Depois de ter conseguido travar a escalada entre iranianos e israelitas (ver links em baixo), o Presidente dos EUA ordenou uma série de ataques contra posições iranianas na região do Estreito de Ormuz, mas as razões não são ainda claras, porque se o Irão nega ter abatido o helicóptero, fica a pairar sobre o Golfo Pérsico a dúvida sobre o que provocu a queda do Apache AH-64.

O que os iranianos garantem é que não lançaram nenhum drone contra o Apache que caiu no mar, sendo os dois pilotos resgatados com vida, mas admitem que pode ter acontecido um acidente, como apontou o ministro dos Negócios Estrangeiros.

Abbas Araghchi aproveitou para dizer aos norte-americanos que quando se deslocam forças militares para as fronteiras do Irão, este tipo de acidentes podem suceder e, como tal, "o melhor é afastá-las" de modo a prevenir este tipo de ocorrências.

Isto, partindo do pressuposto que um acidente entre um drone iraniano e o Apache da Marinha dos EUA é uma explicação plausível, o que em Washington não serviu para estancar a vontade de vingança de Donald Trump que anunciou de imediato uma resposta "dura e inequívoca".

Também, comos se esperava, o Irão reagiu atacando bases norte-americanas nos países árabes do Golfo Pérsico, incluindo no mapa dos alvos o porto de abrigo da 5ª Frota da Marinha dos EUA no Bahrein, pelo menos uma das três bases norte-americanas no Kuwait e uma base aérea na Jordânia, conhecida por ser local de permanência de dezenas de "caças" F-35.

Entre a queda do helicóptero Apache e o último míssil iraniano sobre as bases norte-americanas na região, passaram cerca de 12 horas, mas o mais relevante pode estar para acontecer.

É assim, porque Mohammad-Bagher Ghalibaf, o principal negociador iraniano nas conversas indirectas com Washington, já disse que "tudo vai depender" de Trump, acrescentando que o Irão "prefere a diplomacia mas está pronto para tudo".

Olhando para o mais recente mapa de "actividade" no Golfo Pérsico fica claro que a paz tem um longo caminho de pedras pela frente.

É que o Irão não abdica de manter na mesa das negociações com os EUA as frentes do sul do Líbano e de Gaza, onde Israel não abdica de manter a condição de ocupante, o que esteve na origem dos ataques contra o norte de Israel dos últimos dias em resposta ao bombardeamento israelita sobre Beirute, a capital libanesa.

A essa chuva de misseis iranianos sobre Israel, o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyhau, respondeu atacando vários pontos do Irão, incluindo a capital, Teerão, tendo ambos os lados parado as agressões após intervenção de Donald Trump.

O Presidente norte-americano veio dizer que um acordo de paz entre Washington e Teerão estava iminente e pediu a Netanyhau que travasse a sua máquina de guerra, ameaçando-o, alegadamente, de que caso contrário iria "ficar sozinho".

Só que, ainda não tinham passado 48 horas após a cessação das hostilidades entre israelitas e iranianos, e surgia no horizonte novo foco de tensão entre EUA e o Irão, devido à queda do Apache quando este sobrevoava o Golfo Pérsico nas imediações do Estreito de Ormuz.

O mais estranho neste episódio, como notava Larry Johnson, antigo analista da CIA no podcast Deep Dive, é que o Presidente norte-americano ignorou por completo as garantias que lhe estavam a ser dadas ao mais alto nível de que o Irão não atacou esse mesmo helicóptero.

"Não ocorreu qualquer actividade militar iraniana na área", anunciava oficialmente o Corpo da Guarda Revolucionária do Irão (IRGC) e o mesmo era dito tanto pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, como por Mohammad-Bagher Ghalibaf.

Ambos os responsáveis iranianos apontam no sentido de que se os EUA estão, com esta atitude, a testar a determinação iraniana, então é porque em Washington ainda não se percebeu nada do que é o Irão e a sua inabalável determinação em não abdicar das suas posições que resultam da defesa dos seus direitos soberanos.

Ainda assim, Donald Trump, mesmo sendo conhecidas várias situações ao longo dos últimos meses em que ocorreram operações de falsa bandeira, que visam forjar ataques iranianos para forçar uma resposta dos EUA contra Teerão, ordenou um ataque alargado em território iraniano.

Fica por conhecer a razão de base para Trump ignorar as garantias iranianas, considerando, como sublinham vários analistas, que se o norte-americano estivesse mesmo empenhado na paz, e não havendo vítimas da queda do helicóptero, seria fácil admitir que se tratou de um acidente, como muitos outros que ocorrem amiúde com este tipo de aparelhos.

Mas não foi essa a opção dos norte-americanos, que voltaram a atacar o Irão, apesar de Donald Trump estar há quase uma semana a afiançar que "um acordo com o Irão está iminente", apontando mesmo para um prazo de "dois a três dias" para o efeito.

O que fica claro, nota, em declarações à Al Jazeera, Trita Parsi, analista do think tank americano Quincy Institute, é que com esta reacção, o Irão demonstra que persegue sem se desviar a estratégia de "resposta imediata" que tem vindo a anunciar.

Com isso, ao mesmo tempo, fica claro que Teerão está a consolidar a sua decisão estratégica de reagir ao invés de optar pelo primeiro ataque, mostrando não temer nenhum adversário.

Quanto ao significado destas últimas trocas de fogo, Trita Parsi defende que "ainda está para se ver se se trata de uma verdadeira escalada" ou apenas de um episódio único onde as partes testam a determinação uma da outra.

Entretanto, embora alguns analistas apontem igualmente para a possibilidade de Trump estar, com estes ataques, a tentar forçar Teerão a reduzir as exigências para o acordo, no que é mais relevante para o resto do mundo, o Estreito de Ormuz permanece fechado, e com ele, milhares de naviso permanecem "encalhados" num e noutro lado.

Certo, para já, é que cerca de 15% do petróleo mundial não chega aos mercados internacionais, perto de 20% do gás (LNG) e 30 a 40% dos compostos indispensáveis aos fertilizantes que ajudam a alimentar o Planeta, ou o hélio, sem o qual a indústria dos microchips global funciona a meio gás por não haver alternativa de fornecimento.