"Se não fosse basquetebolista seria… basquetebolista". É desta forma paradoxal que Carlos Almeida, 37 anos, justifica - numa conversa com o Novo Jornal na sua residência, no Maculusso, em Luanda - a paixão nascida desde tenra idade pela modalidade.
O sonho começou a ser traçado ainda muito cedo, aos oito anos, quando, na década de 80, se rendia aos dribles e à capacidade de finalização de José Carlos Guimarães, ex-capitão da selecção nacional de basquetebol.
"Foi um excelente jogador. Via-o pela televisão. Os seus dribles e capacidade de finalização mexiam comigo. Queria ser como ele", confidenciou, revelando um sonho que, três décadas depois, julga ter concretizado.
"Fui capitão da selecção nacional, por várias vezes. Foram vários títulos e distinções nacionais e internacionais. É visível o reconhecimento por parte da sociedade. Deixo o basquetebol com sentimento de dever cumprido", declarou.
São publicamente conhecidas as passagens pelo Petro e pelo 1.º de Agosto. No entanto, Carlos Almeida faz questão de sublinhar que não foi em qualquer destes clubes onde aprendeu o "abc" do basquetebol.
"Com os meus oito anos, já brincava com a bola em casa. Entretanto, a minha primeira escola foi o extinto Clube Desportivo da Ert, que ficava bem próximo de casa", recordou.
Dos nove aos 11 anos, seguiu-se a passagem pelas escolas do Petro de Luanda. No entanto, por influência de amigos, passou pelo 1.º de Agosto entre os 11 e os 13 anos.
Quando regressou ao Catetão só saiu quase no auge da carreira, uma mudança que provocou "sérias rupturas" no relacionamento com amigos, fãs e dirigentes por uma razão perfeitamente compreensível: trocou o Petro pelo rival 1.º de Agosto.
A transferência dos petrolíferos para os militares deu-se aos 23 anos, um ano antes da estreia em grande pela selecção A, durante o Afrobasket de 1999, ganho por Angola.
"Não foi fácil. Mas são coisas normais nas lides profissionais. No fundo, mudei-me porque o 1.º de Agosto tinha apresentado um programa aliciante de formação. Isso pesou na minha decisão", justificou.
"Ainda assim, sei que muita gente não me perdoou. Mas tenho consciência que a prestação na selecção terá ajudado a acalmar os ânimos. Hoje, sou acarinhado e respeitado pelo povo, não importa, muitas vezes, a cor do clube", afirmou, emocionado, o ex-capitão da selecção.
Alinha pelo mesmo diapasão de que o país perdeu alguma qualidade na formação de basquetebolistas, por isso, vê, de forma pouco optimista, o futuro da modalidade no país.
"Hoje, os clubes estão mais apostados no imediatismo. Muitos deixaram de ter camadas de formação. Devemos melhorar a própria qualidade dos treinadores que trabalham na formação", observou.
Para Carlos Almeida é preocupante os clubes angolanos estarem a contratar atletas abaixo de um metro e noventa, cenário que "não era prática do passado. Sempre tivemos défice na posição debaixo da cesta [poste], mas nunca noutros sectores onde foi sempre o nosso forte. Hoje, a política de contratação ignora este pormenor".
"Perdemos alguma qualidade na finalização. Precisamos trabalhar mais os lançamentos a partir mesmo da formação. Nem sempre devemos seguir, à risca, o tempo que as normas de treino impõem. A realidade é um pouco diferente, porque para sermos excelentes, temos de ultrapassar um pouco as teorias. O triplista faz-se com muitas horas de treinos e de lançamentos", aconselhou.
"Já se ganha melhor"
Carlos Almeida foi peremptório ao afirmar que já é possível viver exclusivamente do basquetebol em Angola, particularmente para atletas que militam nos maiores clubes do país.
Sente-se um jogador materialmente realizado?
