O Presidente chinês actuou sempre com a consciência de que nem em Pequim se desconhece o que em Washington se pensa da China nem em Washington o que em Pequim se pensa dos EUA, dois rivais cujo destino conduzirá inevitavelmente a um confronto de titãs porque o mundo é pequeno demais para as aspirações de ambos.

Xi Jinping, logo no arranque deste encontro de gigantes, na quinta-feira, 14, advertiu Donald Trump para a urgência de ambos evitarem a "Armadilha de Tucídides", que levou o norte-americano a publicar uma enorme resposta na Truth Social, o que não é surpreendente porque o líder chinês, com esse aviso, tratou os EUA como uma potência em declínio.

Estavam criadas todas as condições para estragar a festa, conhecendo-se como se conhece o ego do norte-americano, que nos seus "posts" não se cansa de dizer que os EUA têm tudo melhor que os demais, o melhor exército, as melhores tecnologias, a melhor economia... Mas Xi Jinping tinha uma carta na manga que suavizaria esse "golpe".

Donald Trump, já vinha cabisbaixo da recepção no aeroporto, onde à sua espera não estava o seu "muito bom amigo XI", nem sequer o ministro dos Negócios Estrangeiros, honras apenas concedidas aos verdadeiramente bons amigos, ou a quem já não é preciso dar recados, como notam alguns analistas, os Presidente da Rússia, Vladimir Putin, e da Coreia do Norte, Kim Jong-un.

Mas o seu orgulho foi rapidamente insuflado pela "magia" da diplomacia do velho "Império do Meio", quando, depois da recepção fria, e a picada sobre os EUA como império em declínio, Xi atropelou a agenda oficial e convidou Trump para Zhongnanhai, nem mais nem menos que o local mais reservado em toda a China, onde só entram os convidados de luxo; o complexo residencial das principais figuras do Estado, incluindo do Presidente da República Popular da China.

De lá saiu um Donald Trump novamente sorridente por saber que naquele local só entram os que merecem o máximo respeito das nomenclatura chinesa, como Vladimir Putin e poucos mais, esquecendo este que quando Xi lhe falou da "Armadilha de Tucídides" que ambos teriam de evitar, se referia a um termo conhecido nos meandros diplomáticos mais apurados sobre o risco de as potências em declínio (EUA) podem cometer erros catastróficos para impedir a ascensão de outros, como é o caso actual da China.

E porque referiu Xi Jinping este conceito geopolítico tão idiossincrático? Porque ele sabe, como o mundo sabe, que no Pentagono, ou no semi-oficial "think tank" Rand Corporation, ligado à intelligentsia militar norte-americana, estão publicados ou existem documentos onde se antecipa como inevitável um conflito militar com a China entre 2028 e 2030 porque em Washington se entende que o nº2 é apenas o primeiro dos últimos.

Além disso, em Washington também se conhece a hermenêutica de um dos mais conhecidos provérbios chineses: "Se te sentares tempo suficiente à beira do rio, verás passar na corrente o cadáver do teu inimigo", e os EUA sabem que o tempo joga a favor da China, onde a paciência não é um fardo, é uma arma...

E a China, no actual cenário de expansão das suas rotas comerciais, com o gigantesco projecto das Nova Rota da Seda, com braços ferroviários, marítimos e rodoviários a atravessar o mundo, sem perturbações artificiais, de acordo com todos os analistas, em menos de uma década será maior que os EUA tanto economicamente como militarmente.

É claro que não faltaram anúncios de sucesso negocial conseguidas nesta visita de Trump a Pequim, com 48 horas em brasa, onde na sua comitiva seguiram os líderes das maiores empresas dos EUA, desde logo Elon Musk, da Tesla e Space X, ou da Apple, Tim Cook, da Goldman Sachs, David Solomon, Jensen Huang, da Nvidia (chips) ou da Boeing, Kelly Ortberg, este último levava na manga o trunfo da venda de 500 Boeing 737 MAX, mas deixou apenas 200 nos céus das possibilidades de negócio chinesas...

