Mesmo que Donald Trump tenha vindo a prolongar as sucessivas "dead lines" para "castigar o Irão com uma força destruidora nunca vista" se este país não se ajoelhar perante a coligação israelo-americana, deste vez em Teerão o receio é sério.
Em simultâneo, o poder político, pela voz do ministro dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, e do porta-voz do Quartel-General Central Khatam Al-Anbiya das Forças Armadas do Irão, coronel Ebrahim Zolfaghari, garantia aos EUA que o Irão não aceita ultimatos.
Mas, em Nova Iorque, a missão iraniana nas Nações Unidas chamava a atenção para a sucessão de "crimes de guerra" cometidos no Irão desde 28 de Fevereiro, apelando à comunidade internacional que trave a "impetuosidade destruidora" de Donald Trump.
Mesmo que este pedido iraniano sirva mais para sublinhar a desproporção das acções norte-americanas e israelitas, que, além de terem iniciado a guerra, ameaçam, sem nada que o justifique, destruir o que resta do país, Teerão mostra temer que aconteça algo de inédito.
E isso pode muito bem ser, depois de milhares de misseis lançados sobre o Irão, incluindo objectvos militares e civis, desde logo a escola primária feminina de Minab, onde foram mortas 170 crianças com dois misseis Tomahawk nos primeiras horas, o recurso a uma arma nuclear.
É que o debate sobre essa possibilidade, seja pela via dos EUA, com a falta de sucesso "convencional" nesta empreitada bélica sobre o Irão, seja por Israel, devido à destruição que ocorre diariamente nas suas grandes cidades, onde as ssuas defesas anti-aéreas se mostram longe de poder travar, é intenso e sério.
Isto, quando o Irão não se rende, não abdica dos seus programas de misseis balísticos hipersónicos, não aceita abandonar o seu programa nuclear civil e, agora, não desiste do controlo férreo sobre o Estreito de Ormuz, a partir de onde influencia fortemente a economia mundial.
Para já, Donald Trump, nos discursos ameaçadores, nas declarações hiperbólicas e publicações ruidosas na sua rede social Truth Social, nunca falou directamente no uso de uma bomba nuclear para vergar o Irão, mas perante a destruição convencional nestes 36 dias de guerra, quando se refere a ali "fazer cair o inferno", pode estar a pensar nessa solução.
Apesar de o Axios, media norte-americano, estar a avançar nesta segunda-feira, 06, que mediadores turco, egípcio, e paquistanês estarem a tentar persuadir Teerão para aceitar um cessar-fogo de 45 dias, proposto pelos EUA, que o Irão ainda não rebateu totalmente, mas já disse suspeitar que tal prazo apenas servirá para os EUA e Israel se refazerem, reabastecerem os seus arsenais regionais, e voltarem a atacar o Irão.
Invasão camuflada?
Mas pode também ser, como o major-general Agostinho Costa avançou ao Novo Jornal, a decisão de avançar para uma invasão terrestre do Irão, dando substância à gigantesca concentração de militares, com destaque para inúmeras unidades de forças especiais.
O que, de facto, pode já ter acontecido a primeira tentativa de abrir uma "cabeça de ponte" em território iraniano, aproveitando, estes Sábado, 06, e Domingo, 07, como defende Larry Johnson, antigo analista da CIA, e Scott Ritter, antigo membro da intelligentsia norte-americana e ex-inspector de armamento da ONU no Iraque, a cobertura da operação de busca e salvamento de um piloto de um caça dos EUA abatido sobre o Irão.
Com efeito, apontam Jonhson e Ritter, o envio de pelo menos três aviões C-130, especialmente concebidos para este tipo de operações, elevada capacidade de carga, homens e equipamento, aterrar e descolar em curtas áreas e terreno difícil, vários helicópteros Apache e ainda aviões A-10 de ataque ao solo, mostra que se tratou de mais que uma operação de resgate de um soldado em chão inimigo.
Ao que tudo indica, porque até ao momento não existe informação sólida sobre este episódio, destinado a ser transformado em filme épico pelos "mágicos" de Hollywood, onde nem sequer é certo que o piloto do F-15 Eagle abatido tenha sido resgatado - o Irão diz que não -, a incursão foi anulada pela Guarda Revolucionária (IRGC).
E isso depreende-se, mesmo que nada possa ser dado como factual, pela destruição de dois C-130 no chão da província iraniana de Isfahan, do A-10 abatido, e dos dois helicópteros Apache atingidos em voo e obrigados a retirar do cenário de acção.
Mas há uma vertente mantida em stand by como possibilidade, que é o corpo principal das unidades levadas para chão iraniano a coberto da operação de resgate do piloto, a Força Delta e a 82ª Brigada Aerotransportada (Paraquedistas), ainda estarem no terreno, a preparar um avanço mais robusto para os próximos dias.
Segundo vários analistas, incluindo Larry Wilkerson, ex-chefe de gabinete do secretário de Estado dos EUA Colin Powell, na Administração George W. Bush, a Força Delta e a 82ª Brigada Aerotransportada (Paraquedistas), Donald Trump pode ter em curso, de facto, um plano de invasão terrestre, não geral do Irão, mas com objectivos limitados e definidos.
