Mas sabe-se que este ataque foi feito com três drones, um dos quais atingiu o local onde estão os geradores de apoio aos quatro reactores desta Central Nuclear de Barakah, de produção de electricidade, nos Emiratos.

Abu Dhabi já fez saber que se sente no direito de ripostar e Teerão a negar a sua autoria, uma recusa que é coerente com o registo histórico iraniano de não ser quem dá o primeiro tiro, mas que encaixa nas típicas operações de falsa bandeira de quem quer provocar uma reacção que conduza à retoma da guerra.

Neste momento, porque o não esconde, é o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyhau, quem mais quer ver o regresso dos ataques americanos ao Irão, garantindo que Israel está pronto para ajudar os EUA a qualquer momento, o que faz de Telavive um legítimo suspeito caso se demonstre que o ataque a Barakah foi encenado com esse propósito.

Esta recusa do Irão em aceitar a autoria deste ataque, grave, a uma central nuclear, não esconde que Teerão esteja preparado para a guerra, que é o que as autoridades do país repetem diariamente, como foi o caso desde Domingo, quando Donald Trump publicou outra ameaça catastrófica contra o Irão na rede social Truth Social.

O Presidente dos EUA voltou, como já tinha feita em múltiplas ocasiões, a ameaçar o Irão com um ataque destruidor do país inteiro, naquilo que pode ser uma nova referência a um ataque nuclear, como aquela que ficou evidente quando escreveu, há cerca de um mês, que iria "destruir a civilização iraniana" sem possibilidade de se erguer de novo.

Desta feita escreveu, igualmente na sua rede social, que "Para o Irão, o relógio está a andar, e é melhor que se mexam depressa, ou restará nada deles. O tempo é mais essencial que nunca" para os iranianos neste momento.

Mesmo sendo uma ameaça repetida, ela não poderia ser mais evidente do que Donald Trump pretende diszer nesta pequena publicação na Truth Social, e isso é que está de novo em cima da mesa um ataque nuclear contra Teerão.

É que o recurso a armas convencionais, como sucedeu entre 28 de Fevereiro e o início de Março, com seis semanas de ataques intensos, com milhares de mísseis Tomawahk, os mais poderosos do arsenal convencional dos EUA, só superados pelas superbombas GBU-57 MOP, com 14 mil kg, igualmente usadas, não levou à implosão do regime iraniano como Trump e Netanyhau diziam que sucederia em menos de uma semana.

Segundo vários analistas, como o major-general Agostinho Costa, depois de Trump anunciar para esta terça-feira, 19, a reunião de emergência do seu Conselho Nacional de Segurança, a retoma dos ataques ao Irão deverá acontecer na sexta-feira, após o fecho dos mercados, "como tem sido prática" da coligação israelo-americana.

Nesta reunião os iranianos, como disse Mohammad Marandi, um analista iraniano, com presença assídua em vários podcasts, professor da Universidade de Teerão e ex-conselheiro da equipa negocial iraniana para o acordo nuclear com os EUA, já estão à espera de uma decisão para o regresso à guerra.

Os novos ataques, segundo Marandi, deverão ser através de misseis de longo alcance e bombardeiros furtivos, porque a muito falada invasão terrestre é agora carta fora do baralho devido às elevadas temperaturas na região, acima de 40ºc à sombra, cenário insustentável para uma incursão terrestre norte-americana.

Mas, tal como Marandi, também o porta-voz do Comando Militar Unificado do Irão, que agrega a Guarda Revolucionária (IRGC) e o Exército, Marinha e Força Aérea, coronel Ebrahim Zolfaghari, garantem que o país está preparado tanto para uma incursão terrestre como para o regresso dos ataques aéreos.

Mas com uma abordagem nova, sublinhada por Mohammad Marandi em todas as suas intervenções nos canais do YouTube de análise desta guerra ocidentais, que é a certeza que Israel e EUA podem ter sobre a destruição de todas as infra-estruturas energéticas nos países do Golfo Pérsico aliados de Washington e em Israel.

"Se o Irão voltar a ser atacado, nenhum petróleo, gás ou as matérias-primas vitais, como fertilizantes, hélio (chips) ou alumínio, volatrão, por muito tempo, a sair do Golfo Pérsico", avisou Mohamad Marandi, acrescentando que desta vez todos os aliados do Irão na região estão de dedo no gatilho.

