Um repórter da referida publicação, que esteve em algumas províncias, considerou o nosso país como um dos destinos "imperdíveis" para visitar em 2025, tendo justificado a escolha no facto de Angola possuir "praias tropicais, cataratas sagradas e parques nacionais únicos".
O articulista mostrou-se impressionado pela nossa diversidade natural e cultural, tendo destacado as praias tropicais ainda pouco exploradas, assim como as quedas de Kalandula e os parques nacionais que, segundo ele, preservavam uma biodiversidade ímpar, como o do Iona, no deserto do Namibe.
O enviado do NYT não passou ao lado da integração do Sul do país na Área de Conservação Transfronteiriça Kavango- Zambeze, que abrange cerca de 445.000 quilómetros quadrados e conecta Angola a outros quatro países africanos, nomeadamente Botswana, Namíbia, Zâmbia e Zimbabwe.
O repórter atribuiu, em parte, o crescimento do turismo o facto de Angola ter isentado os vistos a cidadãos de 90 países do mundo, incluindo norte-americanos, assim como de ter construído um novo aeroporto, com capacidade para 15 milhões de passageiros, dentre os quais 10 milhões de turistas/ano.
Reagi da mesma forma quando, um ano antes, o canal norte-americano CNN Travel colocou Angola entre os 10 melhores destinos turísticos do mundo que podiam ser visitados em 2024.
Infelizmente, as minhas críticas feitas neste espaço e nas redes sociais foram mal digeridas em algumas esferas do poder e em alguns círculos de opinião, tendo sido "agraciado" com epítetos poucos simpáticos que colocaram em causa o meu patriotismo e angolanidade. Cheguei inclusive a ser conectado a um partido da oposição.
É inegável que Angola possua todas as potencialidades turísticas descritas pelo enviado New York Times, mas o turismo, como disse na altura, não se resumia às belezas naturais, à paisagem, à fauna e à flora, mas a um conjunto de infra-estruturas que englobavam a mobilidade, boas estradas, a livre circulação de pessoas e bens, sem excessivos controlos e "pentes" policiais, alojamentos dignos desse nome, preços, segurança, saneamento básico, dentre outros factores.
Sintomaticamente, na reportagem em causa, o jornal norte-americano não fazia referência à má qualidade das nossas estradas, na sua maioria esburacadas, sobretudo nesta época chuvosa, aos amontoados de lixo, assim como a pouco disponibilidade de leitos hoteleiros, às deficientes condições de alojamento, aos preços, às infra-estruturas de apoio ao turismo, como unidades de saúde, serviços de rente-a-car, etc.
Como é de domínio público, Angola, não investiu apenas em lobbies no estrangeiro, como também "queimou" milhões e milhões de dólares com a construções de aeroportos- muitos dos quais estão às moscas; nas suas constantes deslocações ao estrangeiro, o Presidente da República procurou atrair o investimento estrangeiro no sector do turismo, assim como apostou na construção de salas de convenções para conferências internacionais, ou ainda promoveu a vinda ao país de figuras de renome mundial, como o futebolista Leonel Messi, as "estrelas" do cinema e do basquete mundial Will Smith e Lebron James, pagos a peso de ouro.
Apesar dos gastos milionários e estratosféricos feitos no sector, o nosso país não deu passos significativos em matéria de turismo, o que contrasta frontalmente com a ruidosa propaganda feita pelos órgãos de comunicação social, tanto em Angola como no estrangeiro.
Angola, que tem sido descrita como a "pérola do turismo" em África, não passa, afinal, de uma fraude, de um país que ocupa os últimos cinco lugares no Índice sobre Viagens e Turismo do Fórum Económico Mundial, estando na 105.º posição num leque de 110 países. O demolidor relatório, recentemente divulgado, trouxe à superfície as fragilidades de um sector que era escondido pela ruidosa máquina de propaganda da imprensa e dos lobbies internacionais.
De acordo com o estudo feito pela referida organização, com sede na Suíça, ao nosso país foram-lhe atribuídos 3,18 pontos numa escala de 1 a 7, apesar de uma ligeira melhoria de 0, 5 pontos em relação a 2024.
Dito de outro modo, em matéria de turismo e hotelaria, em 2025, Angola só esteve alguns pontos acima de países como o Malawi, Mali, Camarões, Benin e Serra Leoa.
A avaliação, que coloca Angola numa situação bastante incómoda, analisou questões que têm a ver com o ambiente de negócios, segurança, saúde e higiene, recursos humanos, tecnologias de informação, políticas públicas para o turismo, abertura aos visitantes, competitividade de preços, infra-estruturas de transporte aéreo e terrestre, serviços turísticos, recursos naturais e culturais e sustentabilidade ambiental, económica e social.
«Dos 17 pilares avaliados, Angola obteve pontuação positiva em apenas seis, destacando-se na dimensão da sustentabilidade. O resultado evidencia os desafios que o país ainda enfrenta para transformar a sua riqueza natural e cultural num destino turístico competitivo», refere o documento.
O relatório recorda ainda que o desenvolvimento do sector pode criar oportunidades de emprego e negócio em áreas como hotelaria, restauração, transportes e actividades culturais. Mas para aproveitar esse potencial, será necessário melhorar as infra-estruturas, a qualidade dos serviços e as condições para atrair visitantes e investimento privado.
O Ministério do Turismo e Hotelaria, assim como a ruidosa máquina de propaganda da comunicação social pública continuam remetidos ao silêncio sepulcral, duas semanas depois da divulgação desse documento. Nas televisões públicas e na rádio que diz "unir o país" nenhuma referência foi feita ao relatório do Fórum Económico Mundial.
Ficou, uma vez mais, provado que desenvolver o turismo é mais do que possuir potencialidades turísticas, construir aeroportos megalómanos, ou isentar de vistos de entrada aos visitantes, ou ainda "comprar" pacotes atractivos aos principais órgãos da imprensa.
Apesar de alguns avanços registados, o país não deu ainda grandes passos para " desviar" os turistas dos seus tradicionais destinos em África: RSA, Egipto, Cabo Verde, Marrocos, Tunísia, Namíbia, Zâmbia, Botswana, Seychelles, Maurícias, dentre outros.
