Depois do choque inicial provocado pelas mais sonantes saídas abruptas de Pam Bondi, a Procuradora-Geral (ministra da Justiça), e de Joe Kent, o chefe do departamento Nacional de Contraterrorismo, ambos em colisão com Donald Trump, foi agora a vez de John Phelan de secretário da Marinha, em total discordância com o Presidente quanto às opções estratégicas para este ramo das Forças Armadas dos EUA.

Todas estas saídas, a que se acrescentam ainda as de Mike Waltz, Conselheiro para a Segurança Nacional, e do Chefe de Estado-Maior do Exército, general Randy George, que arrastou consigo mais 11 comandantes com relevância na estrutura, estão directa ou indirectamente relacionadas com as opções tomadas no contexto do conflito no Médio Oriente.

E entre todas as saídas, três revelam-se importantes para entender as divisões existentes na condução da guerra no Médio Oriente, desde logo Joe Kent, que bateu a porta alegando que Donald Trump está nas mãos de Israel e que em momento algum o Irão constituiu uma ameaça para os EUA, o general Randy George, que os media norte-americanos revelam ter acontecido face ao "erro estratégico" quer seria uma invasão terrestre do Irão.

Mas também agora a de John Phelan, que a CNN International nota acontecer em pleno bloqueio naval da marinha norte-americana no Golfo de Omã, notando este canal que "é particularmente chocante acontecer no preciso momento em que a Marinha se debate com o bloqueio" no qual Trump deposita grande esperança para poder vergar o Governo em Teerão.

Tal como aconteceu com o general Randy George e os seus 11 comandantes departamentais, John Phelan sai igualmente em colisão com Pete Hegseth, o polémico secretário da Defesa (Guerra), também ele igualmente a caminhar sobre brasas.

Isto, depois de terem sido divulgadas notícias sobre a forma como citou trechos inexistentes da Bíblia (ver links em baixo), que foi encontrar recriados no filme Pulp Fiction, de Quentin Tarantino, ou ter criado um argumentário para convencer os militares que estão de partida para o Médio Oriente de que vão numa missão divina porque Deus escolheu Donald trump como seu enviado para criar o Armagedão no Irão que permitirá o regresso de Cristo à Terra.

Mas os sinais de desagregação na Administração Trump não emergem apenas entre os responsáveis departamentais, também na narrativa que acompanha a guerra, ou, no caso, o actual cessar-fogo, que o Presidente veio, na quarta-feira, dizer que deixava de ter um limite e que se manteria até o Irão ceder nas condições dos EUA para desenhar um acordo de paz.

Uma opção que surge numa altura em que o Irão, tanto em declarações dos seus governantes civis, como o ministro dos Negócios Estrangeiros, Abbas Aragchi, ou do Presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, chefe da delegação negocial que esteve no Paquistão para a primeira ronda com os EUA há pouco mais de uma semana, ou dos líderes militares, como o comandante da força aeroespacial da Guarda Revolucionária do Irão (IRGC, general Seyed Majid Mousavi, não apenas recusam falar com Washington, como ironizam sobre um cessar-fogo que só existe para os americanos.

Isto, porque o Irão vê o bloqueio naval americano como "um acto de guerra", como foi um acto de guerra a tomada à força de um cargueiro iraniano com carga chinesa no Mar de Omã, no início desta semana, ao qual o Irão respondeu tomando de assalto dois navios com bandeira do Panama e da Libéria, mas ligados a interesses israelitas e europeus.

Ou seja, segundo Teerão tem explicado, repetidamente, de nada vale Donald Trump estar a dizer que Islamabad vai acolher uma segunda ronda de negociações em breve enquanto não levantar sem condições o bloqueio naval, até porque os iranianos deram o primeiro passo há dias, libertando o Estreito de Ormuz à navegação comercial sem o gesto correspondente dos EUA quanto ao bloqueio.

Para já, esta passagem entre o Golfo Pérsico e o Mar de Omã (Oceano Índico), por onde deixou de escoar 20% do petróleo e do gás consumidos diariamente em todo o mundo, compostos vitais e insubstituíveis de fertilizantes, que começa a fazer-se tragicamente sentir em países africanos e sul-americanos, e, além do alumínio, 35% do hélio global, sem o qual a indústria dos microchips não se mexe, continua fechada pelo Irão.

Apesar de os países árabes do Golfo - Kuwait, Catar, Arábia Saudita ou Emiratos Árabes Unidos - estarem a fechar os canais de informação para reduzir o impacto da guerra nas suas economias, alguns media, como The Guardian, têm divulgado sérios problemas nas suas economias em resultado deste contexto de guerra.

Não apenas como resultado da travagem a fundo na exportação de energia, petróleo e gás (LNG), mas também nos sectores turístico, do imobiliário no comércio interno e nos serviços, especialmente nos financeiros, onde já se sente a falta da mão de obra especializada estrangeira, que saiu da região logo no início do conflito e assim que os primeiros misseis e drones iranianos caíram nas bases e nos interesses dos EUA ali existentes.

