A explicação é mais simples que as equações que normalmente dão resto zero, porque Donald Trump tirou o dedo do "gatilho" conseguindo menos do que tinha antes do começo desta guerra a 28 de Fevereiro.
Pouco passava da meia noite quando se soube que o Presidente norte-americano travou in extremis a chuva de misseis que "iria" destruir o Irão, e demorou pouco para se perceber que o travão foi puxado porque Teerão aceitou a abertura condicionada do Estreito de Ormuz.
É que a passagem afunilada entre o Golfo Pérsico e o Oceano Índico, por onde passam 320% do crude e do gás mundiais vai passar, pelo menos nas duas semanas de negociações previstas, a estar mais disponível mas não menos vigiado e o pagamento de uma "portagem" ao Irão e a Omã, os dois países ligados pelo estreito.
Coisa que antes da guerra, e por isso Trump obtém menos do que tinha antes de 28 de Fevereiro, o Estreito de Ormuz não estava condicionado por qualquer exigência iraniana, o que é uma das razões para Teerão gritar vitória neste braço-de-ferro com Washington.
A outra razão para os iranianos estarem a festejar nas ruas devido "à vitória" conseguida nesta disputa é que Trump aceitou o seu plano de 10 pontos para começo de negociações e este contém um conjunto alargado das condições conhecidas há muito para que o Irão também tire o dedo do gatilho.
Os dez pontos do plano iraniano, divulgados pela agência de notícias iraniana TASNIM
1 - OS EUA garantem que não voltam a atacar o Irão
2 - O Irão mantém o controlo do Estreito de Ormuz
3 - O Irão mantém a capacidade de enriquecer Urânio
4 - Todas as sanções primárias são levantadas
5 - Todas as sanções secundárias são levantadas
6 - Fim de todas as resoluções do Conselho de Segurança da ONU sobre o Irão
7 - Fim das resoluções da AIEA
8 - Pagamento de compensações pelos danos infligidos ao Irão
9 - Saída de todas as forças de combate dos EUA da região
10 - Cessação da guerra em todas as frentes, incluindo o Líbano
O local acordado para que EUA e Irão se sentem para conversar é Islamabad, a capital do Paquistão, o país que há semanas pugna por um cessar-fogo de modo a evitar que a região entre em ebulição descontrolada porque, no caso de uma derrapagem catastrófica para o uso de armas nucleares por parte de Israel, este país já tinha prometido que forneceria a Teerão a capacidade de resposta nuclear que possui enquanto único país muçulmano com poder atómico.
Se o calendário conhecido for cumprido, as conversações iraniano-americanas vão começar já na sexta-feira, na capital paquistanesa. Há, porém, um nó que ninguém sabe como vai ser desatado, que é o facto de, para já, Israel estar à margem destas negociações.
O 10º ponto do plano é um problema regional
E o ponto centrífugo desta ausência de Israel é que o 10º ponto do plano de paz do Irão versa precisamente sobre o fim dos ataques de Israel no sul do Líbano, onde decorrem violentos confrontos entre o Hezbollah, um dos mais proeminentes aliados do Irão na região, e as forças israelitas.
Como notava esta manhã a Al Jazeera, a tv do Catar, com uma extensiva cobertura deste conflito, em Israel as redes sociais fervem de descontentamento com os EUA por terem assumido este acordo como negociável, enquanto o líder da oposição ao Governo de Benjamin Netanyhau, Yar Lapid, sublinhava no X que inacreditavelmente Israel nem está entre os negociadores deste acordo.
Porque tanto Lapid como várias figuras israelitas próximas do poder de Netanyhau não se esquecem que foi Israel que deu o primeiro "tiro" nesta guerra, a 28 de Fevereiro, quando matou o Líder Supremo do Irão, Ali Khamenei, e mais 40 chefes políticos e militares de topo.
Como, de resto, já tinha sido assim na guerra dos 12 dias em Junho de 2025, sendo público e notório que é Telavive que tem arrastado os EUA para o confronto com o Irão, no qual os interesses imediatos de Washington não são percebidos facilmente, porque os efeitos deste na economia norte-americana estão a ser pouco menos que catastróficos.
