Depois de a Organização Mundial de Saúde (OMS) ter declarado esta epidemia, que começou há perto de seis semanas na província de Ituri, no leste da RDC, como uma crise global de saúde pública, a ajuda internacional segue em força para a região.

Isto, porque mundo começa a acordar para aquela que tem tudo para ser uma das mais graves epidemias de Ébola de sempre porque a estirpe do vírus que está na sua origem não tem, confirmou a OMS, "nem vacina nem tratamento eficaz".

Esta epidemia é gerada por uma estirpe que poderá ter origem no Uganda, país onde foi descoberta, por ser ali mais comum, a Bundibugyo ebolavirus (BDBV), que é ligeiramente menos agressiva que a mais dispersa no mundo, mas não tem um tratamento activo ou preventivo.

Até ao momento, terça-feira, 19, já foram registadas 132 mortes e mais de 500 casos suspeitos de infecção, mais cerca de 50 em apenas 24 horas, desde o último balanço feito na segunda-feira, 18.

Depois de ter atingido a província de Ituri, a epidemia está já nas províncias vizinhas dos Kivu Norte e Sul, e casos suspeitos têm sido noticiados na capital do país, Kinshasa, embora ainda sem confirmação laboratorial.

Além das equipas médicas do Ministério da Saúde congolês, coordenadas pelo Instituto Nacional de Pesquisas Biomédicas (INRB, sigla em francês), estão no terreno dezenas de elementos da OMS, do CDC-Africa, Centro de Doenças Infecciosas da União Africana, e dos Médicos Sem Fronteiras.

Porém estas equipas deparam-se permanentemente com obstáculos como a crença de que são estes técnicos que estão a espalhar a infecção, evitam os centros de tratamento e diagnóstico procurando antes a ajuda de curandeiros que, nas suas acções, esse sim, espalham a doença.

Apesar de já ser o 17ª epidemia desde que o vírus foi pela primeira detectado em humanos, na década de 1970, na RDC, nos últimos anos esta é a que mais riscos apresenta porque se trata de uma estirpe que não responde às vacinas, como foi o caso das últimas epidemias (ver links em baixo).

A estirpe mais comum, e também a mais letal, nas epidemias já registadas na RDC, principalmente nas suas províncias do leste, ou no Equador, no oeste do país, mas igualmente em todo o continente, é a Ébola-Zaire, descoberta na província do Equador, RDC, na década de 1970, para a qual já existem vacinas com elevada percentagem de sucesso.

Mas esta está a ser gerada pel Bundibugyo ebolavirus (BDBV), que é ligeiramente menos agressiva que a mais comum, embora com letalidade acima de 50%, mas não existe nem vacina nem outro tipo de tratamento.

As outras três variantes do vírus do Ébola, da família Florividae, conhecidas são a Sudan ebolavirus (SUDV), descoberta no Sudão, das mais letais, a Taï Forest ebolavirus (TAFV), Descoberta na Costa do Marfim, até ao momento há registo de um número muito reduzido de casos humanos e a Reston ebolavirus (RESTV), com origem nos Estados Unidos (em macacos importados das Filipinas), que, por enquanto, afecta apenas primatas e outros animais.

Segundo o CDC África, o combate a esta epidemia está a apresentar as mesmas dificuldades de sempre, que é a resistência das populações a procurarem as equipas médicas oficiais, optando antes pelos tratamentos tradicionais, curandeiros e feiticeiros, que são uma das causas principais da dispersão da infecção.

Além disso, apesar das campanhas e das acções de sensibilização realizadas nas anteriores situações, nas comunidades mais ruralizadas, o ritual de tocar nos mortos para se despedirem dos familiares ou amigos dificulta muito os esforços para estancar a infecção.

Nesta situação grave que ocorre no maior vizinho de Angola, com quem existe uma fronteira de 2.500 kms, embora o foco da doença esteja a milhares de quilómetros, e também no Uganda, havendo pelo menos um caso suspeito em Kinshasa, está ainda em evidência as dificuldades criadas pela existência de um conflito armado violento no leste congolês.

E é tanto assim que uma das zonas afectadas está dentro dos territórios ocupados pelos guerrilheiros do M23, apoiados e armados pelo Ruanda, que há anos combatem com as forças regulares da RDC, nas províncias dos Kivu Norte e Sul e no sul de Ituri.

Em Kinshasa, entretanto, as autoridades sanitárias, através do INRB, estão a apelar às populações afectadas para seguirem as indicações das equipas médicas, e a procurar criar condições para que o conflito militar não limite os esforços de contenção da doença.

A OMS sublinha que "nenhum país deve fechar as suas fronteiras ou impor restrições às viagens e ao comércio", prevenindo que tais medidas poderiam ser contraproducentes, mas "não devem ocorrer viagens internacionais de pessoas que tiveram contacto com o vírus Bundibugyo ou que apresentaram sintomas da doença, a menos que a viagem faça parte de uma evacuação médica apropriada".

Aos estados com casos detectados é recomendada a realização de triagens transfronteiriças e nas principais vias internas para "garantir que nenhum caso suspeito passe despercebido e melhorar a qualidade das triagens através de uma melhor partilha de informações com as equipas de vigilância", mas "não devem ocorrer viagens internacionais de pessoas que tiveram contacto com o vírus Bundibugyo ou que apresentaram sintomas da doença, a menos que a viagem faça parte de uma evacuação médica apropriada", recomenda a OMS, advertindo que qualquer novo caso suspeito deve ser notificado imediatamente e tratado como uma emergência de saúde pública.