Pela primeira vez, o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, numa entrevista à Al Jazeera, um canal internacional com sede no Catar, assumiu que não há conversas directas entre iranianos e norte-americanos, garantiu que os objectivos dos EUA "vão ser conseguidos em semanas, não em meses".
Com esta admissão de que Irão e Estados Unidos estão a falar através de intermediários e não directamente, o chefe da diplomacia de Washington contradiz o seu Presidente, que até aqui tem insistido que mantém negociações directas com "importantes figuras do regime iraniano".
Esta correcção às palavras de Trump não são importantes apenas porque contrariam a sua narrativa sem fundamento, porque nunca disse o nome das pessoas com quem alegadamente fala, são-no porque reconduzem a questão para o que é essencial: não houve nenhuma mudança de regime em Teerão e os EUA estão prontos para deixar cair esse objectivo.
E não é por acaso que Rubio, que ocupa ainda o cargo de Conselheiro para a Segurança Nacional do Presidente dos EUA, escolheu a Al Jazeera para enviar um vasto conjunto de recados, tanto ao Irão, como a Israel e aos países do Golfo Pérsico, aliados e onde Washington tem dezenas de bases militares.
É porque o Catar, que criou e mantém o principal canal de notícias do Médio Oriente, foi o primeiro dos países nas margens do Golfo que decidiu sair da condição de inimigo do Irão, recuando claramente para a posição de vizinho responsável, reiniciando o diálogo com Teerão, o que lhe garantiu sair da lista de alvos dos misseis iranianos.
Destruição, destruição, destruição...
Além disso, as ameaças persistentes de Donald Trump de destruição total e absoluta das infra-estruturas estratégicas do Irão, energia eléctrica, água, indústria petrolífera e do gás, se este país não devolver o Estreito de Ormuz (que estava aberto antes da guerra) ao tráfego marítimo internacional, não apenas está a revelar-se ineficaz como instrumento de pressão, como ajuda a criar desconfiança na economia global de que tal possa ocorrer em breve, como a persistente subida do preço do petróleo demonstra.
E isso é fundamental para que 20% do crude e do gás (LNG) mundiais, fechados no Golfo Pérsico há 32 dias, desde que a guerra começou a 28 de fevereiro, sejam libertados e assim libertar a economia mundial de um sufoco que começa a ganhar dimensão de "choque petrolífero" histórico,
Além disso, os fertilizantes, Made in Catar, cuja falha começa a afectar vários países, e o hélio, essencial na indústria dos chips, onde o efeito se vê a crescer dia após dia, são igualmente parcelas de uma equação que não estava claramente nas contas norte-americanas quando lançaram, com Israel, esta guerra contra o Irão no último dia de Fevereiro.
Com as suas ondas de choque a chegar aos EUA, esta guerra ameaça ser um golpe fatal nas expectativas eleitorais de Trump e da sua equipa republicana nas eleições intercalares de Novembro, onde corre o risco de perder as maiorias nas duas câmaras do Congresso e, assim, abrir a porta a uma avalanche de problemas, desde logo um impeachment, como o próprio já admitiu, por não ter seguido as imposições constitucionais de informar o Capitólio antes de começar uma guerra no estrangeiro.
Ao que se soma o risco mais que certo de o escândalo de pedofilia internacional do Caso Ficheiros Epstein, onde o seu nome aparece citado milhares de vezes, pode reemergir ainda com mais força nos dois últimos anos do mandato de Donald Trump como inquilino da Casa Branca.
Cenário de saída, contexto de escalada
Este é o contexto em que Trump, num dos seus últimos "posts" na rede social Truth Social, ter dito clara e inequivocamente que ganhou a guerra e vai sair do Irão, embora deixando um rasto de ameaças que pode levar Teerão a não o deixar sair tão facilmente, que foi a ameaça de destruir tudo o que houver para destruir no Irão se tiver de sair de cena sem um acordo firmado com Teerão.
Com Marco Rubio a procurar na Al Jazeera almofadar o discurso mais ruidoso de Trump, naquilo que os analistas entendem como a procura de uma brecha para a diplomacia, quando ambas as partes já admitiram que existem contactos via Paquistão, a verdade é que o Irão desconfia das reais intenções dos norte-americanos.
