O Presidente da Ucrânia está em grande destaque nos media ocidentais pelo sucesso conseguido com a campanha de 40 dias de ataques na profundidade do território russo com drones de longo alcance.
As imagens de drones a explodir sobre refinarias russas, algumas a mais de 2.000 kms da fronteira, ou sobre os armazéns da WildBerries, o maior retalhista online da Rússia, têm feito as delícias dos media ocidentais, onde se repetem as manchetes a apontar para uma "mudança de maré" a favor da Ucrânia.
Esta nova tentativa de insuflar a capacidade militar ucraniana através dos media ocidentais conseguiu, efectivamente, dar a Zelensky um lastro que há muito não tinha, deixando em euforia os líderes europeus, que se revezam a elogiar o vigor militar ucraniano.
Mas, como notam vários analistas, como John Mearsheimer, reputado especialista em geoestratégia da Universidade de Chicago, para a Rússia os ucranianos podem vencer todas as guerras mediáticas desde que no terreno isso não tenha consequências.
E não tem, como o demonstram os mapas dos avanços russos, incluindo avanços reconhecidos pelos mapas divulgados pelo site DeepState, alinhado com Kiev, onde já se admite que as forças russas estão já muito próximas de Kramatorsk,ma região de Donetsk, o último reduto de Kiev no Donbass.
Alias, outro analista reputado, Jacques Baud, antigo coronel da intelligentsia suíça e da NATO, defende que esta campanha mediática dos ucranianos não tem como objectivo primordial afectar a capacidade militar russa mas sim levar os norte-americanos a abrir novamente a bolsa e os seus paióis para dar a Kiev as armas que lhes faltam.
Isso mesmo surge demonstrado nas declarações desta quarta-feira, 05, de Zelensky em Kiev, onde este, depois de uma madrugada de devastadores ataques sobre a capital ucraniana, diz que os seus aliados ocidentais estão a deixar morrer ucranianos por não fornecerem as armas prometidas.
Este ataque russo, um dos mais pesados em várias semanas, que o Ministério da Defesa, em Moscovo, garante ter sido dirigido apenas a objectivos de interesse militar, surge depois de, pela primeira vez, os media ocidentais terem dado destaque a um ataque premeditado com um drone sobre uma praia russa onde foram mortas seis pessoas, incluindo três crianças.
Nesta chuva de mísseis e drones russos sobre a capital ucraniana, que Zelensky avança terem morrido 17 pessoas, ficou claro, admitido pelo próprio, que a Ucrânia esgotou os seus stocks de mísseis de defesa anti-aérea, nomeadamente os Patriot, que tanto os ucranianos como os seus aliados europeus imploram a Donald Trump para fornecer.
O que se passa, como explicava recentemente o major-general Agostinho Costa, reconhecido analista militar, é que os Estados Unidos estão, como o informou já The New York Times e outros grandes media norte-americanos, estão sem este tipo de sistemas sequer para eles próprios, pois que os esgotaram tanto com a Ucrânia como no Médio Oriente, devido à guerra com o Irão.
Com o pânico instalado em Kiev, e com os media ainda a reproduzirem as palavras de Zelensky, é nas capitais europeias e na sede da União Europeia, em Bruxelas, que a condição de uma Ucrânia indefesa mais preocupa.
Recorde-se que este cenário já sucedeu em pelo menos duas ocasiões nestes quase cinco anos de guerra, com os media ocidentais a esquecerem totalmente este conflito e relegarem o curso da guerra no leste europeu para as suas páginas interiores.
Isso sucedeu quando Trump chegou ao poder, em Janeiro de 2025, com a sua intenção de sair de cena neste conflito, e depois com o ataque israelo-americano ao Irão, em Junho de 2025 e, depois, a 28 de Fevereiro deste ano, onde a Ucrânia caiu a pique no interesse destes media.
Com os russos agora a avançar de forma rápida no que resta do Donbass sob domínio ucraniano, as cidades de Slovianks e Kramatorsk, no Donetsk, a escassez catastrófica de defesas anti-aéreas na Ucrânia e a aproximação do Inverno, com as temperaturas a chegar a - 20º, Kiev pode estar a viver o início de um dos mais dramáticos períodos deste conflito.
Isso mesmo se depreende das palavras de Zelensky, que, após os mais recentes ataques russos, voltou a pedir aos seus aliados para fornecerem à Ucrânia intercetores de mísseis balísticos, que "poderiam ter salvado vidas".
"Os intercetores de mísseis balísticos poderiam ter salvado as vidas daqueles que morreram hoje. É essencial que os nossos parceiros compreendam que os atrasos na entrega ou a relutância em fornecer sistemas antimísseis balísticos levam precisamente a estas perdas humanas", afirmou Zelensky nas redes sociais, citado pela Lusa.
"Até ao momento, 44 pessoas ficaram feridas em consequência do ataque maciço russo a Kiev e à região. Infelizmente, 17 pessoas morreram. Os meus sentimentos às famílias e aos entes queridos", declarou ainda Zelensky na rede social X.
Quase ao mesmo tempo, ambos ignorando o ataque aos veraneantes russos numa praia da Crimeia na terça-feira, 02, em Bruxelas, a presidente da Comissão Europeia, a alemã Ursula von der Leyen, que tem como objectivo levar a Rússia a "uma humilhação no campo de batalha" e a "ficar de joelhos a implorar por perdão", veio condenar os ataques russos.
A presidente da Comissão Europeia, ainda citada pela Lusa, condenou esta quarta-feira, 05, as "atrocidades horríveis" da Rússia na Ucrânia, após ataques aéreos terem feito pelo menos 17 mortos, e defendeu que Moscovo "tem de pagar pela destruição que causou".
"Mais uma vez, acordámos com notícias de atrocidades horríveis cometidas pela Rússia através dos seus ataques aéreos contra a Ucrânia. A Rússia tem de pagar pela destruição que causou", defendeu Ursula von der Leyen numa mensagem divulgada nas redes sociais.
A presidente da Comissão Europeia frisa que, para garantir que isso acontece, a União Europeia (UE) tem utilizado as receitas geradas pelos ativos russos que se encontram congelados no bloco.
"Estamos a disponibilizar mais 1,4 mil milhões de euros à Ucrânia. Este montante ajudará a Ucrânia a continuar a resistir à guerra ilegal desencadeada pela Rússia", afirma.
Estes 1,4 mil milhões de euros a que se refere Von der Leyen foram gerados esta segunda-feira pelos juros sobre os ativos congelados do Banco Central da Rússia, indica a Comissão Europeia em comunicado.
Segundo refere a instituição, esta foi a quinta transferência deste tipo feita à Ucrânia, tendo os ativos russos congelados na UE já permitido gerar "um total de oito mil milhões de euros em lucros extraordinários".









