Donald Trump fez estas declarações, em Washington, quando se sabe que a coligação israelo-americana já está a atacar, desde o início da guerra, infra-estruturas civis e instalações sem quaisquer ligações ao complexo de Defesa e político iraniano.

E agora isso ficou ainda mais claro com o director-geral da Organização Mundial de Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, a condenar publicamente os bombardeamentos às unidades de saúde iranianas, com dezenas de ataques confirmados e verificados a hospitais.

Entre estes alvos civis ligados à saúde, foi destruída uma unidade fabril de medicamentos para o cancro em Teerão e ainda o Instituto Pasteur do Irão, um dos centros de investigação médica mais antigos da região, que, devido às sanções ocidentais, tem permitido ao Irão encontrar soluções internas na área da infecciologia.

Além das unidades de saúde, há dezenas de escolas destruídas, desde logo a escola primária feminina de Minab, no sul do país, nas primeiras horas deste conflito, onde dois misseis Tomahwnk norte-americanos mataram 175 pessoas, das quais 160 crianças.

A idade das pedras

Mas as ameaças de Trump, numa escalada inexplicável contra as infra-estruturas civis, segundo o próprio, com o objectivo de "fazer o país regressar à idade das pedras" passará a seguir para as centrais de produção de electricidade e de dessalinização de água, elemento vital num clima tão árido como o desta zona do Médio Oriente.

As pontes nas vias de acesso deste país gigante, com mais de 1,7 milhões de kms2, maior que Angola em quase 500 mil kms2, também estão a ser destruídas, tendo a última sido a mais alta do país, na via entre Teerão e Karaj.

Este passo, segundo alguns analistas, (ver mais abaixo o que pensa o major-general Agostinho Costa sobre esta possibilidade) pode ser uma antecipação da esperada invasão terrestre, como indicia a deslocação para as bases dos EUA na região de dezenas de milhares de combatentes.

Tudo, quando as brechas na Administração Trump, directa ou indirectamente ligadas a este conflito, começam a ser impossíveis de esconder, começando com a demissão de Joe Kent, chefe do departamento contraterrorismo, há pouco mais de uma semana.

E, já esta semana, Donald Trump demitiu Pam Bondi, a Procuradora-Geral dos EUA, enquanto o secretário da Defesa (Guerra), Pete Hegseth, demitiu o comandante do Exército, general Randy George, num movimento que os media norte-americanos enquadram com desentendimentos sobre condução estratégica militar.

Ao invés de obter uma rendição do Irão, como Trump já disse não perceber porque tarda, quando "os EUA estão a ganhar esta guerra, tendo já destruído tudo o que havia para destruir", a Guarda Revolucionária do Irão (IRGC) veio avisar que a resposta do país será olho por olho, dente por dente.

O irão pensa no futuro, não no passado

O porta-voz da IRGC, Ebrahim Zolfaghari, como, de resto, já tinha sido feito por outros chefes militares, avisou que se os EUA forem pelo caminho deste tipo de ameaças, "a resposta será imediata" e todas as infra-estruturas similares em Israel e nos países aliados de Washington na região serão obliteradas.

Uma das ameaças iranianas pende sobre as unidades que as grandes companhias tecnológicas norte-americanas, especialmente as que têm na região gigantescas armazenagens de dados, como as de Inteligência Artificial, aproveitando a energia barata e abundante no Golfo Pérsico, serão destruídas.

E isso já começou, depois de misseis iranianos terem destruído um desses gigantes nos Emiratos Árabes Unidos, ligado à OpenAI, sendo que também um gigantesco "data center" da Oracle, no Kuwait, foi desmantelado pelo fogo.

A parte, porém, mais visível da retaliação iraniana é o fecho do Estreito de Ormuz, uma "rolha" para mais de 20% do crude e do gás globais, além de fertilizantes e hélio, essencial à indústria dos chips, e que mantém há mais de um mês o barril de petróleo acima dos 100 USD, uma flecha apontada ao coração da economia norte-americana e global.

Ao longo das últimas duas semanas, desde que ficou claro que a coligação EUA/Israel não iria derrotar o Irão em sete a dez dias, como Washington apontou após os primeiros ataques de 28 de Fevereiro, Donald Trump tem insistido que os EUA "já ganharam a guerra", que o Irã "está sem capacidade de resistir", sem marinha, sem exército, com "tudo destruído" e falando no "desespero em Teerão por um cessar-fogo".

A realidade paralela de Trump

A realidade tem mostrado que o Presidente dos EUA vive numa realidade paralela, porque, como notam vários analistas militares, "sendo factual que o Irão está a sofrer pesadamente com esta guerra", desde logo com dezenas de líderes assassinados, incluindo o Supremo Líder, Ali Khamenei, no começo do conflito, a sua capacidade de resposta "está longe do fim".

Basta, para isso, verificar as vagas diárias de misseis que chegam a Israel, ou às países do Golfo Pérsico, com a destruição de infra-estruturas vitais para as economias destes países, embora mantendo uma estratégica protecção a indústria do petróleo e do gás, pelo menos por enquanto...

