A economia mundial sabia que estava a caminhar para o abismo, mas enquanto o petróleo carregado antes de 28 de Fevereiro, dia em que a coligação israelo-americana lançou esta guerra contra o Irão, não desaguava nos portos de destino, não sentia a crise na pele.
Esse petróleo, advertem analistas como Jeffrey Sachs, renomado economista da Universidade de Columbia, ou Alex Krainer, analista de mercados, foi já descarregado e é agora que a falta dele a escoar pela artérias da economia global se vai começar, ou já começou, a fazer sentir... como os elevados preços do barril o demonstram.
Essa a razão, onde se junta a esperada escassez de gás (LNG) pela qual do Fundo Monetário Internacional (FMI) anunciou um corte substancial no seu Outlook para a economia mundial, advertindo que uma recessão mundial está ao virar da esquina se a guerra entre Israel e EUA e o Irão não parar muito em breve.
Com o Estreito de Ormuz controlado pelo Irão e parcialmente fechado, e sem que se perceba o que vai Donald Trump fazer quanto ao bloqueio naval ao Irão iniciado esta semana, o FMI actualizou as suas previsões de crescimento para 2026 de 3,4% para 3,1% em Abril, mas isso é apenas uma brisa inicial do vendaval que pode estar para chegar.
É que o FMI projectou um crescimento global para este ano de 3,1% em Abril se o barril de crude estabilizar em torno dos 82 USD, o que não deverá acontecer, não apenas porque está actualmente perto dos 100 USD e não se perspectiva um fim imediato para o conflito.
Ou seja, os analistas do Fundo Monetário Internacional admitem que a economia cresça ainda menos, apenas 2,5% se a situação de mantiver, e ainda menos que isso, 2%, se o conflito se prolongar.
Mas se levar à destruição maior da infra-estrutura energética dos países do Golfo Pérsico e o barril se mantiver acima dos 100 dólares, esse cenário deixa o mundo à beira do abismo da recessão.
Sendo que os maiores problemas serão sentido na Europa e no resto do mundo cujas economias dependem mais de crude e gás, sendo que os EUA, não sendo imunes, e que estão por detrás deste imbróglio planetário, são quem menos sofre, aponta o FMI.
Este cenário apocalíptico que o FMI traça para a economia mundial se o pior dos cenários se concretizar, não escapa aos radares da Casa Branca e das consequências que isso pode ter nas expectativas do Presidente Trump para as eleições intercalares de Novembro, onde está, segundo todas as sondagens, em risco de perder as maiorias nas duas câmaras do Congresso, no Senado e nos Representantes.
Não é por acaso que esta semana, quase diariamente, Donald Trump tem insistido que a guerra está prestes a acabar e que os EUA e o Irão estão de regresso em breve às negociações depois da primeira ronda, falhada, no passado fim de semana, em Islamabd, Paquistão.
Para já, esse regresso à mesa do diálogo não foi confirmado pelo Irão, embora o Presidente Massoud Pezeshkian tenha dito, mais uma vez, naquilo que é a posição iraniana desde sempre, que o seu país está sempre pronto para conversar com os EUA desde que Washington abandone a sua postura de imposição dos termos negociais e aceite falar entre iguais.
O que não é impossível porque, apesar de Trump insistir que o Irão está de rastos, destruído e sem ânimo para continuar a guerra e, por isso, deseja ardentemente negociar com ele, esse retrato da realidade só existe na cabeça do Presidente norte-americano, mas a sua Administração parece mais levada a reduzir o atrito retórico.
Karoline Leavitt, a porta-voz da Casa Branca, em conversa esta quarta-feira, 15, com os jornalistas, disse que os EUA e o Irão estão a falar sobre os termos de uma segunda ronda negocial, o que é claramente uma posição diferente de Donald trump quando este diz que "eles estão desesperados para negociar".
Uma das dificuldades referidas por Pezeshkian e pelo seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, é que o Irão ainda não obteve dos Estados Unidos garantias sólidas de que não volta a ser atacado traiçoeiramente, a meio das negociações, como sucedeu em Junho de 2025, e agora de novo a 28 de Fevereiro.
É certo que os EUA já abandonaram integralmente os três objectivos iniciais que justificaram esta guerra, que era o Irão abandonar o seu programa nuclear civil totalmente, desistir da sua capacidade balística e hipersónica de longo alcance, o qiue deixava o Irão á mercê das forças israelitas e norte-americanas, e extingua todfa e qualquer ligação aos seus aliados regionais, como o Hezbollah, no Líbano, ou a Ansar Allah (Houthis), no Iémen.
Ainda mais curioso é que Donald Trump foca agora a sua atenção e exigências na abertura do Estreito de Ormuz - que estava aberto e livre antes desta guerra - e da desistência de produção de armas nucleares - o que o Irão sempre disse que não pretendia obter -, o que, em princípio, deveria facilitar um entendimento, não fosse a desconfiança iraniana quanto ás intenções israelo-americanas.
E não é para menos, porque os EUA, desde o início do ano, praticamente, não pararam de fazer crescer a sua presença militar na região do Golfo Pérsico, com o envio de três porta-aviões, com o USS George H. Bush a caminho da região, onde se vai juntar ao USS Abraham Lincoln.
Além disso, os EUA já deslocaram para as suas bases e navios naquela geografia entre 15 a 50 mil militares, dependendo das fontes, o que pressupõe que esteja em preparação uma invasão terrestre do Irão, como, de resto, Donald Trump já disse que não estava posta de parte essa opção para obrigar Teerão a aceitar as suas condições.
Apesar deste cenário, a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, disse na conversa com os jornalistas que os EUA se sentem "muito bem no que toca ás perspectivas de uma nova ronda negocial" mas avisou, no tom arrogante que os iranianos não aceitam, que "é no melhor interesse do Irão aceitar as exigências do Presidente" norte-americano.
Alguns analistas temem o pior e, por exemplo, o major-general Agostinho Costa, em declarações recentes ao Novo Jornal, disse que uma invasão terrestre norte-americana ao Irão "é o cenário mais certo" porque uma tão elevada concentração de militares, incluindo milhares das forças especiais, não é costume acontecer por acaso.










