E quando Donald Trump, frente a frente com o seu anfitrião, o elogia como raramente ou nunca o fez com nenhum outro líder, acrescentando que as relações entre os Estados Unidos e a China "vão ser melhores de nunca" daqui para a frente, o norte-americano está a aceitar que acabou o tempo em que os EUA decidiam os destinos do Planeta.

Em pano de fundo a esta visita de Donald Trump à China, a primeira de um Presidente dos EUA em quase 10 anos, sendo que a última ocorreu em 2017, e foi também ele que viajou para a capital chinesa, está a disputa assumida e indesmentível de que os EUA não queriam perder a liderança global e Pequim quer um mundo assente na cooperação entre iguais.

O primeiro a ceder foi o anterior líder americano, Joe Biden, ao admitir que a ordem mundial baseada nas regras definidas pelo ocidente liderado pelos EUA após a II Guerra Mundial, estava esgotada, mas não disse que na nova ordem, os EUA abdicavam de a liderar, o que só pode ser conseguido derrotando o Gigante Asiático nesse "Grand Jeu".

Se os EUA ainda são militarmente uma potência superior, a China é já mais influente globalmente na economia, mas ambos tendem para um "empate" no médio prazo, e isso parece transparecer nesta visita de Trump à casa de Xi, embora nem um nem outro esqueçam que existem documentos oficiais do Pentagono, e do "think tank" semi-oficial Rand Corporation, onde é dado como inevitável uma guerra cinética entre estes dois países até 2030, porque é essa a única via que Washington tem para impedir a ascensão esmagadora de Pequim.

No que se conhece das primeiras horas desta visita, na tarde de quarta-feira, 13, sob o relógio de Luanda, já quinta, 14, em Pequim, os dois líderes mundiais entretiveram os media internacionais com a ideia de que o que os divide mais, segundo Xi, é a questão de Taiwan, um território "rebelde" chinês apoiado pelos EUA, e Trump apostou na questão comercial, considerando que as empresas chinesas jogam este jogo fora do tabuleiro, a razão, alias, para a guerra comercial/tarifária que ainda decorre entre Washington e Pequim.

O líder chinês, citado pelo britânico The Guardian, disse mesmo ao visitante que EUA e China podem estar envolvidos numa guerra a qualquer momento por causa da questão taiwanesa, avisando Trump que não lhe vai admitir quaisquer impulsos exteriores para um impulso independentista em Taipé.

E segundo a televisão estatal chinesa, CCTV, Xi Jinping avisou que "a questão de Taiwan é o assunto mais importante em cima da mesa e das relações globais entre os EUA e a China", que tem tudo para, "se não for bem gerido, ser um assunto que levará a uma inevitável colisão", deixando as relações bilaterais num campo minado.

Já do lado americano, Trump também mostrou a Xi que há questões que ele "don't like it!", mas mandou o seu secretário de Estado, Marco Rubio, dizer, através da Fox News, a televisão mais "oficial" da Casa Branca, que os EUA estão descontentes com a forma como a China está a lidar com a guerra no Médio Oriente, querendo Pequim a pressionar mais Teerão para ceder à vontade norte-americana.

É claro que estes dois assuntos, sendo importantes, estão longe de ser o que mais nervos gera nos links entre Pequim e Washington, porque isso é provocado pela guerra por detrás dos panos que ambos travam, com chineses a querem fazer desmoronar a ordem mundial "dos americanos" enquanto estes tudo fazem para desvitalizar a crescente pujança económica e militar chinesa onde vale quase tudo e até arrancar olhos, desde que se possa negar a autoria...

Um bom exemplo acontece em Angola, onde americanos e os seus aliados europeus estão a investir fortemente no Corredor do Lobito cujo fim único é o transporte de todo o tipo de matérias-primas minerais da RDC e da Zâmbia para a costa atlântica retirando-as ao corredor para o Índico controlado pela China, que tem como objectivo quase único levar os minérios congoleses e zambianos para o seu lado desta guerra de barricadas económicas.

Apesar disso, num depoimento oficial da diplomacia chinesa, ficou-se a saber que Xi Jinping enfatizou, perante Donald Trump, que a China está empenhada em erguer relações bilaterais cada vez mais estáveis, saudáveis e sustentáveis visando o desenvolvimento permanente destas no futuro, acrescentando que do lado americano, Trump "concordou em estabelecer uma "estratégia construtiva e estável" entre os dois países.

Isto, com o sentido de definir "um novo posicionamento nas relações China-EUA quen definira o futuro através de um entendimento estratégico permanente nos próximos três anos, o que é claramente linguagem técnica diplomática para significar que ambas as potências sabem do risco de um confronto sério e precisam de um mecanismo de comunicação rápida para evitar mal-entendidos denominando-o uma ferramenta de "construtiva estabilidade estratégica".

Que deve ser baseada na "cooperação, estabilidade benigna com competição moderada, estabilidade normalizada e assente em diferenças de fácil gestão com o foco num futuro mutuamente promissor e de paz, garantindo que não se trata de um mero slogan mas uma vontade férrea de ambas as partes para o conseguir.

Este "read out" chinês do primeiro encontro entre os dois líderes tem tudo para fazer soar as campainhas de alarme nos corredores em Washington, porque, como todos os analistas percebem, e para o qual alguns renomados especialistas, como John Mearsheimer, da Universidade de Chicago vêm alertando, se EUA e China forem deixados "à solta" na busca do seu desenvolvimento económico e expansão da sua influência económica, Pequim tem uma vantagem inigualável em competitividade estratégica e rapidamente deixará Washington para trás.

Essa a razão, claramente, para Trump ter feito saber que vai investir o seu foco na discussão das trocas comerciais entre EUA e China, porque quer que a China, que tem um evidente superavit neste contexto, compre mais aos norte-americanos, desde logo produtos agrícolas e aviões comerciais, definindo uma plataforma para diluir diferendos e evitar novas guerras comerciais.

Não por acaso, no dia em que Trump chegou a Pequim, a Bloomberg noticiava que a Boeing, cujo CEO, Kelly Ortberg, está na comitiva do Presidente norte-americano, tem em cima da mesa um negócio com a China para a venda de 500 aviões 737 MAX, e também propostas concretas no sector agrícola e na indústria de ponta, como os microchips da Nvidia.

Uma das cedências que Xi está disponível, como se percebe pelos relatos dos media internacionais que acompanham esta histórica deslocação de Trump é na abertura das fronteiras para alguns sectores ocidentais que precisam de aceder aos 1.4 mil milhões de consumidores chineses para sobreviverem.

Igualmente for a da possibilidade de ser um acaso, além do CEO da Boeing, na comitiva de Trump estão ainda, enre outros, Elon Musk, cuja marca-almirante do seu "império", a Tesla, está a afogar-se na produção de veículos eléctricos chineses em todo o mundo, o chefe da Nvidia, Jensen Huang, e o patrão da Appla, Tim Cook, que sem o mercado chinês valeria muitíssimo menos...

"As portas da China para o exterior vão abrir-se a partir de agora cada vez mais e mais e mais... e as companhias americanas vão ficar satisfeitas com as novas perspectivas para o mercado chinês", disse Xi Jinping citado pelos media do país e depois repescado pelos media internacionais.