Independente da antiga URSS, desde 1991, o país mantém desde 1976 um incessante intercâmbio com Angola, sendo uma referência para jovens e adultos, que desafiam as barreiras do clima e da língua, em busca do crescimento intelectual.

Neste país, um dos oito mais fortes em termos económicos no Mundo e o maior em termos de extensão territorial, é acentuado o movimento de angolanos, pelas suas diversas, modernas e quase "gigantescas" universidades, em busca de concretizar sonhos de longa data, ou criar bases para "vencer" o mercado de trabalho.

A formação de estudantes é uma das áreas tradicionais e privilegiadas na cooperação entre Rússia e Angola, havendo já bases para a especialização de angolanos, sejam bolseiros ou formandos por conta própria.

Aqui, o estudante vai ao encontro da ciência, tem condições técnicas para amadurecer o intelecto, mas um factor salta à vista para quem "embarca" no sonho da formação: o espírito de luta e sacrifício.

Estudar, estudar e estudar. Este é o lema para quem se propõe expor o corpo às baixas temperaturas de Moscovo e outras cidades da Rússia, onde só os mais audazes e "abençoados" resistem à pressão do estudo.

Estudantes pedem apoio institucional

Elisa Rosa Samuel Guedes é estudante do quarto ano de Economia e Gestão Industrial, em Moscovo. Ao contrário de muitos compatriotas, a jovem estuda por conta própria e, por isso, sente na pele os efeitos de ganhar conhecimento com recursos pessoais.

Foi uma, dos muitos estudantes que fizeram ouvir a sua voz, nesta terça-feira, por altura de um encontro de trabalho com a delegação parlamentar angolana, em visita de trabalho à Rússia, desde segunda-feira.

A jovem está na fase derradeira da sacrificada formação, mas confessa, com alguma preocupação, que passa por dificuldades para custear os seus estudos.

Elisa Guedes explica que antes de vir à Rússia teve informações favoráveis, segundo as quais os estudos neste país eram acessíveis ou ficavam em conta até para pessoas da sua classe social.

Porém, a realidade concreta é de longe diferente e, apesar do apoio da família, julga que só o apoio do Estado Angolano pode reduzir-lhe as "dores".

"Quando nós viemos para aqui, disseram-nos que a universidade não seria tão cara. A minha família trabalha, mas às vezes atrasamos nas propinas e pagamos mais tarde. Queria saber se o Governo pode ajudar?", disse.

Diogo Paulo é outro estudante angolano na Rússia. Tal como a outra compatriota, afirma que também enfrenta problemas financeiros para suportar os encargos da universidade e como tal pede apoio das autoridades.

"Vim para cá por conta própria e tenho problemas no sector financeiro, pelo que estou a correr o risco de voltar. Quero saber se não há possibilidade de ajudarem pessoas no meu estado?", indagou o estudante do curso de Engenharia para Produção e Controlo.

Outro grito de socorro vem na voz de João Micki, estudante de direito, que solicita melhorias nas condições de acomodação dos bolseiros angolanos.

Por conta das dificuldades, informou à comissão da existência de colegas que partilham o mesmo quarto em número nada recomendável, razão porque espera pela pronta resolução, pelo Estado.

O seu apelo foi reforçado por Elísio Lopes Vaz. Ele é ainda estudante curso preparatório de Língua Russa, mas já faz contas para suportar o curso de Engenharia Civil, neste território do Leste da Europa.

A sua preocupação vai no mesmo sentido de procurar conhecer as políticas do Estado para apoio aos estudantes necessitados ou carenciados, espalhados pelo Mundo.

"Sou bolseiro, mas também tenho me compadecido com algumas situações dos outros colegas. Há um colega que regressou a Angola, porque os pais infelizmente não estão a poder continuar a pagar os estudos", lamentou.

Considerou que as dificuldades enfrentadas na Rússia são diferentes em relação àqueles encontradas noutros pontos do Mundo, daí pedir maior apoio do Estado, no sentido de fazer um amplo levantamento de todos os estudantes na diáspora com dificuldades do género.

Kambungue Sapalo tem maior graduação em termos de enquadramento académico. O jovem faz já o primeiro ano do mestrado em Engenharia, mas nem assim vê-se livre das dificuldades financeiros.

"Tendo em conta o custo elevado, gostaria que a comissão levasse a situação de todos os estudantes, em função de que Moscovo está entre as cidades mais caras do Mundo e não é fácil sobreviver com o valor que se atribuiu.

Pedimos, com toda reverência, que se leve esta preocupação, para que o mais breve possível haja um aumento e os estudantes possam viver segundo o custo de vida na Rússia, em particular em Moscovo", expressou.

Associações querem celeridade no pagamento de subsídios

A Rússia conta desde a década de 70 com um grande número de estudantes angolanos, em regime de bolsas oficias custeadas pelo Estado. O pagamento dos subsídios é um facto, mas ainda assim os bolseiros pedem maior celeridade no envio das verbas.

Osman Kai é o coordenador dos Estudantes no Estado de Moscovo e, como qualquer um dos colegas, sublinhou as dificuldades por estes apresentadas à comissão de deputados.

"Além do clima, tínhamos há algum tempo um ligeiro atraso na entrega do complemento de bolsa. Mas actualmente a situação está regularizada e as coisas estão mais ou menos estáveis. A maior dificuldade aqui tem sido a língua", confessa.

Refere que estas dificuldades de aprendizado da Língua Russa reflectem-se, em algumas situações, na formulação de algumas questões.

"Isto leva às vezes dois ou três anos, dependendo de cada universidade e cada ambiente em que as pessoas estão. Todas as cidades aqui têm uma associação e nós em Moscovo também o temos, para velar pela interesses dos estudantes, no seu todo.

Considerou satisfatório o intercâmbio com a Embaixada de Angola na Rússia, que apoia no que for possível.

Afirmou que a qualidade de ensino na Rússia é muito boa, mas as dificuldades são muito mais acentuadas para aqueles principiantes que ainda não dominem a Língua Russa.

Deputados acolhem preocupações de estudantes

As preocupações foram acatadas e ao seu tempo serão encaminhas às autoridades, angolanas, como assegurou no encontro a presidente da Comissão de Relações Exteriores, Cooperação Internacional e ComunidadesAngolanas no Estrangeiro, Exalgina Gamboa.

"Agradeço a todos os estudantes, que colocaram questões importantes e muito pertinentes. Precisamos formar quadros capazes, para garantir o crescimento económico do país. E é por isso que estão aqui", expressou.

Disse que Angola tem apostado em áreas em que há pouca capacidade de formação, fundamentalmente as de engenharia, telecomunicações e ciências exactas.

"As ciências sociais, como direito e história, são ciências em que, em princípio, não iríamos ganhar muito a partir da história das ciências sociais russas. O importante é que adquiram conhecimentos e habilidades, para poderem contribuir no desenvolvimento económico do país", disse.

Angop