O Carnaval da Vitória foi instituído na fase revolucionária do pós-independência, pelo Presidente Agostinho Neto, tendo a sua primeira edição acontecido a 27 de Março de 1978. Num período em que se procurava afirmar o laicismo do novo Estado independente, não deixando de se realizar festas que já faziam parte do conjunto de manifestações culturais populares - o outro caso foi a transformação do Natal em Dia da Família -, o nosso Carnaval, a que o Poeta tinha prometido que haveríamos de voltar, despiu-se das suas amarras religiosas, e foi ligado a uma data que marcava a expulsão - uma primeira vez - dos carcamanos do território nacional: o 27 de Março de 1976. Essa edição, a que assisti, passou pela praça do Kinaxixi e subiu a Comandante Valódia - onde agora imprudentes edifícios desabam -, emoldurado por uma mole humana que aplaudia apaixonadamente os grupos que se exibiam, na sua riqueza de cores e alegria, onde nomes como União Mundo da Ilha, ou Kabocomeu, despontavam. As arriscadas passadas, a "kazucuta", longamente guardadas no baú da memória de gentes que agora se exprimiam como povo independente, preencheram o espaço, e o imaginário dos que assistiam, muitos deles surpreendidos por uma energia insuspeitada, resultado de um rebentar de amarras de que, o mor das vezes, só timidamente se iam apercebendo.

Foi-se o Carnaval da Vitória, regressaram os carcamanos, e desenrolou-se a Batalha do Cuito-Cuanavale, marco incontornável para a libertação da África Austral, que o 23 de Março procura recordar. Um momento de comunhão de vontades, em que a resistência de quem na frente de combate enfrentava um inimigo poderoso, numa guerra moderna e inexorável, era a tradução do desejo de um país que acreditava que "na Namíbia e na África do Sul" estava a continuação da nossa luta.

Afinal, a Paz, depois de tantas atribulações, só surgiria a 4 de Abril de 2002, feita por angolanos, que permitiram um despertar para uma vida nova. Um novo país. Luena permitiu o reencontro, ratificado em Luanda, numa cerimónia emocionalmente carregada, que os que a testemunharam dificilmente esquecerão.

Os escolhos que encontramos no caminho podem ser encarados com firmeza e a certeza de uma solução, pois há esta fundação firme da Paz. A possibilidade de, mesmo com opiniões diferentes, se poder trabalhar em conjunto para um mesmo objectivo: a nação angolana. Mas é preciso saber ouvir, e recolher as contribuições de todos os genuinamente preocupados, abrindo, e não fechando, vias de diálogo e concertação.

Este período com tantas datas significativas, permite-nos ter momentos de reflexão, que nos devem obrigar a lobrigar as respostas para os problemas que incessantemente são levantados: só unidos no firme desejo de trazer para todos as condições de uma vida condigna, poderemos atingir o objectivo de conseguirmos construir um país melhor.

A Paz, a ausência de guerra, foi um primeiro passo importante. Agora, resta-nos a luta pela paz social - que só se consegue com justiça -, e a consolidação da democracia e do Estado de Direito.