A falta de solidez intelectual de que se acusa os jovens tem na sua origem o mau trabalho dos pais, professores e da sociedade de um modo geral. Conjugam-se vários factores como a escola, a família e o espaço público, na construção de uma consciência crítica dos cidadãos, participação cidadã e no desenvolvimento cultural de cada indivíduo. Com a família a perder espaço, a formação intelectual faz-se do muito ou do pouco que a escola e o espaço público nos oferecem.

O nosso Ensino Superior, não pode ser visto como particularmente propenso a ensinar os estudantes a serem criativos, inovadores e a construírem novos caminhos na base do mérito já que na maior parte das vezes limita-se exclusivamente ao conteúdo académico e não possibilita que cada aluno tenha a atenção particular que deveria ter. A maior parte dos licenciados frequenta as universidades em busca de um diploma apenas, e quando saem dela, continuam a apresentar enormes debilidades ao nível da escrita, interpretação e bagagem cultural.

Muitos deles são deficientes intelectuais com os quais não se pode ter uma conversa fora dos assuntos que estudaram na faculdade, razão que deveria levar as universidades a conceber currículos que possibilitassem no final da cadeia resultarem licenciados autónomos nas dimensões intelectual, pessoal, emocional, social, profissional, cultural e política.

Cabe à Universidade uma acção pedagógica docente que se estende para muito além da acção de passar conteúdos virados para as necessidades do mercado de trabalho. Não é obviamente um problema dos estudantes mas antes de um sistema mercantilizado onde as universidades agem como se fossem fábricas de produção em série de diplomas.

Muitos dos recém-licenciados terminam os seus cursos sem nunca terem sido levados a ler, debater ou a assistir livros, filmes ou peças de teatro que não estejam directamente relacionados com a matéria específica dos cursos.

A generalidade dos currículos, importados de países onde o nível cultural dos jovens é mais alto e a educação de base mais eficiente, dispensa exercícios práticos e matérias relacionadas com a formação humana e cultural que seriam essenciais para a formação intelectual dos nossos estudantes.

Muitos dos professores são, também eles, muito fracos em termos de conhecimentos gerais, qualidade de raciocínio, capacidade de interpretação e hábitos de leitura, pelo que enveredam unicamente por "despejar" matérias.

No espaço público instalou-se a cultura do silêncio, como se muitos profissionais e intelectuais tivessem optado por vender a alma ao diabo. Os quadros competentes e com autoridade técnica para emitir opinião foram perseguidos por bajulocratas e incompetentes entretanto promovidos.

Muitos deles remeteram-se ao silêncio para sobreviver, mesmo vendo a selva pegar fogo. Outros adoptaram o discurso da conveniência e passaram a emitir pareceres técnicos de acordo com a expectativa dos seus chefes.

Dizem o que os superiores querem ouvir e garantem uma carreira sem tumultos.

Agem publicamente de modo contrário ao que professam e isso incute nos jovens a ideia de que a ética e o saber técnico são vendáveis.

Os chamados intelectuais há muito desapareceram do espaço público preferindo a condição de acríticos. E não tendo um pensamento crítico podemos considerá-los intelectuais? À excepção de um punhado de vozes conhecidas, os intelectuais angolanos estão em acelerada extinção, por falta de pensamento autónomo.

Vivemos uma sociedade absolutamente falha de ideias onde os "yes man" e o medo substituíram o papel social do pensamento crítico. Sem isso, a nossa sociedade não gera contradições e sem elas não há desenvolvimento, não há capacidade de construir conhecimento, melhorar ou fortalecer argumentos e espevitar a criatividade e atitudes de ruptura.

Somos uma sociedade amorfa, adormecida na ilusão do consenso e no medo da discordância. Falta-nos prática de pensamento crítico optando-se por "matar" quem ouse actuar "fora da linha". Quem discorda é visto como um

aspirante ao lugar de outrem ou como um invejoso que não suporta o sucesso alheio, um maledicente que só vê coisas erradas ou um convencido que pensa que as suas ideias são melhores que a dos outros.

Fomos de certo modo castrados intelectualmente e, como resultado, temos associações profissionais inférteis, grupos profissionais que não se dão ao respeito e nem se fazem ouvir em matérias de sua alçada. Faltam-nos cidadãos com opinião e pensamento suficientes para influenciar na qualidade da governação. Os debates das televisões e opinion makers dos jornais não são suficientes para inverter o quadro actual, pelo contrário, acabam impondo modismos. Qualquer bem-falante sem sequer ser de competência reconhecida pelos seus pares, pode transformar-se repentinamente numa sumidade e debitar em público um conjunto de enormidades. O mal não está nos jovens mas na nossa castração geral.