, a todos os que apoiam a Ucrânia, incluindo ao empresário angolano que tem prestado ajuda a hospitais e civis ucranianos.
Mas existe mais um processo negocial em curso entre Rússia e Ucrânia com a mediação dos EUA. Acredita que será possível garantir-se uma solução por via de negociações?
A Ucrânia nunca rejeitou a diplomacia. Contudo, as negociações só fazem sentido se conduzirem ao fim real da agressão, e não se servirem para que o agressor ganhe tempo para reconstituir recursos ou reorganizar forças para continuar a guerra. Apoiamos os esforços diplomáticos, mas o critério essencial é o resultado: uma paz justa e duradoura, e não uma "pausa" antes de um novo ataque.
Importa informar que, apesar dos esforços de paz liderados pelos Estados Unidos da América e apoiados pela Europa, o Kremlin não demonstra disposição para cessar a agressão. Entre 8 e 15 de Fevereiro de 2026, a Rússia lançou contra a Ucrânia cerca de 1.300 drones de ataque, mais de 1.200 bombas aéreas guiadas e 50 mísseis, a maioria balísticos.
É, portanto, surpreendente que a Ucrânia seja criticada por exercer o seu legítimo direito de autodefesa e por neutralizar o potencial militar do estado-agressor russo.
A ausência da União Europeia não retira força ao processo negocial? Como é que a Ucrânia encarra o facto de um dos seus maiores parceiros estar fora das negociações?
A União Europeia é um dos nossos maiores parceiros, e o seu papel é fundamental. Os formatos podem variar, mas o apoio europeu político, económico, humanitário e de defesa continua determinante.
Não encaramos isso como uma "exclusão", mas como diferentes instrumentos de actuação em distintos formatos diplomáticos.
Neste momento, a comunidade internacional deve falar e agir unida em prol do restabelecimento da soberania e da integridade territorial da Ucrânia. Um dos pontos críticos destas negociações é o facto de a Ucrânia vir ter de ceder território à Rússia.
O seu país mantém a posição de não aceitar qualquer decisão que resulte em alteração territorial e violação de soberania?
Sim. A posição da Ucrânia é de princípio: soberania e integridade territorial não são negociáveis. Permitir que o agressor legitime a ocupação e a anexação pela força enviaria ao mundo a mensagem de que o direito internacional não funciona. Isso abriria caminho a novos conflitos em várias regiões, inclusive em África, que já enfrenta diversos desafios de segurança.
Quais são os vossos termos para a negociação pela paz?
Falamos de princípios básicos em conformidade com o direito internacional: cessação da agressão, restauração da integridade territorial, libertação de prisioneiros e regresso dos deportados, incluindo crianças, bem como garantias de segurança eficazes para impedir a repetição da guerra. A paz deve ser justa e sustentável.
Temos visto também o Presidente Zelenskyy "encurralado" entre a posição do Presidente Trump e a dos seus aliados da União Europeia.
Como é que pode gerir um processo com dois importantes aliados com posições antagónicas?
Entre aliados, podem existir diferenças de ênfase ou de abordagem isso é normal. Contudo, estrategicamente, estamos unidos num ponto essencial: não se pode premiar a agressão. A diplomacia ucraniana trabalha para preservar a unidade dos parceiros em torno de princípios e soluções práticas que reforcem a segurança da Ucrânia e da Europa.
Apelamos também para que a voz de África se faça ouvir de forma firme na defesa da Carta da Organização das Nações Unidas e do direito internacional.
Num contexto global, consideramos que a reforma da Organização das Nações Unidas, em particular do seu principal órgão o Conselho de Segurança da ONU é um elemento-chave para prevenir futuras agressões.
Esta abordagem é do interesse tanto da Ucrânia como de Angola do ponto de vista da protecção da soberania e da integridade territorial, da representação de África no Conselho de Segurança, da limitação do abuso do direito de veto e da construção de uma arquitectura de segurança internacional mais justa e estável.
Acredita num futuro de paz com a Rússia? Ou considera este país uma ameaça para a paz e estabilidade mundial?
A paz será possível quando a Rússia abandonar a lógica imperial e colonial de alterar fronteiras pela força. Actualmente, as suas acções constituem uma ameaça não apenas à Ucrânia, mas também aos fundamentos da segurança internacional.
