Este é o momento em que o cessar-fogo, que já dura, apesar das escaramuças pontuais, há quase dois meses, desde o início de Abril, numa guerra que começou a 28 de Fevereiro, com os ataques iniciais sobre o Irão pela coligação israelo-americana, está, claramente, a viver o seu maior desafio e ao qual pode não resistir.
É que depois de os americanos terem voltado a atacar pesadamente a Ilha de Qeshm, e alguns pontos na costa sul iraniana, ao início da noite de ontem para hoje, o Irão, ao longo da noite e madrugada, desferiu múltiplos golpes nas bares militares americanas na região.
As três bases dos EUA no Kuwait, Camp Arifjan, Camp Buehring, e a Base Aérea de Ali Al Salem, de onde a Guarda Revolucionária do Irão (IRGC) garante estarem a servir para lançar e coordenar os ataques, foram fustigadas com misseis e drones múltiplas vezes nas últimas horas.
Além das bases norte-americanas, o Irão destruiu uma área de logística no Aeroporto Internacional do Kuwait, onde dezenas de pessoas ficaram feridas, de acordo com fontes no local citadas pela Al Jazeera, tendo a IRGC acrescentado que se trata de respostas aos ataques dos EUA e que "devem servir de lição aos agressores".
Também a gigante base naval no Baherein, onde se situa a sede da 5ª Frota das Marinha norte-americana, foi atacada pelos iranianos com misseis e drones, alegando Teerão que é a resposta ao uso de navios de guerra para atacar posições iranianas.
Isto, quando o Irão e os EUA tinham admitido, no final da passada semana, que um acordo estava iminente para a assinatura de um "memorando de entendimento", o que é uma realidade que está agora cada vez mais distante e Teerão, segundo alguns media, deixou mesmo a mesa das negociações alegando ser "impossível confiar em Donald Trump".
Uma das razões, como já notaram vários analistas, desde logo John Mearsheimer, um dos mais destacados especialistas em política internacional e geoestratégia nos EUA, professor da Universidade de Chicago, é que "Donald Trump não tem qualquer influência sobre Israel e o seu primeiro-ministro Benjamin Netanyhau".
E quando o Irão insiste e persiste na ideia de que este é um conflito com duas frentes, incluindo o sul do Líbano, e que só haverá paz quando Israel abandonar a invasão militar do Líbano, isso significa, aponta Mearsheimer, que "estes avanços e recuos inacreditáveis de Trump são apenas para dar tempo a Netanyhau para acabar o seu trabalho".
O que levou Teerão a abandonar as negociações, o que parece ser cada vez mais certo, embora Trump já tenha vindo a público, na sua rede social Truth Social, garantir que as conversações com o Irão continuam, é que é por demais evidente que os EUA estão a fazer jogo duplo e "não são confiáveis".
Além do mais, com estes avanços e recuos (ver links em baixo), que permitem a Benjamin Netanyhau manter acesa a sua frente de guerra no Líbano, onde está a fazer algo de muito semelhante ao que fez nos últimos anos em Gaza, arrasando cidades e vilas no sul libanês, umas atraás das outras, Trump está ainda a conseguir ludibriar os mercados energéticos.
E o objectivo é impedir que estes, especialmente no caso do petróleo, se afastem muito dos 100 USD, tanto no Brent como no WTI, em Nova Iorque, porque, como alegam alguns economistas, esse é o preço que a economia norte-americana, como grande produtor, aguenta, e garante avultados rendimentos à indústria do fracking.
É que o petróleo extraído pela via do fracking - explosão da rocha de xisto a grandes profundidades - tem um custo de produção muito elevado, acima de 70 USD por barril, e só com preços próximos dos 90 a 100 USD é um negócio rentável, sendo que nesta indústria estão alguns dos maiores apoiantes e financiadores das campanhas de Trump.
Embora se trate de uma situação que serve os interesses de Trump, para o resto do mundo, uma crise económica, devido ao fecho do Estreito de Ormuz, que tirou de circulação cerca de 15 milhões de barris por dia, é um pesadelo e começa mesmo a afectar o gigante asiático, a China.
E isso fica patente nas declarações do ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, Wang Yi, que veio reforçar, através de um porta-voz, que o recomeço da guerra no Golfo Pérsico "não é do interesse de ninguém", manifestando que Pequim está a observar de muito perto a evolução deste conflito.
É neste contexto que se adivinha o regresso à guerra aberta, até porque as recentes notícias sobre um telefonema duro entre Trump e Netanyhau, onde o americano terá exigido o fim do conflito no Líbano, são apenas para controlo de danos eleitorais internos devido ao aproximar das eleições intercalares nos EUA, quando esta guerra é, como as sondagens demonstram, cada vez mais impopular.