Trump e as eleições de Novembro

Este momento, como transparece em quase todos os media norte-americanos, começa a ganhar também uma relevância na política interna dos EUA que está a encolher as opções de Donald Trump, tendo este sentido a necessidade, até para retirar essa "vantagem" ao Irão, de vir dizer publicamente que as suas opções no Médio Oriente não estão condicionadas pelo aproximar das eleições intercalares de Novembro deste ano.

Mas estão, e todos os analistas o apontam sem falta de argumentos, como apontou John Mearsheimer, professor da Universidade de Chicago e um dos mais prestigiados especialistas norte-americanos em política internacional e geoestratégia, desde logo o impacto da inflação nos combustíveis resultante do elevado preço do petróleo devido ao conflito no Golfo Pérsico.

Isto, porque a época do Verão é "sagrada" para os norte-americanos da classe media, que são quem decide eleições, e estes tradicionalmente, a partir de Maio, começam a fazer grandes deslocações de carro pelos EUA, o que leva a que o preço da gasolina mexa mais com o seu sentido de voto que as suas convicções ideológicas.

E Donald Trump, nota Mearsheimer, não está em condições de poder perder as maiorias que o seu Partido Republicano tem nas duas câmaras dos Congresso, dos Representantes e no Senado, não apenas porque isso deixaria em maus lençóis o próximo candidato republicano para as Presidenciais de 2028, mas pelo que pode suceder ao Presidente até lá,

É que a oposição dos democratas tem dado sinais que vai avançar com um processo de destituição (impeachment) na primeira oportunidade, porque Donald Trump avançou para uma guerra no estrangeitro sem consultar o Congresso como a Constituição exige, e ainda por causa das ilegalidades cometidas para esconder o conteúdo dos Ficheiros Epstein, o maior escândalo de pedofilia internacional onde o seu nome é dos mais falados, com mais de 5 mil citações, segundo vários media.

Além disso, Trump está ainda refém das suspeitas sobre a sua saúde mental, com a criação de uma comissão no Congresso, por iniciativa da oposição, para incentivar o recurso à 25ª Emenda da Constituição, Secção 4, que em caso de grave doença mental, o seu gabinete e o vice-Presidente estão obrigados a assumir o poder até novas eleições ou à recuperação total do Presidente.

Alguns analistas admitem que Donald Trump está a usar o cessar-fogo como forma de ganhar tempo para erguer uma máquina de guerra na região, para a qual tem contribuído notícias de uma ponte aérea ininterrupta há semanas de transporte de material militar e unidades de infantaria e forças especiais, com vista a uma invasão terrestre do Irão, ou, pelo menos, uma operação audaz para mudar o regime em Teerão, como sucedeu com Nicolas Maduro, na Venezuela, no início deste ano.

Um desses analistas é o major-general Agostinho Costa que não encontra outra explicação válida e razoável pelo agigantamento da presença militar norte-americana na região, onde já tinha em tempos de paz largos milhares de soldados, centenas de aviões e navios de guerra, espalhados pelas dezenas de bases na região, que não seja uma incursão terrestre no Irão.

Isso, segundo Jacques Baud, antigo coronel da intelligentsia suíça e da NATO, autor de vários livros sobre conflitos no Médio Oriente, só cabe numa faixa estreita de possibilidades, que seria Trump e os seus conselheiros pensarem que conseguem uma vitória estrondosa sobre o Irão, como fizeram na Venezuela, e que isso se sobreporá eleitoralmente a todos os episódios polémicos vistos até agora.

Só que Trump, mesmo mudando de opinião diariamente, por vezes hora a hora, insiste que a questão eleitoral não mexe com as suas opções e decisões, e, agora, quando este tema está espalhado por toda a imprensa norte-americana, foi à FOX News garantir que não está limitado por quaisquer questões eleitoralistas.

"As pessoas andam a dizer que estou à procura de uma saída apressada do conflito com o Irão devido às eleições intercalares, mas isso não é verdade", sublinhou, acrescentando que não tem "pressa nenhuma", antes pelo contrário, está a "ser feito o que tem de ser feito".

Todavia, as evidências apontam em sentido contrário, não apenas porque a demissão de Pam Bondi, que era uma sua indefectível no Movimento MAGA, foi motivada, como revelaram vários media, incluindo The New York Times e CNN, pela sua incapacidade de afastar os Ficheiros Epstein dos passos do Presidente.

Além disso, o impacto económico desta guerra nos EUA é um desastre para a sua Administração, com a inflação crescente, os combustíveis em alta, emprego em baixa, e a sua aprovação popular é a mais baixa de sempre e um recorde histórico que abrange o período de vários Presidentes, incluindo uma desaprovação clara da guerra com o Irão que, dependendo das sondagens, vai de -30% a -45%.

No geral, segundo dados avançados por The New York Times, onde é publicado um quadro com as sondagens mais recentes, Donald Trump surge inclusive atrás, substancialmente atrás, de Joe Biden, que já era um dos Presidentes com pior resultado em muitas décadas e a quem ele acusava de ser o "Joe Dorminhoco".