"O mais importante, para mim, é a felicidade espiritual. Devo confessar que, enquanto basquetebolista, ganhava o suficiente para sustentar a família, dando-lhe a melhor educação, formação, alimentação e saúde. Aliás, hoje já se pode viver exclusivamente do basquetebol em Angola, em particular os atletas que militam nos principais clubes", respondeu o ex-extremo-base.
Que sonhos ficaram por conquistar?
"Sinceramente, modéstia à parte, julgo que não ficou nada por vencer. É natural que um atleta, sobretudo africano, sonhe atingir as melhores ligas europeias ou a NBA. Mas penso que o mais importante é quando defendemos a cor do país. Quanto a isso, julgo que consegui tudo. Devo ser dos poucos atletas que em Afrobasket averbou apenas uma derrota [contra a Argélia, em 2003, em Marrocos]. Ganhei todos os sete Afrobasket em que participei. Estive em vários mundiais e Jogos Olímpicos. É de se sentir satisfeito", realçou.
Quanto ao adiado sonho de Angola ver um basquetebolista na NBA, Carlos Almeida justificou-o com três pressupostos: sociológico, político e comercial.
"Devido, também, à nossa reduzida densidade populacional [cerca de 20 milhões], Angola produz um número muito baixo de atletas em relação, por exemplo, aos nigerianos ou senegaleses, países que são muitas vezes mais que o dobro da nossa população e têm, por isso, maior número de praticantes e talvez mais qualidade individual. Ainda na vertente sociológica, é preciso entender que os angolanos não são tipicamente imigrantes, comparando com os cidadãos destes países", exemplificou.
Continuando, considerou que na vertente da política desportiva, "pouco se faz para parcerias com grandes clubes europeus e americanos, que viabilizem o envio, por exemplo, de jogadores angolanos para as grandes universidades".
"Hoje, o desporto em geral é bastante comercial. Veja-se, por exemplo, os dividendos que uma equipa da NBA pode retirar da venda de camisolas de um jogador chinês, cuja população é estimada em cerca de 1,2 mil milhões de pessoas, e de um jogador angolano, cuja população não passa dos 20 milhões. É uma concorrência desleal. Como se vê, não é só o factor de talento. Aliás, nisso, superamos muitos países com representação na NBA. É muito mais", concluiu.
"A política não é um acaso"
Carlos Almeida assegurou que frequenta as fileiras do partido dos "Camaradas" há vários anos e que a inclinação para a carreira política não é obra do acaso.
"Exerço, há 12 anos, a minha militância na JMPLA. Sempre me revi na política do partido. E, nas eleições passadas, felizmente, acabei por ser eleito deputado. Foi por isso que decidi abandonar a carreira de basquetebol para me dedicar à missão de deputado, por forma a não defraudar aqueles que, inclusive, ao mais alto nível do partido, apostaram em mim", justificou.
Na Casa das Leis, garantiu que vai procurar continuar a contribuir, quando necessário, para legislações que visem a melhoria do desporto no país.
"Aprovámos, recentemente, a nova Lei dos Desportos e do Regime Jurídico das Associações Desportivas. Um instrumento moderno e abrangente, que vai contribuir para a melhoria do nosso desporto e para a sua profissionalização a todo o nível", disse.
Não obstante estar apenas no começo de uma carreira política mais activa, Carlos Almeida está ciente da necessidade de passar para os mais novos as experiências acumuladas durante as mais de duas décadas de basquetebol.
"Enquanto basquetebolista, já fazia este exercício de passar a experiência aos mais novos. Tenho pensado em continuar o meu contributo ao nível do dirigismo. Espero que seja o mais breve possível", perspectivou.
Presidir à Federação de Basquetebol? "Na verdade, nunca pensei nisso. Cada coisa tem o seu tempo. Vejo com bons olhos o dirigismo desportivo, mas, por agora, estou concentrado na carreira de deputado", afiançou.

