Mas isto não estamos perante uma descoberta; apenas nem sempre nos informamos de forma conveniente e optamos pelo chavão comum das identidades culturais onde se junta uma quantidade de outros clichés que servem bem outros propósitos como a manipulação, o racismo ou a xenofobia, por exemplo. Stuart Hall (um dos autores fundamentais dos estudos culturais) defende, em "Cultural Identity and Diaspora" (1990), que a identidade cultural não é uma essência fixa, mas um posicionamento: os nomes que damos às diferentes formas como somos integrados, e nos integramos a nós próprios, dentro das narrativas da história. Antes dele, Frantz Fanon já tinha mostrado, em "Pele Negra, Máscaras Brancas" (1952), como a identidade do colonizado se molda tanto pelo confronto com o colonizador como pela absorção psicológica dos seus valores, confirmando que nenhuma identidade se desenvolve à margem das dinâmicas de poder e das continuidades históricas.

Se tal é válido para a identidade individual é-o, igualmente, para as identidades colectivas ganhando-se, aqui, outras perspectivas, sobretudo quando se aplica à cultura e às artes. Uma comunidade não permanece igual em cada geração que passa. As línguas mudam, os costumes modificam-se, novas influências entram e outras desaparecem. Durante muito tempo, o olhar ocidental insistiu em produzir uma imagem homogeneizada das diferentes culturas africanas como se a sua autenticidade dependesse e se circunscrevesse a formas imutáveis; o tal "eterno indígena" sempre presente em qualquer discussão sobre representação africana, como se um continente inteiro tivesse ficado suspenso no tempo enquanto o resto do mundo "evoluía". A verdade é que nenhuma cultura existiu fora da história tendo, todas elas, sido afectadas por migrações, formas de comércio, religiões, conflitos, colonização, independências, deslocações e contactos com outras sociedades.

A própria Convenção da UNESCO para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial (2003) reconhece que o património se transmite entre gerações, mas é também constantemente recriado pelas comunidades, em função da sua história e das circunstâncias em que vivem, sendo explícita ao rejeitar a ideia de que salvaguardar significa fixar uma forma pura ou primordial.

Assim, quando se fala em construir uma identidade cultural ou artística não se está a sugerir nem a preservação do passado tal como ele foi, nem a sua extinção, devendo-se assumir o processo contínuo de transformação onde, o que foi herdado, se confronta com os desafios do presente criando novos diálogos. Recuperar ou revisitar o tradicional não significará, necessariamente, reproduzir formas do passado, mas sim interrogá-las, colocá-las em contacto com outras linguagens e construir propostas que não apaguem a memória, mas que as projectem para o futuro.

Ao reunir matrizes de diferentes danças num mesmo espaço performativo, por exemplo, o trabalho artístico cria momentos de confronto criativo em que as próprias contradições se tornam matéria de criação e não um obstáculo a contornar. E relacionar vocabulários de contextos distintos não pressupõe fundi-los numa linguagem imprecisa. Pode, pelo contrário, significar a exposição das suas diferenças e o impacto desses encontros. Um gesto ritual, pensado originalmente para um espaço fechado e um público que partilha o seu código, muda de natureza quando colocado perante uma plateia que o desconhece. Proteger a essência não implica cristalizá-la, mas impedir que seja banalizada, esvaziada ou tratada com leviandade.
Neste caso, existe uma diferença entre transformar e abandonar: a mudança pode ter lugar sem que se perca o conhecimento que sustenta a tradição, mas esta pode também ser alienada quando os seus elementos são retirados de contexto e usados de forma aleatória, sem qualquer responsabilidade (como é cada vez mais comum assistirmos em grupos de boas-vindas colocados a dançar à entrada de eventos para receber convidados).

Para evitar essas distorções, a liberdade de criação não deve dispensar o conhecimento; pelo contrário, quanto maior é a liberdade para transformar, maior deve ser a consciência e responsabilidade sobre o que está a ser transformado. É essa consciência que separa quem investiga uma tradição de quem apenas a saqueia para produzir um efeito instantâneo e de fachada. Conhecer uma tradição não se restringe à sua execução, mas implica compreender os seus enquadramentos, significados, técnicas e o percurso que a faz chegar aos tempos actuais.

É nessa zona de diálogo (entre o antigo e o contemporâneo, entre o local e o universal) que os artistas contemporâneos africanos devem afirmar a sua singularidade e projectar a ideia de uma África renovada, capaz de se reinventar sem abdicar da sua memória. É a mesma ideia que abriu este texto, agora aplicada à escala de uma cultura inteira: um artista contemporâneo africano não precisa de escolher entre repetir uma forma herdada ou afastar-se dela para se afirmar como contemporâneo. Pode partir de um passado remoto, confrontá-lo com o presente, e procurar outras possibilidades, sem que isso constitua negação da origem, tal como a Convenção da UNESCO sobre a Diversidade das Expressões Culturais (2005) reconhece, ao afirmar que as culturas assumem formas diversas no tempo e no espaço, e que a interacção entre elas é um dos factores que alimentam essa mesma diversidade.

Uma identidade cultural não precisa de ser reprodução do passado para continuar a existir, tal como uma pessoa pode mudar sem deixar de reconhecer a sua história e a história das suas próprias marcas. Aquilo a que hoje chamamos identidade é mais uma posição que continuamos a construir do que um lugar onde chegámos. E é talvez aí que a arte encontra a sua responsabilidade: não repetir uma "identidade" pré-fabricada para provar que existe, mas trabalhar sobre os seus elementos para descobrir aquilo que ainda pode vir a ser.