Como tem sido exposto de forma clara, mesmo nas plataformas com inclinação "editorial" para Moscovo, A Ucrânia está a conseguir "empatar" no confronto directo com a Rússia através de sucessivos e metódicos ataques às suas linhas de abastecimento.
Isso mesmo pode ser percebido ao analisar as últimas emissões do Military Summary Channel, um canal que usa mapas actualizados em permanência sobre a evolução do conflito, expondo com frieza a realidade adversa actual da guerra para o Kremlin.
Desde logo quanto à logística que alimenta a frente de batalha ao longo de mais de 1200 kms, mas também no acesso à Crimeia, onde os milhares de drones ucranianos usados diariamente estão a transformar as estradas e linhas férreas no maior pesadelo russo actual.
Tanto na Crimeia, como nas regiões de Kherson e Zaporizhia controladas pelos russos após a sua anexação, em 2014, a primeira e 2022, as segundas, parcialmente, por ora, começa a faltar combustíveis e mesmo alimentos disponíveis nalguns supermercados.
É que todas as vias de acesso terrestre a estas áreas a partir da Rússia "continental" estão sob ataques permanentes de drones, que são cada vez mais sofisticados e é já evidente, mesmo nos media russos, que isso começa a emergir como forma de criticar o Kremlin.
O sucesso dos drones ucranianos, que são em grande medida fornecidos pelos países ocidentais aliados de Kiev, está mesmo a levar Moscovo a ameaçar alguns desses "fornecedores" com retaliações severas, como é o caso do Canadá, do Reino Unido, Alemanha ou França.
Em Moscovo, Maria Zakharova, porta voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, após ucranianos e canadenses terem assinado um acordo para o fabrico de drones "ucranianos", segundo a TASS, ameaçou com medidas adequadas e proporcionais contra o Canadá.
"Reservamo-nos o direito de dar uma resposta adequada e proporcional ao Canadá e nela iremos ter em conta a nova circunstância no nosso planeamento político e militar", disse a responsável pela comunicação no ministério de Sergei Lavrov.
Há mesmo figuras próximas do Presidente Vladimir Putin, como Sergey Karaganov, um dos mais influentes analistas políticos e director do Conselho para a Política de Defesa Externa, que defendem ataques directos aos locais de produção das armas com que os países da NATO alimentam o esforço de guerra ucraniano.
Tal como Karaganov, Vladimir Solovyov, que é o mais influente dos apresentadores de televisão na Rússia, defendem que a Rússia não deve abdicar de usar todo o seu arsenal disponível, incluindo o nuclear, para acabar com a ameaça das armas que são fornecidas pelo ocidente a Kiev.
Isto, numa altura em que, mesmo que em Washington seja evidente uma retracção no apoio ilimitado a Kiev, até à chegada de Donald Trump à Casa Branca, os países europeus mais relevantes na NATO, França, Reino Unido e Alemanha, reforçam a frente anti-russa em apoio financeiro e armas, especialmente drones, à Ucrânia.
É assim de tal modo que o Presidente Volodymyr Zelensky, empolgado com os sucessos recentes, após mais um encontro com o Presidente francês, Emmanuel Macron, com o chanceler alemão, Friedrich Merz, e com o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, veio de novo dizer que é inevitável a entrada da Ucrãnia na NATO.
Precisamente uma das razões cimeiras que levaram o Kremlin a lançar a invasão da Ucrânia em 2022, que era o facto de os EUA e os seus aliados europeus estarem a desenrolar o processo burocrático de adesão de Kiev á Aliança Atlântica, uma organização militar ocidental criada por Washington em 1949, após a II Guerra Mundial, com o propósito de conter a expansão da então União Soviética.
E essa possibilidade, pelo menos em teoria, está de novo em cima da mesa, porquanto, embora sem uma confirmação oficial da NATO, Zelensky tem repetido que a pr+opria organização militar "não faz mais sentido sem a Ucrânia".
"Só com a Ucrânia como membro é que a NATO tem capacidade para se defender de uma agressão russa", disse o Presidente ucraniano pouco depois de, no Domingo, 07, ter reunido com Starmer, Macron e Merz, em Londres.
E esse processo parece estar em cima da mesa de novo porque os três líderes dos maiores países europeus da NATO também fizeram declarações no sentido de que a Ucrânia é hoje um país estruturalmente pertencente à Aliança Atlântica, dando asas à retoma desse ensejo por Volodymyr Zelensky.
Além desse pesado anúncio, que voltou a fazer sonar as campainhas de alarme em Moscovo, Zelensky tem actualmente a liderança mediática na condução da guerra, porque, após longos meses em que os media ocidentais foram esvaziando as suas páginas e ecrãs deste conflito, estão hoje de novo nele focados.
E muito desse regresso ao apoio inequívoco a Kiev resulta do sucesso da campanha de drones ucranianos em território russo, como foi o caso emblemático do ataque bem sucedido aos depósitos de combustível em São Petersburgo aquando do Fórum Económico Internacional (SPIEF) que se realizou nesta cidade de 03 a 06 de Junho.
É que, no dia em que Vladimir Putin foi à sua cidade natal para participar no SPIEF, São Petersburgo, na sexta-feira, 05 de Junho, ainda estava ensombrada pelas colunas de fumo dos ataques ucranianos do dia anterior, o mesmo fumo que também encheu as páginas e os ecrãs dos media ocidentais com legendas a realçar o sucesso de Zelensky.
E é tanto assim que, numa reportagem divulgada esta quinta-feira, o britânico The Guardian viaja pela estrada R-280, que liga Rostov-on-Don, na Rússia continental àm Crimeia, via Mariupol ao longo da costa do Mar de Azov, uma das linhas principais da logística russa para as suas novas regiões, a denominada Novorossiya.
E o foco desta reportagem num dos jornais mais influentes da Europa ocidental, e um dos líderes no apoio mediático a Kiev, é "A auto-estrada para a morte: A campanha de drones que ameaça a logística russa.
Isto, num momento em que não são apenas os media ocidentais que descrevem o pesadelo logístico em que os drones ucranianos estão a mergulhar a Rússia, também nas plataformas mediáticas inclinadas para Moscovo, essa realidade já não é nem pode ser escondida...
Apesar disso, ao longo da frente de batalha, longa, de mais de 1200 kms, os avanços russos vão-se somando, especialmente na região de Donetsk, onde as forças de Moscovo se aproximam claramente dos últimos redutos ucranianos no Donbass, composto por Donetsk e Lugansk.
Segundo notícias confirmadas por media russos e ucranianos, as forças russas já ocupam parte de Kostiantynivka e estão nas imediações de Sloviansk, que se forem ocupadas, ficará a faltar à Rússia tomar Kramatorsk para dominar todo o Donbass, que era, inicialmente, o objectivo territorial mais importante para o Kremlin.










