Para compreender esta ausência de impulsividade, precisamos recuar quatro décadas. Nos anos 80, o continente asiático viu despontar felinos com as garras afiadas para a tecnologia, a banca, as bolsas e o cinema: os chamados "Tigres Asiáticos". De Hong Kong a Singapura, à Coreia do Sul e a Taiwan, todos foram impulsionados pelo colosso industrial e financeiro do Japão.

Enquanto isso, o mundo olhava para a emergência destas economias, e a China, resguardada pela sua Grande Muralha, deixava o Rio Amarelo correr o seu natural curso silenciosamente. O colosso ancestral agia como um verdadeiro elefante asiático: movia-se devagar e convertia a paciência no maior trunfo estratégico.

Paralelamente, na Europa, outro muro caía sob a força dos martelos da história. Desmoronava-se a divisão forjada por eixos ideológicos que haviam marcado uma era de corrida ao espaço, controlo da propaganda e diabolização mútua. Talvez alguns pensassem ser o fim de uma busca cega pelo poderio geopolítico e de uma pretensão de controlo global que, durante décadas, sacrificou o bem-estar humano em prol da manutenção de fronteiras territoriais, porém tal não se vislumbrou.

Em contrapartida, os países africanos, nos quais figurava Angola, iam-se debruçando sobre trincheiras de corpos amontoados, mutilados, e assistindo aos gritos de liberdade se volverem em clamores e ecos longínquos de um ciclo de violência e pobreza generalizada que se perpetuou por décadas entregues a saqueadores e mercenários.

Com o sangue derramado, o continente viu os seus caminhos cruzarem-se com um dos principais palcos de uma Guerra Fria que se desmoronava ante os nossos olhos, num turbilhão confirmado por dados e factos. Segundo os investigadores americanos Jonathan M. Powell (Universidade da Florida Central) e Clayton L. Thyne (Universidade de Kentucky), registaram-se 39 tentativas de golpe de Estado na região ao longo dos anos 90, das quais 16 resultaram no derrube efectivo de governos.

Em 2002, calaram-se as armas em território nacional. Abriu-se a oportunidade crucial para a reconstrução e, com o vácuo por preencher, foi a China aquela que estendeu a mão para auxiliar Angola nessa etapa, dispondo-se a transportar as primeiras pequenas pedras para erguer a montanha.

Contudo, a ânsia do Governo em se afirmar e de traduzir a grandiosidade através de infra-estruturas monumentais, muitas vezes desfasadas das necessidades imediatas do tecido social, acabou por priorizar o betão em detrimento do alívio urgente e do desenvolvimento humano da maioria da população.

Este pensamento é sustentado pelos relatórios independentes que mapeiam os fluxos financeiros sino-africanos ao longo desse período de vinte anos. Não é que as infra-estruturas não fossem importantes, mas o saneamento básico era uma das exigências a ser endereçada e veja-se que até hoje não foi tratado permitindo a proliferação de situações como a cólera ou a malária.

No caso, Pequim injectou em Angola mais de 45 mil milhões de dólares espalhados por centenas de obras públicas. Gizou-se uma parceria de conveniência mútua: de um lado, o país asiático garantiu o fornecimento estável de petróleo para alimentar o seu crescimento industrial e, do outro, Angola conseguiu o oxigénio financeiro necessário para reconstruir pontes, estradas e hospitais num momento em que o território estava devastado e sem acesso a crédito ocidental.

Isto fez com que mais de metade do investimento se tenha concentrado na energia e no petróleo, áreas essenciais para a economia, enquanto o sector dos transportes e a agricultura absorveram fatias mais modestas. A aliança desenhou-se como um negócio pragmático a longo prazo em que o cimento chinês e o crude contribuíram para estabilizar a balança comercial.

Um dos primeiros passos dados pela China para projectar a sua relevância no xadrez geoestratégico austral foi na Zâmbia e aconteceu antes da explosão dos já mencionados "Tigres Asiáticos". Em 1970, surgia a linha de Tazara, na fachada índica do continente; aquela era a primeira grande investida da engenharia de Pequim em solo africano. Nada foi aleatório. Tudo foi cuidadosamente pensado.

Cinco anos antes, o histórico presidente chinês, Mao Tse-Tung, assumira o custo político e financeiro perante os também líderes históricos Julius Nyerere (Tanzânia) e Kenneth Kaunda (Zâmbia), declarando que este "Elefante" ajudaria a construir a ferrovia mesmo que, para isso, tivesse de abdicar de erguer as suas próprias linhas internas. Esse investimento de solidariedade ideológica no século passado pavimentou o caminho para que Tazara continuasse como um importante eixo de influência às suas pretensões.

Simultaneamente, a milhares de quilómetros dali a herança colonial do Caminho de Ferro de Benguela (uma rota originalmente desenvolvida por engenharia portuguesa e capital britânico no início do século XX) preparava-se para entrar num novo capítulo.

