Na lagoa já estão a nascer peixes, facto que atrai muitos petizes que, para além dos mergulhos, aproveitam o pântano para pescar, ignorando a quantidade de lixo na água e a profundidade do charco. Já se fala mesmo em várias mortes por afogamento.

A lagoa está bem à entrada da chamada rua do Coelho, bairro Km 9, dentro de uma vedação de chapa que aos poucos vai desaparecendo, o que chama atenção dos muitos transeuntes que circulam pela avenida Deolinda Rodrigues, vulgo estrada de Catete.

Vários são os meninos que logo pela manhã acorrem à "piscina" para brincar, inconscientemente, na absoluta impureza da água turva. Jorge, de 11 anos, foi a primeira pessoa com quem iniciámos a conversa na manhã de segunda-feira, 11.

Desnudado e descalço, o menino banhava-se na água pútrida o que, aos olhos de qualquer adulto, apresenta um enorme perigo não apenas de afogamento, mas também de saúde pública.

A inocência, infelizmente, não coíbe as crianças de mergulhar naquela água acastanhada e repleta de lixo. "A água não está suja. Está limpa", respondeu o menino Jorge quando questionado pela nossa reportagem sobre a condição da água em que brincava. Depois, reconheceu, "não quero ficar doente", disse a criança que já aparentava começar a ganhar consciência do mal que corria.

Deu-nos ainda a conhecer que estudava à sexta-classe e que se encontrava a gozar a primeira semana da pausa pedagógica que se observa nas escolas do primeiro e segundo ciclo do ensino secundário.

Um facto que demostra, desde logo, falta de programação por parte dos responsáveis do sector de ensino e de muitos encarregados de educação, no que toca à ocupação dos alunos em tempo de repouso deste primeiro trimestre. Peixe e mais peixe Na lagoa do Fuxi, como já é apelidada, está a nascer peixe, o que atrai muitas crianças e adolescentes que vão para ali brincar e pescar cacussos, tal como testemunhámos no local.

Até bem perto das 11 horas, Félix, um jovem de 19 anos já havia pescado perto de 40 peixes pequenos que acumulava em baldes. Uma parte deste peixe é para pôr num aquário e a outra é para comermos, explicou o jovem, garantindo haver peixes grandes na lagoa.

"Estou a pescar no lago há uma semana. Apenas pescamos. Não banhamos porque a lagoa é suja, funda e tem lodo", explicou o também estudante. Jesus é outro jovem pescador e companheiro de Félix. Disse que aprendeu a pescar no Lubango, sua terra natal.

"Toda a lagoa tem sempre peixes ou peixinhos. Para além deste local, também tenho pescado em outras áreas, como nos Ossos, que fica na área do 30 e no Calemba Dois, onde também há lagoas", revelou o jovem pescador que também reconhece a podridão da água em que pescava: Esta água é um perigo para a saúde, mas sei como desinfectar o peixe. Primeiro fervemos, depois temperamos e a seguir vai para a grelha.

"Come-se bem", disse o jovem, que, de repente gritou: "já vai, já vai…. aí… o outro" anunciava o rapaz que, acabava de pescar mais um "cacussinho", enquanto falava com o repórter do NJ. Em cerca de três lances, num espaço de três minutos, Jesus pescou três peixes, o que fazia acreditar, para os presentes, a existência de vários cardumes na lagoa da Estalagem.

"Até ao final do dia, posso pescar um balde. Ontem mesmo, pescamos um balde", gabou-se Jesus que continuava com os arremessos para apanhar mais peixe, a medida que os colocava num balde de quase cinco litros. No local, também já há pequenos compradores de peixe.

Ernano, um rapaz de aparentemente dez anos, disse a nossa reportagem que ele e seus companheiros deslocam-se naquela lagoa para comprar "peixinho" que depois são colocados em aquários para criação.

"Compramos à 150 0u 200 kwanzas", revelou o menino residente na circunvizinha. Mortes no lago O buraco, segundo reza a história foi aberto há menos de cinco anos, pela empresa MOTA - ENGIL, com o objectivo de absorver as águas que provinham de alguns quintais daquela área e que ao acumularem-se ao lado da estrada dificultavam a circulação rodoviária na avenida Deolinda Rodrigues.

