O chefe da diplomacia do Irão está esta segunda-feira, 27, em São Petersburgo, Rússia, para falar com o seu homólogo Sergei Lavrov e com o Presidente Putin, e o tema é apenas um: o conflito israelo-americano aberto contra o Irão a 28 de Fevereiro e actualmente num "intervalo" de tréguas nas quais já ninguém acredita que visem a paz.

A agenda de Abbas Araghci para esta ida à Rússia, depois de ter passado por Muscat, em Omã, o único país árabe do Golfo Pérsico com relações amistosas com Teerão, e Islamabad, Paquistão, não foi revelada, mas o reinício iminente das hostilidades israelo-americanas sobre o Irão é todo ou quase todo o "menu" em cima da mesa.

Isto, porque, depois de pedir aos iranianos que fossem a Islamabad, para uma segunda ronda de negociações de forma a dizerem aos americanos quais as suas condições para a paz, Trump recebeu de Teerão, via Paquistão, uma nova proposta com 5 pontos que rejeitou de imediato e cancelou todas as negociações.

"Se eles quiserem pensar melhor e aceitar que não têm as cartas, que nos (EUA) é que temos as cartas, basta pegarem no telefone e ligarem para Washington", disse Donald Trump, mais uma vez recorrendo à metáfora do jogo de póquer onde o que vale são as cartas na mão mas o que define, quase sempre, quem ganha e quem perde é a arte de vergar o adversário através do bluff, fazendo-o acreditar que se tem melhores cartas que ele.

Ora, aqui, Donald Trump está claramente a contar que o bloqueio naval que ergueu ao Irão há duas semanas, impedindo, com sucesso ou sem ele, conforme as fontes, consiga obrigando Teerão a ceder, abrindo o Estreito de Ormuz, sob o peso do corte nos rendimentos que é não poder exportar petróleo e gás.

O castigo dos americanos sobre o Irão tem peso, é real, mas, segundo vários analistas, como o coronel Douglas MacGregor, antigo conselheiro na primeira Administração Trump, e veterano das guerras do Iraque e do Afeganistão, hoje um dos mais vistos analistas militares nas redes sociais, muito longe do que diz Trump.

Este analista aponta mesmo que o que está a acontecer é um braço-de-ferro em que a vantagem está do lado iraniano com o controlo sobre o Estreito de Ormuz, gerindo o tráfego de 20% do crude e do gás mundiais, além de compostos vitais para a humanidade de fertilizantes e para as indústrias 2.0 dos microchips, pelo impacto que isso está a ter na economia dos EUA e na dos seus aliados europeus, asiáticos e no próprio Golfo Pérsico.

"A inflação nos EUA está a atingir cada vez mais as famílias, nomeadamente no preços dos alimentos e dos combustíveis, e a criar situações insustentáveis na Ásia, na Europa e em África, com a falta de fertilizantes e combustíveis, enquanto o Irão sofre sanções ocidentais há décadas e tem mais lastro para aguentar a pressão", disse recentemente este militar norte-americano na reforma, num podcast.

E acrescentou: "Além disso, Donald Trump pode dizer (e disse mesmo) que não está com pressa para resolver o problema com o Irão, mas é mentira, porque esta situação actual é uma condenação para as suas perspectivas eleitorais para as eleições intercalares de Novembro", onde a situação económica vai reflectir a votação no seu Partido Republicano e a perda ou não das maiorais que tem hoje nas duas câmaras, Representantes e Senado, no Congresso.

Se perder a maioria no Congresso, Trump sujeita-se de imediato a um processo de destituição e a uma exposição muito mais fragilizado às consequências do "Caso Ficheiros Epstein", o maior escândalo de pedofilia de sempre, onde o seu nome é dos mais citados entre as suas milhares de páginas.

Todavia, o que alguns dos analistas militares mais respeitados, como MacGregor, ou o português major general Agostinho Costa, acreditam, é que Donald Trump está, mais uma vez, a tentar entreter os iranianos para ganhar o tempo que precisa de modo a fortificar a presença militar, em equipamento e unidades, para avançar por terra sobre o Irão.

Para já, os EUA deslocaram para a região três porta-aviões, o USS Abraham Lincoln, o USS George H. Bush e o USS Gerald Ford, que acompanham pelo menos duas dezenas de navios de superfície e ainda vários submarinos, com uma capacidade de fogo que só pode, segundo estes analistas, significar a continuação da guerra.

É que, além do reforço do mar, os EUA mantém uma ponta área ininterrupta, com dezenas dos seus gigantes dos ares, os C-5 Galaxy, o maior cargueiro do mundio, para a região, onde já tem mais de 60 mil soldados, incluindo milhares das forças especiais, e, num movimento ousado pelos danos reputacionais entre os seus aliados asiáticos, retirou vários sistemas de defesa anti-aérea Patriot e THAAD de Taiwn e Coreia do Sul para colocar nas suaas bases no Médio Oriente e em Israel.

Para estes analistas, Donald Trump tem esta extraordinária máquina de guerra para continuar a atacar o Irão, estando a aproveitar o cessar-fogo para reabastecer as forças das munições gastas nas primeiras seis semanas de ataques ao Irão realizados em conjunto com Israel.

O que não será uma surpresa para Teerão, como o têm afirmado repetidamente as autoridades iranianas, incluindo o MNE Araghchi, aludindo ao que aconteceu em Junho de 2025, e agora, a 28 de Fevereiro, onde os EUA e Israel lançaram ataques a meio de negociações, usadas como deceção militar.

Esse ponto tem sido igualmente referido pelas chefias da Guarda Revolucionária do Irão (IRGC), que garantem estar a preparar-se para a segunda fase da guerra iniciada pela coligação israelo-americana, nomeadamente atrás da reposição e reorganização dos seus sistemas de misseis balísticos hipersónicos.

Apesar das ameaças de Trump à Rússia e à China, dois aliados estratégicos do Irão, um país fulcral nas estratégias de longo curso para chineses e russos na Ásia Central, para não fornecerem armas, também a Teerão têm chegado diariamente aviões de carga oriundos de Pequim e de Moscovo...

É que já é uma convicção consolidada entre os analistas que se o frenesim diplomático em curso, envolvendo a Rússia e a China, e já nas próximas duas semanas, com uma visita de Trump à capital chinesa, não resultar numa solução negociada entre Teerão e Washington, o próximo passo será o regresso à guerra, e se tal suceder, a imprevisibilidade do seu curso é a única... certeza.

Em cima da mesa, os EUA têm a exigência de abertura incondicional do Estreito de Ormuz, a desistência do seu programa nuclear civil, a redução quase até à insignificância dos seus programas de misseis, e a dissolução dos laços com os seus aliados regionais, dos Houthis, do Iémen, ao Hezbollah, no Líbano, o que, a ser obtido, deixaria o Irão inapelavelmente á mercê do poderio militar de Israel que aproveitaria de imediato essa situação para esmagar o regime iraniano.

Já o Irão, pretende, o levantamento das sanções económicas a que está sujeito há décadas, o levantamento do bloqueio dos EUA no Mar de Omã, reaver as dezenas de mil milhões US em fundos congelados no exterior, manter o controlo sobre o fluxo naval no Estreito de Ormuz e obter garantias invioláveis de que não volta a ser atacado pela coligação israelo-americana ou outros aliados serventes de Washington.

O mundo espera que as partes encontrem uma solução equilibrada nas mesa das negociações, mas sabe que o mais certo é o regresso à guerra...