Fustigada por décadas da guerra fratricida, renascia entre 2006 e 2014 sob o investimento nacional, as linhas de Moçâmedes, Benguela e Luanda apoiavam-se no traço e no betão das construtoras estatais chinesas, expondo Angola a um desafio para a gestão ferroviária, como reporta o Novo Jornal em 2023.

A ligação ao Porto do Lobito passava a ser encarada mais do que uma rota interna de reconstrução para se transformar num corredor transcontinental cobiçado para atravessar o continente em linha recta, ignorando a complexa instabilidade dos distantes Kivus no leste da República Democrática do Congo (RDC) ou as fronteiras do Ruanda, focando-se cirurgicamente no verdadeiro coração metalúrgico da África Central: a lendária e rica região do Katanga. Até porque é no solo do sul da RDC que repousam as maiores reservas mundiais de cobre, manganês e tungsténio.

Hoje, com os Estados Unidos e a União Europeia a entrarem em cena com um financiamento inicial de 553 milhões de dólares através do DFC para o lado angolano, abrem-se horizontes económicos que a investigação internacional convida a ler sob o crivo de pontos de vista cruzados.

O que para Washington se entende como uma urgente estratégia de segurança para quebrar o monopólio industrial de Pequim nas cadeias de transição energética, a diplomacia chinesa contrapõe como sendo a legitimidade de quem investiu no terreno quando o Ocidente estava ausente, modernizando agora a linha da Nova Tazara por 1.4 mil milhões de dólares rumo ao Índico, que, contrariamente ao que se difunde, em nada se opõe ao Corredor do Lobito. Ambas rotas são complementares e revelam um paradoxo interessante.

Em Agosto último, os Presidentes de Angola, João Lourenço, e da RDC, Félix Tshisekedi, assinaram o contrato definitivo de 1.800 milhões de dólares para a reabilitação e gestão por 30 anos do troço ferroviário essencial dentro do território congolês. A empresa escolhida para operar esta peça-chave do plano ocidental foi a Mota-Engil África.

Acontece que a gigante estatal chinesa CCCC (China Communications Construction Company) é a segunda maior accionista da construtora portuguesa. Adicionalmente, entre 70% e 80% das dezenas de concessões mineiras no Katanga pertencem a consórcios de Pequim. Assim, o elefante asiático infiltra-se nos próprios carris financiados pelo Ocidente, garantindo uma rota mais rápida e barata para escoar o minério que já possui.

A guerra moderna, como sublinham os analistas independentes do instituto britânico Chatham House, já não se traça apenas na força bruta dos carris, mas sim no controlo digital dos dados geológicos e sistemas de rastreabilidade de minerais, mas também na crescente aposta da inteligência artificial e de aparelhos tecnológicos que dependem desses minérios críticos.

Logo, a resposta regional de Angola não se traduz apenas como um simples agente passivo por onde circulam os vagões e os comboios. Os novos acordos com a RDC demonstram que há um plano mais amplo com a venda de gasolina angolana, a exportação de energia eléctrica a partir do Soyo para suprir o défice industrial do Congo, e o desbloqueio de uma exploração petrolífera conjunta numa zona comum repartida a 50/50 com os quais pode capitalizar.

É aqui que a ciência pode transformar o xadrez geopolítico em riqueza real e palpável para Angola, através do Planageo (Plano Nacional de Geologia). De acordo com os levantamentos aerogeofísicos e geoquímicos deste documento, o famoso Cinturão de Cobre da África Central (Copperbelt) não se circunscreve às fronteiras dos vizinhos: ele prolonga-se pelo leste de Angola adentro.

Esta mancha geológica no leste do território nacional está avaliada em aproximadamente 100 mil quilómetros quadrados, uma extensão equivalente ao tamanho de Portugal Continental.

Estes dados de alta precisão do Planageo tiraram o País da penumbra interpretativa e serviram de isco para os maiores tubarões da mineração mundial. Isto posiciona Angola no radar de trabalhos avançados de prospecção de cobre e metais por multinacionais, como a britânica Anglo American nas comunas de Calunda e Macondo (Alto Zambeze), e pela Rio Tinto nos municípios de Luchazes e Bundas.

Se a perfuração profunda confirmar o teor destas reservas, o Corredor do Lobito passará a escoar, prioritariamente, a própria riqueza extraída do subsolo angolano, gerando milhares de empregos e receitas fiscais directas para os cofres do Estado. Além disso, há outro factor que pode vir a jogar um papel importante para economia nacional, isto é a futura operacionalização da Refinaria do Lobito.

Caso venha a arrancar com sucesso permitirá ao País processar o crude nacional e exportar refinados via férrea para a Zâmbia e RDC, transformando o corredor logístico num motor de industrialização regional no cenário mais ideal possível.

Este círculo vai desembocar num desafio que contempla uma relação diplomática com o eixo ocidental, mas que não pode ser de maneira nenhuma dissociada da China, pois cedo aprendeu como a montanha que Confúcio ensinou a mover gere, finalmente, soberania, riqueza interna e desenvolvimento sustentável dentro das suas próprias fronteiras, ou seja aquilo de que Angola e os angolanos necessitam para dar uma guinada rumo ao progresso por todos há tanto ansiado.