É que as quase quatro décadas da liderança de José Eduardo dos Santos no MPLA e na presidência de Angola limitaram e asfixiaram várias intenções. O MPLA falhou no processo de sucessão de poder, começando com uma bicefalia que José Eduardo dos Santos (JES) tentou impor, que os militantes "fingiam" aceitar livremente, mas que João Lourenço (JLO) nunca aceitou, nunca tolerou. A tal bicefalia que ele não aceitou e que agora pretende impor ao seu sucessor.
O dia 16 de Março de 2018 foi o dia do "juízo final" para JES. Foi o dia em que percebeu que tinha perdido o poder no MPLA e que a bicefalia era apenas uma utopia. Que esta coisa de poderes partilhados não funcione, por aqui o poder é unipessoal e absoluto!
"Pela primeira vez, uma proposta de José Eduardo dos Santos para a realização de um congresso não colheu a aprovação do Comité Central...", escreveu o Jornal de Angola naquele dia.
O "JESexit" chegou bem mais cedo e era o início do fim da bicefalia. Numa foto há um olhar fulminante de José Eduardo dos Santos contra João Lourenço.
JES estava furioso e JLO nem olhou para ele, simplesmente JES foi "ignorado com sucesso. "Vimos JES totalmente "abandalhado" e sem o apoio dos seus camaradas. Sentiu-se traído e humilhado por alguns dos camaradas de um MPLA que liderou durante 38 anos e seis meses (Setembro de 1979- Março de 2018).
Um pormenor importante é o comportamento de alguns camaradas que negaram a bicefalia ao então presidente do MPLA, JES, e juraram fidelidade a JLO. Mas anos depois, voltaram a votar em congresso pelo regresso da bicefalia e que agora tudo farão para deixar cair a tal bicefalia. São os mesmos que se movimentam para se ver livres dele com a maior urgência possível.
Higino Carneiro, António Venâncio, José Carlos Almeida e, nesta edição, Irene Neto, a filha de Agostinho Neto, deixa claro que pondera avançar na disputa ao cargo de presidente do MPLA e a procissão ainda vai no adro. Já se diz que, do clã de JES, poderá sair um trunfo. Olhando para actual situação, o ambiente tenso no MPLA, qualquer militante se sente na obrigação de "corrigir o que está mal e melhorar o que está bem".
Vários grupos e correntes estão por aí. Uns a agir com muita calma e alguma alma. O "renascimento" de José Maria dos Santos, o antigo governador dos problemas de Luanda e do Kwanza-Norte, a "discreta" veia solidária de Pitra Neto, que tem estado a fazer uma "obra bela" ou os holofotes mediáticos em volta do jurista Carlos Maria Feijó podem ser sinais de que há alguns fundistas "embarrados" e a ver algumas "lebres" tomarem a dianteira.
João Lourenço sabe que corre o risco de chegar ao Congresso de Dezembro como o líder com os piores índices de popularidade da história do MPLA. Mais do que rejeitarem a solução JLO, pode ser mais complicado a rejeição por uma solução que tente impor e/ou apresentar. Mais preocupante é quando já não se vê no líder a solução, abrindo espaço para as alternativas, para que cada um se sinta com a legitimidade de tirar o MPLA da situação Tiririca, em que pior do que tá não fica!
O MPLA e a situação Tiririca
As múltiplas candidaturas para a liderança do MPLA revelam, também, os múltiplos problemas e contradições internas, começando pelos chamados "medos contraditórios" de militantes que colocam o líder no poder, mas que têm medo e inquietações com o poder que lhe cederam. Mas hoje entendem que, se João Lourenço chegou à liderança do MPLA, eles também podem lá chegar e tirar o partido da situação Tiririca em que se encontra: Pior que tá não fica!