Para solucionar o problema das águas acumuladas a MOTA - ENGIL decidiu, na ocasião, abrir no mesmo local duas valas que hoje se tornaram em autênticas lagoas devido as chuvas. Em 2011, a lagoa ainda descoberta, fez a sua primeira vítima, um menino de 12 anos que ali brincava em companhia de outros.

Tempos depois, a zona foi vedada para se evitarem mais mortes. Actualmente, a vedação de chapa aos poucos vai desaparecendo, fruto da invasão que tem sido alvo por parte das crianças, adolescentes e jovens que se banham no charco, em plena "morte anunciada".

João Baptista, um cidadão mecânico de motorizadas que tem o local como seu ganha-pão, testemunha a presença ocasional de cadáveres no "rio". "Há uns quatro meses, vimos um cadáver aqui na lagoa. Penso que terá sido alguém assassinado e abandonado aqui", disse o cidadão que, se mostrou igualmente preocupado com a presença de muitas crianças no local.

"Esta situação é triste porque esta água pode provocar muitas doenças. Ainda ontem havia aqui um cão morto. Alguém terá vindo deita-lo aqui, muita gente vem deitar lixo na água. As autoridades deveriam ver isto", apelou o munícipe, acrescentado que vários camiões cisternas também despejam água no lago.

"Esta lagoa é funda e representa um perigo muito grande", insistiu o interlocutor. "Aqui já morreu uma criança", testemunhou o pequeno Francisco da Silva de 11 anos. "Ele não sabia nadar e se afogou. Isto aqui é fundo e tem bichos. Venho buscar peixinho e aproveito banhar", esclareceu a criança que comodamente, em companhia dos seus amigos dava mergulhos na piscina da "Mota Engil".

Tete uma outra entrevistada, também testemunha o perigo que buraco inundado apresenta para as crianças que ali brincam. A jovem que, passa sempre pelas imediações, afirmou a nossa reportagem que tem reparado, ocasionalmente, a presença de pessoas a chorar na lagoa, procurando por parentes desaparecidos, na sua maioria crianças.

Por sua vez, o adolescente, Adilson José, outro interlocutor, ajuntou que, toda água da chuva que sai da avenida principal de Viana, escorre até a "piscina" aberta pela "empresa MOTA-ENGIL" que há muito se retirou da zona.

"Os trabalhadores das obras cavaram este buraco para retirar a água da estrada. Agora, o poço serve de esgoto de toda água da chuva. As crianças vêm aqui banhar. Esta água não está boa para os miúdos. Deveriam fechar o quintal para ninguém entrar", alertou o também adolescente.

"Estão à espera de uma tragédia"

O cidadão Paulo Jorge mostra-se preocupado pela "indiferença" das autoridades municipal e provincial, face ao perigo que o buraco apresenta. "Até ao momento, nada se faz para devolver a segurança dos moradores e das crianças que ali brincam. Estamos diariamente, expostos às doenças como paludismo, diarreia e outras", reclamou o cidadão. Este local, explicou, "foi um estaleiro da Mota Engel. Depois da empresa sair vedaram o espaço, não sei para que fim. Vieram máquinas e cavaram. Fizeram este enorme buraco que agora é uma lagoa perigosa. Se uma destas crianças escapar numa das zonas profundas, morre", avisou o também morador. Paulo Jorge recorda que há três anos uma criança faleceu na lagoa quando brincava com os seus amigos.

"Foi assim que decidiram vedar o espaço, mas agora, está novamente descoberto e assistimos o regresso das crianças na lagoa", desabafou o jovem para quem a situação deveria preocupar a todos.

"O país tem órgãos competentes para tratar do assunto. Uma lagoa deste género é morte a vista. Não sei se, isto é critério dos angolanos que só se preocupam em resolver os problemas quando há uma catástrofe. Enquanto não haver mal maior, ninguém liga", criticou o citadino. Por fim, o interlocutor apela as autoridades no sentido de prestar maior atenção e segurança de todos cidadãos, apelando para a observância da saúde pública.

"As autoridades devem ver este caso, se dê para fechar que fechem novamente. Se poder por um empreendimento para beneficiar o povo, talvez uma escola, que o façam, porque assim como esta, é um risco para muita gente principalmente as crianças. Esta água representa o paludismo, a diarreia, o vómito e outras doenças que já nos tem assolado", concluiu preocupado, o munícipe.