Ou seja, os métodos criminosos russos representam uma ameaça não só para a Ucrânia, mas também para outros países africanos, em particular Angola. É sabido que, segundo as autoridades policiais angolanas, existia no seu território nacional uma rede ligada a cidadãos da Federação Russa que, através de contactos políticos, provocações informativas e incitação a protestos, tentou abalar a estabilidade interna de Angola e desestabilizá-la, aproveitando-se da greve dos taxistas no final de Julho de 2025, que resultou em dezenas de vítimas.
Eu já tinha afirmado que a Rússia, por um lado, cumprimenta os altos funcionários angolanos, falando de relações amigáveis e estratégicas de longa data com Angola e, por outro, patrocina a desestabilização do país. Neste contexto, existe uma frase muito apropriada: "Com amigos assim, quem precisa de inimigos?". É um ditado conhecido que descreve a situação em que pessoas aparentemente próximas, amigos ou parceiros agem em detrimento, traem ou causam mais transtornos e dor do que inimigos declarados.
É o actual embaixador da Ucrânia em Angola e está cá desde Outubro do ano passado. Qual é a sua visão sobre o nosso País?
Em primeiro lugar, gostaria de esclarecer que não sou o primeiro, mas o terceiro embaixador extraordinário e plenipotenciário da Ucrânia na República de Angola, pois, antes de mim, essa missão foi desempenhada por Volodymyr Lakomov, como embaixador residente entre 2004 e 2007, e por Oleksandr Nykonenko, entre 2013 e 2014, como embaixador não-residente. A Embaixada da Ucrânia na República de Angola funciona e desempenha as suas funções desde 2004.
Angola é um país com grande potencial, recursos significativos e uma população jovem e activa. Para além disso, é evidente a liderança de Angola numa série de processos continentais, iniciativas e superação de desafios. Angola desempenha um papel importante na região e tem ambições de desenvolvimento. Vemos oportunidades para uma cooperação pragmática e mutuamente benéfica, não em teoria, mas em projectos concretos, e já começámos a trabalhar neles.
Propusemos projectos e iniciativas concretos e esperamos da Parte Angolana um trabalho conjunto activo em prol dos nossos interesses comuns, conforme acordado pelos Presidentes da Ucrânia e de Angola em 24 de Setembro de 2025, em Nova Iorque.
Com certeza falaremos mais sobre os nossos sucessos ucraniano-angolanos. Espero que num futuro próximo.
Qual é a estratégia da Ucrânia para o nosso País? Em que áreas pretendem incidir a vossa cooperação?
A nossa estratégia consiste em expandir parcerias onde exista benefício mútuo: economia e comércio, agricultura e segurança alimentar, energia, educação, saúde, desporto, inovação e tecnologia. Estamos, igualmente, interessados em iniciativas humanitárias e no fortalecimento de contactos interpessoais.
Há também ligações históricas entre Angola e a Ucrânia que datam já do tempo da URSS. Chegou a falar da criação de uma associação que vai integrar angolanos que estudaram no seu país. Quais serão os seus objectivos?
Trata-se de uma ideia muito prática e oportuna. Centenas, e até milhares de angolanos, em diferentes períodos, obtiveram formação académica na Ucrânia, e essas pessoas constituem uma "ponte" entre os nossos países: conhecem a língua, compreendem a cultura, possuem vínculos pessoais e experiência profissional que pode contribuir para o desenvolvimento da parceria bilateral. É significativo que o ministro das Relações Exteriores de Angola, Téte António, também pertença a essa geração, tendo estudado na Universidade Nacional Taras Shevchenko de Kyiv. Isto não é apenas um dado biográfico, mas um exemplo de quão profundos podem ser os laços humanos e educacionais entre Angola e a Ucrânia.
O objectivo da associação é reunir os antigos estudantes, manter e restabelecer contactos, desenvolver redes profissionais e empresariais, promover iniciativas educativas, científicas, desportivas e culturais, bem como servir de plataforma estável para a comunicação e o apoio mútuo.
Em termos práticos, isso pode significar a organização de encontros e eventos conjuntos de antigos estudantes, programas de mentoria para jovens, apoio ao estabelecimento de parcerias entre universidades e empresas, bem como a promoção da Ucrânia contemporânea na sociedade angolana através das histórias pessoais de quem a conhece bem, para além de contribuir para dar a conhecer Angola aos cidadãos ucranianos.
A educação e o desporto são áreas que a Ucrânia definiu neste reforço da cooperação com Angola.
Porque são áreas que criam rapidamente confiança e laços de longo-prazo. A educação forma recursos humanos qualificados e abre oportunidades de desenvolvimento, enquanto o desporto constitui um instrumento poderoso de diplomacia juvenil, intercâmbios e iniciativas conjuntas. Nestes domínios, podemos apresentar resultados concretos.