Uma das possibilidades é que o alvo desta incursão seja, como aponta o ex-analista da CIA, Larry Johnson, os cerca de 400 kgs de urânio enriquecido que o Irão tem, e é confirmado pela Agência Internacional de Energia Atómica, e que podem, no futuro breve, gerar até 10 ogivas nucleares, como avisa Ted Postol, professor de Ciência, Tecnologia e Segurança Internacional no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).
Sendo, como não se cansa de sublinhar Agostinho Costa, esta uma guerra muito assente nas percepções e de uso da comunicação como arma, em Washington, o Presidente Trump repete dia após dia que os EUA já ganharam a guerra, que o regime em Teerão mudou, que está tudo destruído no Irão...
Abrir o que nunca esteve fechado antes desta guerra
Mas quer, apesar do cenário traçado, que o Governo iraniano e a IRGC abram o Estreito de Ormuz ao tráfego marítimo internacional sem obstáculos - o que, note-se a ironia, era o caso antes da guerra começar -, sendo esse já o seu único objectivo depois de todos os outros terem ficado pelo caminho.
O Irão tem agora, apontou Trump na Truth Social, até ao final do dia de amanhã, terça-feira, 07, para abrir o canal marítimo que separa o Golfo Pérsico e o Oceano Índico, e por onde passam 20% do petróleoe gás (LNG) mundiais, além de quase 50% do hélio, um gás vital para a vital indústria 2.0 dos chips e componentes igualmente estratégicos para os fertilizantes que nutrem as terras agrícolas, literalmente, de todo o mundo.
Donald Trump vive internamente um período de grande perturbação, depois da demissão de Joe Kent, chefe do departamento de Contraterrorismo Nacional, de ter demitido a Procuradora-Geral, Pam Bondi, e de o seu secretário da Guerra, Pete Hegseth, ter demitido, caso único em tempo de guerra, o comandante do Exército (CEME), general Randy George, e com ele mais 11 generais, alegadamente por não concordarem com a planificação e objectivos desta guerra.
Ao que se juntam rumores de problemas de saúde súbitos, depois de ter quase desmaiado em público na semana passada, e agora terem aparecido como possibilidade a sua entrada de urgência no Hospital Militar Walter Reed, devido ao corte de estradas no Sábado e ao aparato policial em redor desta unidade de saúde de elite para as "elites" norte-americanas, ainda assim, não se afasta do púlpito da Truth Social.
E para enviar ameaça atrás de ameaça em direcção a Teerão, desta feita assumindo que vai continuar os crimes de guerra, que é atacar as infra-estruturas civis, desde a produção de energia eléctrica, combustíveis, dessalinização de água, pontes, hospitais e escolas... de o Irão não reabrir Ormuz
O actual estado de espírito de Donald Trump é de tal modo que, num dos seus últimos "posts" na Truth Social, recorreu a palavrões inéditos na comunicação institucional da Casa Branca.
Assim: "Terça-feira (07) será o Dia Nacional da Centrais Eléctricas, todas destruídas de uma vez, no Irão. Nunca houve nada como isto! Abram o car... do Estreito, seus cabr..., ou vão viver no Inferno! ASSISTAM!!! Rezem a Allah".
A linguagem inapropriada, além de uma ameaça de cometimento de crimes de guerra, segundo alguns analistas, incluindo especialistas comportamentais, revela desconforto na Casa Branca e uma tensão raramente vista.
O que é natural, porque, depois de, na prática, já ter desistido dos seus objectivos iniciais, que era mudar o regime em Teerão, levar ao fim do seu programa de misseis balísticos e hipersónico, abdicar do programa nuclear civil e interromper as relações com os seus aliados regionais, como o Hezbollah, no Líbano, ou os Houthis, do Iémen, os EUA, a maior superpotência militar e económica do mundo, está agora focada na exigência de abrir o Estreito de Ormuz, que estava totalmente aberto antes da guerra começar...
Apesar desta sucessão de ameaças, Trump repete igualmente e com a mesma insistência que um acordo com o Irão está para breve e que isso pode mesmo ser realidade, como apontou na recente entrevista à Fox News, num prazo de 48 horas, coincidindo, portanto, com esta "dead line" e antes que "o inferno se abata" sobre o Irão.
A isto, Seyyed Mehdi Tabatabaei, do gabinete de comunicação da Presidência iraniana, citado pela Al Jazeera, respondeu que as ameaças de Donald Trump não fazem tremer a liderança do país, e avisou, mais uma vez, que o Estreito de Ormuz, está aberto para quem não for um beligerante nesta guerra e aceitar pagar uma "portagem", como sucede noutras paragens, incluindo em locais controlados pelos EUA.
E acrescentou que Trump é useiro no recurso a "ameaças recortadas por obscenidades e nonsense", revelando "desespero e muita raiva".
O irão pensa no futuro, não no passado
O porta-voz da IRGC, Ebrahim Zolfaghari, como, de resto, já tinha sido feito por outros chefes militares, avisou que se os EUA forem pelo caminho deste tipo de ameaças, "a resposta será imediata" e todas as infra-estruturas similares em Israel e nos países aliados de Washington na região serão obliteradas.
