Mas talvez "último" seja apenas uma maneira de dizer. No Jazz, as composições são vivas e circulares, fazendo com que o conceito de "último" quase não exista - há apenas o presente e o próximo compasso. Como numa eterna "jam session", o Jazz ignora a palavra "último" e prefere o movimento contínuo.
E mais: quando verdadeiramente nos toca, o Jazz não termina. Fica no ouvido, na memória, no corpo. Agarra-se à pele e fica tatuado na alma.
Nos três textos anteriores procurámos aproximar-nos desta música através das suas histórias, das suas vozes, dos seus músicos e das suas geografias. Agora, talvez seja tempo de olhar para aquilo que permanece: a sua extraordinária capacidade de transformar a experiência humana em liberdade, diálogo e beleza.
Jazz, sempre em movimento como um rio...
Regresso à metáfora do crítico e excepcional divulgador que foi José Duarte, na medida em que essa música de enorme beleza e encantamento, nunca foi uma "coisa" imóvel, encerrada numa definição e em esquadrias rígidas. Nasce num lugar. Recebe múltiplas águas, muda de curso. Encontra as tais margens que o comprimem, ultrapassa- sem carimbos nem passaportes- fronteiras. E continua a correr.
Nasceu do encontro de culturas. Nasceu também da violência, da escravatura, do racismo, da segregação e da exclusão; transformou experiências históricas numa linguagem universal. E o que foi gerado num ambiente terrivelmente hostil, criado por uma comunidade submetida à opressão, acabou por se tornar uma das linguagens mais poderosas da liberdade.
O Jazz nasceu em New Orleans, atravessou décadas, continentes, guerras, discriminações, mortes, revoluções estéticas e transformações tecnológicas.
Enquanto houver alguém disposto a ouvir e outro disposto a improvisar, o rio não acabará.
E agora, depois destas viagens, o que é, afinal, o Jazz?
A resposta não cabe necessariamente numa definição. Pode ser uma descoberta:
O Jazz é uma história de transformação- da dor em beleza, da exclusão em afirmação, da tradição em invenção e de uma experiência africana particular numa linguagem que passou a pertencer ao mundo. É uma memória em movimento- uma passagem, como já afirmei- da música para a consciência, da consciência para a luta e da luta para a responsabilidade histórica.
E, finalmente, é ainda a história de uma enorme paixão pessoal- a minha- que encontrou na música, no Jazz particularmente, uma forma de serviço à memória, à cultura e aos outros.
JAZZ, África, Harlem e Libertação: Uma Arquitectura da Resistência
É importante sublinhar que a presença do negro americano e o peso da América na poesia de Agostinho Neto, Viriato da Cruz, Noémia de Sousa, Francisco José Tenreiro, António Jacinto, Mário António e nos brilhantes textos / ensaios de Mário Coelho Pinto de Andrade, constituem área temática facilmente destacável. Todos, sem excepção, revelaram- com frequência- inquietações face ao destino do negro africano cujos combates e aspirações- da escravatura à cidadania- tiveram grande influência no processo de consciencialização das elites militantes africanas.
Por uma questão de honestidade e princípios de que não abdico, tenho de os apresentar não como simples "intelectuais nacionalistas", mas como homens e mulher que perceberam que a emancipação política passava também pela emancipação cultural.
É inequívoco e indesmentível: antes de África conquistar Estados, alguns dos seus intelectuais começaram por conquistar uma voz.
Noémia de Sousa e o Jazz: a beleza que nasce da liberdade
Tinha de regressar neste escrito a Noémia de Sousa. A investigação literária sobre a poesia moçambicana identifica precisamente o Jazz como uma das matrizes da poesia lírica de meados do século XX, tanto pela sua dimensão de afirmação cultural como pelas analogias rítmicas com a improvisação e a síncope (leia-se nomeadamente Mário Aparecido da Silva de Deus, In: Revista Crioula, nº 18, Universidade de São Paulo).
E há um dado belíssimo: Noémia escreveu "A Billie Holiday, Cantora", poema que foi estudado especificamente como uma espécie de "blues moçambicano" para Billie Holiday.
E há também uma coincidência histórica particularmente bonita: Noémia nasceu em 20 de setembro de 1926 e este ano, 2026, assinala-se o seu centenário.
E há ainda uma ponte belíssima para o Jazz: a poesia de Noémia tem ritmo, síncope, repetição, oralidade, corpo, voz - características que permitem falar de uma sensibilidade negra moderna sem forçar uma relação direta entre poesia e Jazz.
Além disso, a ligação entre Noémia, Tenreiro, Mário Pinto de Andrade, Agostinho Neto e Viriato da Cruz não é uma construção artificial: o Caderno de Poesia de Expressão Portuguesa, organizado por Mário Pinto de Andrade e Francisco José Tenreiro (Lisboa, 1953), reuniu precisamente poemas de Noémia, Neto, Viriato da Cruz, Tenreiro, Jacinto e Alda do Espírito Santo.
Noémia não escolhe uma estrela qualquer. Escolhe Billie Holiday (!), uma mulher negra, cantora, cuja voz carregava sofrimento, dignidade e resistência.
E aqui acontece algo muito próximo do próprio Jazz: a dor não é simplesmente narrada; é transformada em forma, ritmo, voz e beleza.
Noémia escreve a partir de uma experiência histórica concreta - colonialismo, racismo, condição da mulher, identidade africana - mas transforma essa experiência numa linguagem que ultrapassa a circunstância. O Jazz faz algo semelhante: nasce de uma história profundamente marcada pela diáspora africana, pela violência e pela exclusão, mas converte essa experiência em criação, improvisação e liberdade.
Há poetas que escrevem sobre a liberdade. E há poetas cuja própria escrita parece respirar como música.
Noémia de Sousa pertence a esta segunda linhagem.
Nascida em Moçambique em 1926, Noémia fez da poesia uma voz de identidade, dignidade e resistência. Mas a sua poesia possui também uma dimensão profundamente musical. Não é por acaso que um dos seus poemas mais conhecidos se intitula "A Billie Holiday, Cantora". A aproximação ao Blues e ao Jazz não é apenas uma imagem crítica posterior: está inscrita na própria obra da poeta.
Billie Holiday e Noémia de Sousa encontram-se num território onde a dor deixa de ser apenas sofrimento e se transforma em expressão. É talvez essa uma das grandes forças do Jazz. Duas mulheres negras. Duas geografias. Duas histórias. Tristes destinos; Billie, num hospital-prisão; Noémia, em Cascais, triste, longe de Moçambique, que ajudou a (re) nascer...
AtéJazz: Jazz, esse desconhecido — Conclusão
"Jazz não é apenas música; é uma forma de vida" Winton Marsalis, trompetista, educador, "band leader"
New Orleans, Outubro de 1961 Depois de três viagens por esse território vasto, inquieto e tantas vezes mal conhecido a que chamamos Jazz, chegamos ao quarto e último texto.
New Orleans, Outubro de 1961 Depois de três viagens por esse território vasto, inquieto e tantas vezes mal conhecido a que chamamos Jazz, chegamos ao quarto e último texto.