Para além disso, tanto na Ucrânia como em Angola, o futebol e as artes marciais são extremamente populares, e não é raro que atletas ucranianos e angolanos partilhem os pódios em competições desportivas.
A Ucrânia aumentou de 10 para quase 20 o número de embaixadas no continente africano. Trata-se de um sinal claro de que África joga um papel importante na vossa estratégia de cooperação internacional. Quer comentar?
África é o continente do futuro, com enorme potencial humano e económico. A Ucrânia deseja e pode ser um parceiro fiável em segurança alimentar, tecnologias agrícolas, educação, soluções digitais e programas humanitários. A expansão diplomática é um investimento numa cooperação estrutural baseada no progresso comum.
Sendo África um continente onde a Rússia ainda tem grande influência e implementação, faz parte da vossa estratégia "travar" a influência russa em muitos dos países desse continente?
A nossa abordagem não consiste numa "disputa por influência", mas numa parceria baseada no respeito pela soberania e em benefícios concretos. Propomos cooperação sem chantagem, sem imposições e sem condições ocultas. Os países africanos escolhem soberanamente os seus parceiros, e a Ucrânia deseja estar entre aqueles em quem se confia.
Por outro lado, a Rússia utiliza mercenários para promover os seus próprios interesses financeiros expansionistas - um exemplo claro é a empresa militar privada conhecida como Grupo Wagner, bem como outras estruturas de natureza semelhante, que exportam o terror para o continente africano. Já mencionei as tentativas de forças russas de desestabilizar a situação em Angola no ano passado.
Para além disso, as abordagens russas de cooperação são frequentemente predatórias e orientadas para a exploração do continente.
Creio que os vossos estimados leitores saberão tirar as suas próprias conclusões.
Angola é um país onde existe muita influência política, académica, militar e até cultural da Rússia.
O actual Presidente de Angola e o seu antecessor estudaram na Rússia e o nosso primeiro Presidente morreu lá. São factos. Estão cientes do árduo trabalho que terão por cá?
Sim, plenamente. Respeitamos a história e as relações internacionais de Angola. Ao mesmo tempo, observamos a vontade angolana de diversificar parcerias e desenvolver relações pragmáticas. A Ucrânia está preparada para trabalhar de forma sistemática, profissional e baseada no respeito mútuo.
Tal é igualmente evidenciado pelos resultados da reunião entre os Presidentes da Ucrânia e de Angola, realizada em 24 de Setembro de 2025, em Nova Iorque, à margem do segmento de alto nível da 80.ª sessão da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas.
Além disso, a posição pública do Presidente João Lourenço é amplamente conhecida e fundamenta-se no respeito pelos princípios da inviolabilidade das fronteiras, da integridade territorial, da soberania e na condenação inequívoca do próprio facto da guerra, da agressão ou da ocupação.
Para assinalar os quatro anos do conflito Rússia-Ucrânia, a sua embaixada organizou um evento com o corpo diplomático acreditado em Angola. A Ucrânia continua a receber mensagens de apoio na sua luta pela paz?
Sim. A Ucrânia continua a contar com um amplo e consistente apoio internacional dos seus parceiros na resistência à agressão russa. Esse apoio manifesta-se nos planos político, diplomático, financeiro, humanitário e de defesa, reflectindo um compromisso comum com os princípios da soberania, da integridade territorial e do direito internacional. A solidariedade demonstrada por numerosos Estados e organizações internacionais não é apenas um gesto de apoio à Ucrânia, mas também uma contribuição concreta para a defesa da ordem internacional baseada em regras.
Em particular, a ampla presença de Embaixadores e representantes do corpo diplomático acreditado em Angola na cerimónia de comemoração do quarto aniversário da guerra em grande escala da Rússia contra a Ucrânia, realizada em 24 de Fevereiro de 2026 na sede da Embaixada da Ucrânia em Luanda, confirma de forma clara o apoio dos Estados parceiros.
Acredita num encontro entre os Presidentes Vladimir Putin e Volodymyr Zelenskyy?
Uma reunião só fará sentido se tiver um objectivo claro e conduzir a resultados práticos passos reais para o fim da guerra e o restabelecimento de uma paz justa. Encontros sem substância não detêm mísseis, bombas aéreas ou drones. Precisamos de decisões que garantam paz e segurança duradouras.