O que quer dizer que as milícias xiitas no Iraque vão entrar no conflito, e a Ansar Allah (Houthis), no Iémen, vão fechar o Estreito de Bab al-Mandeb, que liga o Mar Vermelho/Canal do Suez, ao Mar Arábico/Oceano Índico, o que tem todos os ingredientes para gerar uma crise global sem precedentes.

Isso já foi anunciado, no que diz respeito aos mercados petrolíferos, pela Agência Internacional de Energia (AIE), que nota ainda que nem na crise mais conhecida de sempre, a do choque petrolífero de 1973, uma situação destas foi vivida, lembrando o seu presidente Fatih Birol que naquela altura saiu de circulação foi de 5 milhões de barris por dia, quando hoje são quase 20 milhões num mundo onde o crude tem uma incomparável relevância para motorizar a economia global.

E não há, neste momento quaisquer certezas de que Irão e EUA possam chegar a um entendimento, embora o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano, Esmail Baghaei. Tenha anunciado nas últimas horas, já depois da nova ameaça de Trump, que as negociações continuam através do Paquistão e que há novas propostas a serem desenhadas.

O que também parece ser o caso do lado dos EUA, que, na proposta mais recente conhecida, deixa de lado a questão dos sistemas de misseis e admite que o Irão mantenha uma central nuclear a funcionar e o enriquecimento de urânio para fins civis, além de assumir o regresso de uma percentagem imediata de 25% dos fundos congelados no exterior, bem como o levantamento de algumas sanções.

Noutro ponto prioritário para norte-americanos, a reabertura do Estreito de Ormuz, também parece haver cedências de parte a parte, desde logo com o Irão a assumir que o controlo desta passagem marítima vital para o mundo será definido em conjunto com Omã, mas que a garantia inicial é que o trânsito será aberto para todos, excepto para os países inimigos de Teerão, aliados dos EUA e de Israel neste conflito, sob condição do pagamento de uma portagem a decidir.

Uma das exigências do Irão é que o bloqueio naval dos EUA aos seus portos seja levantado, quer garantias sólidas esculpidas na lei internacional e no contexto das organizações, como a ONU, para que o país não volte a ser atacado como sucedeu em Junho do ano passado e agora em finais de Fevereiro.

Além disso, os iranianos querem que o cessar-fogo seja efectivamente alargado ao Líbano, onde Israel mantém ataques diários, uma invasão terrestre evidente, estão a ser arrasadas aldeias e vilas inteiras e mortas centenas de pessoas desde que o cessar-fogo foi anunciado, há cerca de quatro semanas.

A esperança de que, como adiantou a FARSI, a agência estatal de notícias iraniana, a proposta de cinco pontos de Washington, além de apontar para a presença no Irão de uma única central nuclear, exige que o urânio enriquecido a 60%, muito perto do patamar militar, que é de 85%, cerca de 400 kgs, seja enviado para os EUA.

Esta possibilidade já foi rejeitada por Teerão de forma liminar, mas há um novo jogador em campo que pode desatar este nó. Vladimir Putin, o Presidente da Rússia, fez saber a Trump que Moscovo está disponível para servir de "fiel depositário" do urânio iraniano, o que retira do centro das preocupações norte-americanas o acesso de Teerão a uma arma nuclear.

Apesar da turbulência neste "voo" diplomático de emergência para encontrar uma solução negociada para o conflito no Golfo Pérsico, onde se admite, entre a comunidade de analistas, que terá sido relevante a recente visita de Trump à China (ver links em baixo), o que tem em mente Donald Trump para os próximos dias só será conhecido, provavelmente, após a reunião desta terça-feira do seu Conselho de Segurança Nacional.

Entretanto, o Irão também procura abrir uma janela de oportunidade para a paz entre os países do Golfo Pérsico, garantindo, através do seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Abbas Aaraghchi, que não há razão nenhuma para que os vizinhos árabes da outra costa, Kuwait, Catar, sauditas, Bahrein e EAU sintam qualquer ameaça em Teerão.

E acrescentou, durante a reunião dos chefes da diplomacia dos BRICS, em Nova Deli, Índia, que "se os países do Golfo seguirem uma linha de sabedoria e bom senso perceberão que tém no Irão um parceiro confiável e útil", deixando no ar a ideia de que no reverso da medalha está a brutalidade da guerra e da destruição de novo no horizonte.