Uma das ameaças iranianas pende sobre as unidades que as grandes companhias tecnológicas norte-americanas, especialmente as que têm na região gigantescas armazenagens de dados, como as de Inteligência Artificial, aproveitando a energia barata e abundante no Golfo Pérsico, serão destruídas.
E isso já começou, depois de misseis iranianos terem destruído um desses gigantes nos Emiratos Árabes Unidos, ligado à OpenAI, sendo que também um gigantesco "data center" da Oracle, no Kuwait, foi desmantelado pelo fogo.
A parte, porém, mais visível da retaliação iraniana é o fecho do Estreito de Ormuz, uma "rolha" para mais de 20% do crude e do gás globais, além de fertilizantes e hélio, essencial à indústria dos chips, e que mantém há mais de um mês o barril de petróleo acima dos 100 USD, uma flecha apontada ao coração da economia norte-americana e global.
Ao longo das últimas duas semanas, desde que ficou claro que a coligação EUA/Israel não iria derrotar o Irão em sete a dez dias, como Washington apontou após os primeiros ataques de 28 de Fevereiro, Donald Trump tem insistido que os EUA "já ganharam a guerra", que o Irã "está sem capacidade de resistir", sem marinha, sem exército, com "tudo destruído" e falando no "desespero em Teerão por um cessar-fogo".
Invasão terrestre? "É o mais certo!"
Nesta incerteza, falta perceber o que será verdade nos próximos dias. Nomeadamente se o gigantesco aparato militar que Trump deslocou para o epicentro do conflito, se traduzirá numa invasão terrestre.
O que é o mais certo, segundo o major-general Agostinho Costa, analista militar que tem sido presença permanente com as suas análises no Novo Jornal, como o reafirmou esta sexta-feira, 03, em Luanda, onde está para participar na Conferência Internacional de Paz, para marcar os 24 anos do fim da guerra em Angola.
Em conversa com o Novo Jornal, o major general Agostinho Costa nota que "tudo aponta no sentido" de uma invasão terrestre do Irão pelas forças norte-americanas, sublinhando que a parte comunicacional tem sido "muito importante neste conflito, tanto no nível estratégico, como ao nível das percepções".
Neste conflito a "dimensão cognitiva" tem sido um elemento fundamental, mesmo "muito sensível", especialmente porque o Irão "se atreveu a atacar as bases norte-americanas", e em Teerão existe a percepção de que a "opção nuclear por parte de Israel está em cima da mesa", o que leva a que nesse âmbito das percepções decorra uma guerra paralela.
"A liderança israelita é distópica, radical, e há uma gestão da escalada por parte do Irão, evitando levar Israel a esse passo nuclear" se estiver à beira do abismo cavado pelos misseis iranianos, o que levou os estrategas iranianos a "direccionar a sua opção para o elo mais fraco que, neste caso, são os Estados Unidos".
Agostinho Costa entende serem os EUA o elo mais fraco porque, sendo uma hiperpotência, precisa de impor o seu poder, mas tem aqui "uma distância enorme, marcada, como Donald Trump gosta de dizer, por um belo oceano e um belo continente" de intermeio, o que lhe retira chão para assentar o seu poder.
Quanto à invasão terreste, Agostinho Costa defende que é um cenário plausível, mas nota que os EUA sabem que o Irão tem perto de um milhão de militares prontos para receberem as forças norte-americanas que entrarem no país via terrestre e "muito motivados".
"A acção norte-americana é muito sustentada na ideia de entrar, explodir e sair - in, boom, out -, muito em actos forçados pela rapidez, quase hollywoodescos, por vezes com acordos prévios. Mas aqui será um caso diferente, com potencial traumático grande...", apontou.
E o Irão, ao enfatizar, como o tem feito o seu ministro dos Negócios Estrangeiros (Abbas Araghchi), apontando para pelo menos seis meses de guerra, nota Agostinho Costa, "deixa os EUA numa situação muito complicada", porque em Washington também se percebe que o Irão conta com o "apoio da Rússia e da China", o que "aumenta muito o potencial de ser um trauma para os EUA porque não haverá, provavelmente, uma saída negociada".
E lembra que Trump já disse repetidamente que atingiu os seus objectivos, avançou que abrir à força o Estreito de Ormuz "não é um objectivo dos EUA", dizendo que "quem quiser que o vá abrir se precisar dele aberto", palavras que podem ser parte da batalha comunicacional que tanto está a marcar esta guerra.
Nesta conversa, com o Novo Jornal, Agostinho Costa deixa entre a lista dos objectivos desta guerra, por parte dos EUA, garantir o controlo do grosso das fontes de energia mundiais, onde o Irão, com as terceiras maiores reservas mundiais de petróleo, e um grande exportador de gás, ficaria bem ao lado da Venezuela, o que já foi conseguido por Washington no início deste ano.
Mas, para isso, terá de ocorrer uma invasão terrestre e é essa uma das razões que o major-general Agostinho Costa sublinha para defender que esse cenário está no quadro de uma realidade possível.