E é precisamente o receio de uma escalada no sentido da destruição da indústria energética da Arábia Saudita, Catar, Kuwait ou EAU, o que levaria as consequências deste conflito para a economia mundial muito para lá do seu fim efectivo das hostilidades, que está a gerar pânico em todo o mundo.

Devido ao melindre das relações actuais entre europeus e norte-americanos, entre os aliados ocidentais de Washington, é o Presidente francês, Emmanuel Macron, porque está à beira de deixar o cargo, que tem assumido uma postura mais crítica a Donald Trump e a esta sua opção de guerra sem uma justificação clara, no mínimo.

Macron acusa Trump de manter um discurso incoerente: "Quando queremos ser sérios, não andamos a dizer uma coisa e o seu contrário diariamente, contradizendo hoje o que se disse ontem".

"Talvez o melhor fosse não falar todos os dias", apontou o líder francês naquilo que é o mais duro ataque á postura de Donald Trump, para "evitar o excesso de conversa", porque "o mundo precisa de estabilidade e o regresso da paz o mais depressa possível".

Uma das incoerências de Trump reside no persistente anúncio de que os EUA vão sair desta guerra "em breve" para depois insistir que "vão destruir o Irão por completo" nas próximas "duas a três semanas", ao mesmo tempo que admite "uma invasão terrestre" como complemento ao que chama "uma pequena viagem ao Irão" das forças armadas norte-americanas.

Invasão terrestre? "É o mais certo!"

Nesta incerteza, falta perceber o que será verdade nos próximos dias. Nomeadamente se o gigantesco aparato militar que Trump deslocou para o epicentro do conflito, se traduzirá numa invasão terrestre.

O que é o mais certo, segundo o major-general Agostinho Costa, analista militar que tem sido presença permanente com as suas análises no Novo Jornal, como o reafirmou esta sexta-feira, 03, em Luanda, onde está para participar na Conferência Internacional de Paz, para marcar os 24 anos do fim da guerra em Angola.

Em conversa com o Novo Jornal, o major general Agostinho Costa nota que "tudo aponta no sentido" de uma invasão terrestre do Irão pelas forças norte-americanas, sublinhando que a parte comunicacional tem sido "muito importante neste conflito, tanto no nível estratégico, como ao nível das percepções".

Neste conflito a "dimensão cognitiva" tem sido um elemento fundamental, mesmo "muito sensível", especialmente porque o Irão "se atreveu a atacar as bases norte-americanas", e em Teerão existe a percepção de que a "opção nuclear por parte de Israel está em cima da mesa", o que leva a que nesse âmbito das percepções decorra uma guerra paralela.

"A liderança israelita é distópica, radical, e há uma gestão da escalada por parte do Irão, evitando levar Israel a esse passo nuclear" se estiver à beira do abismo cavado pelos misseis iranianos, o que levou os estrategas iranianos a "direccionar a sua opção para o elo mais fraco que, neste caso, são os Estados Unidos".

Agostinho Costa entende serem os EUA o elo mais fraco porque, sendo uma hiperpotência, precisa de impor o seu poder, mas tem aqui "uma distância enorme, marcada, como Donald Trump gosta de dizer, por um belo oceano e um belo continente" de intermeio, o que lhe retira chão para assentar o seu poder.

Quanto à invasão terreste, Agostinho Costa defende que é um cenário plausível, mas nota que os EUA sabem que o Irão tem perto de um milhão de militares prontos para receberem as forças norte-americanas que entrarem no país via terrestre e "muito motivados".

"A acção norte-americana é muito sustentada na ideia de entrar, explodir e sair - in, boom, out -, muito em actos forçados pela rapidez, quase hollywoodescos, por vezes com acordos prévios. Mas aqui será um caso diferente, com potencial traumático grande...", apontou.

E o Irão, ao enfatizar, como o tem feito o seu ministro dos Negócios Estrangeiros (Abbas Araghchi), apontando para pelo menos seis meses de guerra, nota Agostinho Costa, "deixa os EUA numa situação muito complicada", porque em Washington também se percebe que o Irão conta com o "apoio da Rússia e da China", o que "aumenta muito o potencial de ser um trauma para os EUA porque não haverá, provavelmente, uma saída negociada".

E lembra que Trump já disse repetidamente que atingiu os seus objectivos, avançou que abrir à força o Estreito de Ormuz "não é um objectivo dos EUA", dizendo que "quem quiser que o vá abrir se precisar dele aberto", palavras que podem ser parte da batalha comunicacional que tanto está a marcar esta guerra.

Nesta conversa, com o Novo Jornal, Agostinho Costa deixa entre a lista dos objectivos desta guerra, por parte dos EUA, garantir o controlo do grosso das fontes de energia mundiais, onde o Irão, com as terceiras maiores reservas mundiais de petróleo, e um grande exportador de gás, ficaria bem ao lado da Venezuela, o que já foi conseguido por Washington no início deste ano.

Mas, para isso, terá de ocorrer uma invasão terrestre e é essa uma das razões que o major-general Agostinho Costa sublinha para defender que esse cenário está no quadro de uma realidade possível.

*com AL