O seu discurso sobre o "Estado da Nação" pode ser considerado como o da "despedida" ou, da "última ceia", se preferirem, já que ele não voltará a fazê-lo naquele espaço, por estar impedido, por força da CRA, de concorrer a um terceiro mandato à Presidência da República.
Em alguns círculos políticos e de opinião crê-se que este último discurso venha a ser uma espécie de balanço dos dois mandatos, ou seja, dos quase 10 anos de (des)governação em que JLo esteve à frente dos destinos do país.
A sua passagem pela AN trará novamente à superfície a atipicidade da CRA, já que JLo, apesar de ter sido eleito pela lista de deputados do seu partido, paradoxalmente, não responde diante do Parlamento.
Daí que o Titular do Poder Executivo (TPE) terá a rédea solta para pintar um quadro alocromático da sua governação, sem que seja contrariado ou, no mínimo, interpelado pela oposição parlamentar.
Para não variar, prevê-se que o seu discurso não venha a fugir muito do que já nos habituou nestes últimos anos, ou seja, um discurso longo, cansativo e retórico, com se fosse uma espécie de relatório, com laivos de irrealismo, prenhe de retóricas e ambiguidades.
Na realidade, JLo terá todo o palco para se tornar uma estrela cintilante, e arrancar aplausos a uma plateia ruidosa rendida a seus pés, que detém a maioria parlamentar.
No sentido de vincar a ideia de unidade e alinhamento político entre o Executivo e a bancada parlamentar do seu partido, adivinha-se que o seu discurso venha a ser interrompido, a espaços, com muitas salvas de palmas.
As condições estão praticamente criadas para que ele esteja, uma vez mais, sob à luz dos holofotes dos órgãos públicos de comunicação social, sobretudo das televisões controlados pelo Estado e editorialmente comprometidas com as chamadas "ordens superiores".
Este "Estado da Nação" servirá também de teste à postura da nova TV e da Rádio, que este ano foram criadas expressamente para servir o Parlamento. Estes novos canais de comunicação terão a coragem de exibir imagens que, eventualmente, não abonem a imagem do PR, admitindo-se hipoteticamente que este seja "agraciado" com os habituais "cartões vermelhos" da Oposição?
Tudo aponta que o Chefe de Estado venha a enaltecer os feitos da sua governação no que diz respeito ao combate à corrupção e impunidade um dos maiores, senão o maior desafio do seu consulado, mesmo sabendo-se que os resultados, volvidos 9 anos, estão além das expectativas.
Não deixará, certamente, passar em branco o Programa de Integração e Intervenção nos Municípios (PIIM), descrevendo-o como um autêntico "sucesso", sem, no entanto, fazer referência aos custos financeiros reais da sua implementação, às dívidas aos empreiteiros, ou da sua quase ineficácia na melhoria das condições de vida dos munícipes, ou ainda do seu fracasso em estancar o êxodo rural.
Numa aparente fuga para frente, o orador poderá atirar as culpas da não realização das autarquias à Assembleia Nacional, descalçando as botas do Executivo, e apresentar a Divisão Político-Admnistrativa (DPA) como um dos maiores sucessos para a resolução dos problemas do poder local.
Expectativas à volta do discurso ou da "última ceia"
Convidado a comentar sobre as perspectivas do discurso do "Estado da Nação", Florindo Chivucute,
Director Executivo da ONG Friends of Angola, espera que JLo assuma compromissos, de forma inequívoca, com o bem-estar e a democracia.
"O PR deve apresentar um balanço honesto e real da sua governação, reconhecendo os avanços, falhas e promessas que não foram cumpridas".
Segundo o activista, apesar de JLo estar em fim de mandato, ele "deve comprometer-se com as eleições não apenas livres, mas também transparentes, justas e inclusivas".
Para que a confiança eleitoral seja (r)estabelecida, Chivicute deseja que o PR crie as condições para "um registo eleitoral verificável, auditorias independentes, observação credível e publicação dos resultados por mesa".
O entrevistado do NJ, gostaria que o orador traçasse um quadro realista sobre o combate à fome, o acesso à água, ao saneamento e à habitação e que assumisse publicamente um compromisso para a
a libertação dos presos políticos e de todos os que tenham sido detidos devido ao exercício pacífico dos seus direitos.
Por sua vez, o jurista e analista político, Catumbela de Sá gostaria que o PR fizesse uma abordagem acerca do actual estado da justiça e reconhecesse publicamente o fracasso no combate à corrupção que, segundo ele, foi a "maior derrota" na governação de João Lourenço.
"Temos uma justiça que cria sofrimento aos que nela se socorrem, devido à morosidade processual, que é igual a injustiça", reforça.
Sobre o último discurso no "Estado da Nação", o sociólogo Miguel Ângelo considera, por seu turno, que o PR poderá, certamente, abordar a questão relativa à preparação das eleições em 2027, dar destaque às duas barragens recentemente inauguradas na província do Cunene, no âmbito do programa de combate à seca no sul do país, assim como dos hospitais, com realce para o dos Queimados.
No domínio da educação, poderá apresentar os dados referentes "à redução do número de alunos fora do sistema de ensino, no sector social falará do projecto de abastecimento de água as províncias de Luanda e Icolo e Bengo, atendendo a perspectiva de inauguração para este mês do projecto de Quilonga Grande".