Entretanto, o anúncio de última hora de Donald Trump que permitiu ao mundo respirar de alívio, até porque (ver links em baixo), havia analistas convencidos que a opção nuclear estava em cima da mesa em Washington, teve um efeito relâmpago nos mercados energéticos, com o crude e o LNG a caírem a pique da montanha que subiram nestas cinco semanas.
No que diz respeito ao petróleo, o barril de Brent, em Londres, e o WTI, em Nova Iorque, caíram 13,5% e 15% respectivamente, para 94,5 USD e 95,3 USD, perto das 09:15 desta sexta-feira, 08, hora de Luanda.
O que é um sinal de que a possibilidade de paz por um período mais longo que as duas semanas de negociações está a ser considerada e validada nos mercados, porque na pior das hipóteses, o Estreito de Ormuz estará aberto para todos o operadores contra o pagamento de uma "portagem" de 2 milhões USD por navio que, como consta do 10º ponto do plano iraniano, serão investidos na reconstrução do país.
Segundo alguns analistas, a queda no valor do barril só não é ainda mais acentuada porque o grau de destruição na infra-estrutura energética dos países do Golfo Pérsico vai levar longas semanas para reparar e, nalguns casos, mesmo meses ou anos.
Certo e seguro, para já, é que, depois do inaudito "post" de Trump na sua rede social a ameaçar a destruição de uma civilização, a iraniana, em algumas horas, que manteve o mundo em alvoroço nas últimas 24 horas, a percepção que fica é que EUA e Israel perderam esta guerra.
E isso não se percebe apenas pela reacção em Israel, ou pela forma como a oposição democrata no Congresso norte-americano explodiu de indignação pedindo que Donald Trump fosse removido do cargo ao abrigo das disposições constitucionais, como a secção 4ª da 25ª Emenda, referentes às capacidades mentais do Presidente dos EUA.
O mais verrinoso sublinhado a essa derrota vem de alguns países europeus, pela forma como os EUA se têm comportado com eles, ignorando-os por completo, nos últimos meses, e da Rússia, cuja porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Maria Zakharova, que veio publicamente dizer que a coligação israelo-americana "lançou um ataque não provocado contra o Irão que conduziu a uma derrota esmagadora dos agressores"
Moscovo aproveita este momento para reforçar a ideia de que este momento deve ser aproveitado para que a diplomacia e as negociações, de uma vez por todas, "seja a única opção viável", deixando uma crítica evidente ao facto de anteriores processos negociais terem sido aproveitados por Washington e Telavive para ataques cobardes ao Irão.
Entretanto, Israel...
Na primeira reacção a este cessar-fogo, o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyhau disse que o vai respeitar mas separa-o das acções das Forças de Defesa (IDF) no sul do Líbano, apesar de Donald Trump ter admitido que este abrangia todas as frentes.
"Israel apoia a decisão do Presidente Trump de suspender os ataques contra o Irão durante duas semanas, desde que o Irão reabra imediatamente o estreito e ponha fim a todos os ataques contra os Estados Unidos, Israel e os países da região", declarou o gabinete do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, num comunicado.
No mesmo documento, o Governo israelita diz que "apoia igualmente os esforços dos Estados Unidos para garantir que o Irão deixe de representar uma ameaça nuclear, balística e terrorista para a América, Israel, os vizinhos árabes do Irão e o mundo", acrescentou o texto.
O gabinete de Netanyahu, segundo a Lusa, fez ainda saber que "o cessar-fogo de duas semanas não inclui o Líbano", declaração que contradiz um anúncio feito anteriormente pelo primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, mediador no conflito, que afirmou que o cessar-fogo se aplicava "em todo o lado, incluindo no Líbano e noutros locais".
O pior cenário
O maior problema é se a coligação israelo-americana assumiu esta forma de conseguir um intervalo no conflito com o Irão para se rearmar, poder reabastecer os seus arsenais na região, repor os stocks de misseis interceptores nos sistemas de defesa anti-áérea em Israel para reiniciar a guerra quando esse processo estiver concluído.
Alguns analistas estão a defender que as duas partes já estão a fazer as reparações possíveis das seis semanas de guerra, preparando-se para a nova fase de ataques e contra-ataques que se seguirá à fase teatral das negociações.