Desde logo Trump conseguiu uma abertura faseada do mercado de 1.4 mil milhões de consumidores aos produtos americanos, para já os agrícolas e petrolíferos, mas com a China a obter também vitórias, como o acesso aos mais sofisticados microchips da Nvidia, num ciclo calculado para ao longo dos anos ir cimentando os laços comerciais entre os dois gigantes mundiais que dizem querer ser amigos mas sabem que têm de estar preparados para a guerra.

Outra vitória secundária de Trump foi ter conseguido que Xi lhe dissesse publicamente que não vai enviar armas para o Irão, que quer ver a guerra no Golfo Pérsico acabar, e que o Estreito de Ormuz tem de ser reaberto rapidamente sem quaisquer entraves á navegação por parte do Irão, o que Pequim deve conseguir, sabendo-se pouco das contrapartidas que Washington dará a Teerão, por ser a quem mais os iranianos ouvem.

Mas, porque existe sempre um más quando em Pequim se lida com situações melindrosas, mesmo na porta ao lado, o ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, Wang Yi, muito próximo de Xi, disse, a meio desta visita, que sim, é verdade, que a guerra no Irão deve terminar no interesse de todos, mas que também era do interesse de todos não ter começado, e quem a começou, como se sabe, foi a coligação israelo-americana a 28 de Fevereiro quando a diplomacia devia servir para solucionar os problemas que houvesse para ultrapassar.

E quando esta visita estava na sua curva final, quando já se faziam as contas ao saldo destas 48 horas de complexo relacionamento, mas frutífero para ambos os lados, sentia-se no ar que faltava alguma coisa: trump ainda não se tinha referido à "Armadilha de Tucídides" com que Xi lhe armadilhou a chegada a Pequim. Provavelmente porque nunca tinha ouvido falar dela...

Mas foi saber o que era e respondeu num longo "post" na Truth Social, onde diz que até concorda com Xi, porque, ao longo do mandato de Joe Biden, a quem voltou a chamar de "Joe Dominhoco", os EUA eram mesmo "uma potência em declínio", mas que isso agora é passado, porque com ele "os Estados Unidos são o pais mais quente do mundo", com uma "economia vibrante, mais emprego que nunca, mercados em alta como nunca...".

O que lhe permitiu, além da entrada no "céu" dos privilegiados junto do poder em Pequim, que foi ir a Zhongnanhai, dizer alto e bom som, nesta sexta-feira, 15, que conclui esta visita oficial à China com as relações entre as duas maiores potências mundiais "boas e a melhorar", apesar de admitir, porque é sabido e conhecido, que existem "divergências profundas".

"Foram realmente dois dias excelentes", disse Trump aos jornalistas, sentado ao lado de Xi já dentro de Zhongnanhai.

A concluir, o velho foco de tensões que é Taiwan, que Xi Jinping disse na quinta-feira ser o mais sério assunto entre os dois países, o que foi visto mais como uma cortina de fumo mantendo os jornalistas entretidos, porque a disputa entre Washington e Pequim é global, não local, embora, ainda assim, o secretário de Estado norte americano, Marco Rubio, alertou nesse dia que seria "um erro terrível" a China tentar tomar Taiwan pela força.

O chefe da diplomacia dos Estados Unidos disse à NBC News que a política de Washington em relação a Taiwan "permanece inalterada" e reiterou que seria "um erro terrível" a China recorrer à força.

O que deixa uma certeza sólida e perene entre os analistas: quando a China e os EUA decidirem que chegou a hora do ajuste de contas final, ambos sabem como dar o tiro de partida, e isso passará sempre por Taipé, a capital de Taiwan, ilha rebelde desde a década de 1950, com frequentes "soluços" independentistas mas que tanto Pequim como Washington mantém um entendimento estratégico de que "só existe uma China".