Não há nada de errado em investir neste ramo. Para um empresário com boa visão para o negócio a morte pode ser muito lucrativa. Basta pensar que a taxa de mortalidade em Angola é elevada e que, actualmente, todo o enterro ou ritual fúnebre denota despesas, frisa Armando, dono de uma das funerárias da conhecida rua Deolinda Rodrigues.

Comprar flores, escolher o caixão, ter um local para o enterro, transportar o morto... Tudo envolve dinheiro. Muito dinheiro, explica o senhor Armando. Enterrar condignamente os nossos ente-queridos é o nosso dever, conclui.

Na rua Deolinda Rodrigues perfilam- se mais de 20 agências funerárias. A zona da FTU é, para muitos, uma referência para este tipo de negócio, conta um dos trabalhadores do senhor Armando.

Há tempos atrás havia poucos empresários neste sector. Nando Mervil foi o primeiro a abrir uma funerária na FTU. Conta que, na altura, este tipo de negócio ainda não tinha muita concorrência.

Contrariando os rituais simples de antigamente, onde o morto era velado em casa, hoje há uma variedade de formas de perpetuar a memória da pessoa falecida para além do respeito e admiração por tudo o que ela representou. Em muitas zonas, fazer uma cozinha na casa do vizinho ao lado para alimentar os amigos e conhecidos, e comprar bebidas, é indispensável, revela dona Lia, ajudante do senhor Ernesto, que também é dono de uma agência funerária.

Há muitos exemplos da criatividade e dos altos valores que são cobrados para que o morto tenha uma partida condizente. O caixão refrigerado, por exemplo, é já um item indispensável, apesar de cá ainda não termos. Mas em países como Japão já há, conta Ernesto.

Os empresários reclamam a demora do produto importado e que até hoje nada se tem feito para que seja mais rápido. Não venham dizer que somos careiros. Nós também importamos e a custos altos, revela Ernesto.

Havia mais rendimento antes porque existiam poucas agências funerárias. Neste momento o segredo é mostrar mais luxo. Assim os clientes que têm mais possibilidades aproximam-se e compram, revela. Ultimamente as urnas nacionais não têm muito rendimento. A procura está concentrada nas urnas importadas. O preço das urnas varia de 45 mil kwanzas, com transporte, até 200 mil kwanzas para a mais cara das importadas.

Tranquilidade para quem fica

Um dia de visita às funerárias. O que mais chamou à atenção foi a maneira cómica como algumas empresas anunciam seus produtos ou despedem- se dos seus clientes.

Mateus é dono de uma funerária. A empresa começou com o seu pai Jaime, em 1988, com o slogan A solução moderna para um velho problema. Todo o mundo tinha aquela má idéia das funerárias, naquele ambiente esquisito, feio e triste. O ambiente mais alegre, com um espaço florido e bem apresentado, ajuda a confortar os clientes. Já nem dá medo passar por aqui!- comenta, citando o caso dos outros colegas que fazem das suas agências um local suspeito.

Se tivesse que atribuir um slogan à minha funerária seria: Tranquilidade para quem fica. No difícil momento da perda, os gastos já são muitos e é complicado sair em busca de donativos. Por isso, procuro não axagerar muito nos preços, conta Mateus.

Mateus ainda se considera do tempo em que se tirava a medida do morto. Hoje, além do caixão padrão com 1,90 metros de comprimento, Mateus vende muitos outros, na tentativa de ampliar o seu público. É caixão para judeu, católico, evangélico, muçulmano, explica, enquanto aponta para um deles com uma pomba branca e uma mensagem da Bíblia.

O jovem, que já trabalha no ramo há muitos anos, não faz publicidade da sua agência e conta que nunca pretendeu fazer. A ideia é esperar que o cliente bata à sua porta. O dentista não sai por aí à procura de clientes. Quando você tem dor de dente vai até ao consultório. O mesmo acontece connosco. Sou contra o uso de propaganda neste ramo, repete Mateus.

Melo Gervásio, que está há quase 20 anos no mercado publicitário, nunca trabalhou numa campanha de lançamento de funerária ou de alguma empresa que ofereça serviços de assistência ao óbito.

"Só não aceitaria permuta. Iria querer receber à vista, brinca. O publicitário acredita que, em Luanda, poucas empresas desenvolveram esse tipo de comunicação por ser um mercado restrito e que anuncia muito pouco.

Acredito que se o fizéssemos seria considerado de mau gosto. Este produto não é detergente ou alimentos, que são positivos e que permitem o uso de promoções. É um produto negativo e exige alguma subtileza. Eu não posso fazer este tipo de anúncios, acrescenta Melo Gervásio.