E a razão é simples: os EUA continuam a fazer chegar diariamente centenas de soldados às suas bases na região, onde já estão perto de 10 mil militares de diferentes unidades de infantaria e de forças especiais, oriundas do Índo-Pacífico, como a Força Expedicionária de Marines, ou os paraquedistas da famosa 82ª Brigada Aerotransportada...
Já nesta terça-feira, 31, o secretário da Defesa (Guerra), Pete Hegseth, numa conferência de imprensa, admitiu que Donald Trump está disponível para um acordo com o Irão e que a diplomacia é a sua primeira opção.
No mesmo momento, aquele a quem Trump já procurou responsabilizar pelo início da guerra com o Irão, dizendo publicamente que foi ele o primeiro a dizer "vamos a isso", esquecendo que foi a diplomacia que os EUA e Israel abalroaram em Junho de 2025, e já este ano, no começo deste conflito, disse que se Teerão não aceitar uma saída acordada, "sentirá a força e a capacidade de destruição" que o Presidente dos EYUA tem nas mãos.
E, depois de voltar a insistir que os soldados americanos estão protegidos por "uma força divina" por estarem numa missão - como já foi noticiado ser a forma de convencimento para os militares verem esta guerra -, que visa levar o Presidente Trump a criar as condições para o regresso de Jesus Cristo à terra, Hegseth sublinhou que "os próximos dias serão decisivos" para o destino deste conflito.
Em claro tom de ameaça, disse que o poder de fogo dos EUA na região "está a amentar de hora a hora" e que se o Irão não se vergar ás condições norte-americanas, verá cair sobre si a "fúria épica" de Donald Trump, o Presidente com quem o Irão nunca se deveria meter, porque "tem mais coragem que todos os outros Presidentes dos EUA juntos".
Porém, Hegseth parece esquecer ou ignorar que os media israelitas já falam abertamente de falhas catastróficas de misseis interceptores para as defesas anti-aéreas em Israel, e que os países do Golfo queixam-se do mesmo, além de que os EUA estão a desviar baterias de Patriot da Coreia do Sul para a região de forma a proteger as suas bases e pretendem fazer o mesmo de países da Europa.
Todos os actores da Administração norte-americana deixaram de falar da mudança de regime no Irão, recuperaram a questão da arma nuclear que Teerão "nunca poderá possuir", mas, tudo junto, para chegar ao Estreito de Ormuz, que Washington quer abrir à força, para deixar passar 20% do crude e do LNG mundiais, e Teerão mantém fechado com a mera ameaça de ataques aos navios que se atreverem a atravessá-lo.
Face a avalanche de declarações contraditórias, incoerência de discursos e afirmações, especialmente de Donald Trump, que tão depressa fala em negociar como em destruir o Irão, John Mearsheimer, um dos mais respeitados analistas de política internacional, professor da Universidade de Chicago, com várias obras publicadas sobre crises internacionais, disse recentemente que "o grande problema dos EUA é saber que os líderes mundiais estão a olhar para estas prestações inacreditáveis do Presidente da maior potência económica e militar do mundo".
"Fica-se sem saber o que dizer, sem saber como explicar tanta incoerência... A evidência de que os EUA não têm um plano B para sair do problema que criaram, que estão sem soluções... É um desastre de relações públicas...", acrescentou ainda John Mearsheimer no podcast Judging Freedom.
O Irão vê e ouve...
Para o Irão, como os seus líderes têm feito saber, entre estes Mohammad Bagher Ghalibaf, presidente do Parlamento e, curiosamente, uma das pessoas que os media norte-americanos avançaram como sendo um dos interlocutores de Trump, que o próprio negou desde a primeira hora, os EUA estão a preparar uma invasão terrestre e a conversa em torno de negociações é mais uma manobra de distracção.
Tanto Ghalibaf como o ministro dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, repetem quase diariamente que Teerão deixou de confiar em Washington, depois de em Junho de 2024, o país ter sido atacado quando decorriam negociações com resultados julgados na ocasião positivos, e a 28 de Fevereiro deste ano ter voltado a sentir o estrondo das bombas israelo-americanas quando decorria novo processo negocial.











