Isso, porque, mais uma vez, no limite de espirar o período do cessar-fogo de duas semanas acordado entre os EUA e o Irão, que seria perto da meio noite de terça-feira, o Presidente norte-americano anunciou uma extensão unilateral das tréguas.

Donald Trump justificou a concessão com os veementes apelos do Paquistão para que o cessar-fogo fosse prolongado de modo a dar oportunidade para que Teerão veja razões para aceitar enviar uma delegação a Islamabad onde Washington já anunciou que estará.

O problema é que os iranianos não acreditam em Donald Trump, como já explicou, uma e outra vez, o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, e o alto comando militar conjunto do Irão, onde a Guarda Revolucionária Iraniana (IRGC) põe e dispõe.

A desconfiança iraniana nos norte-americanos resulta de o país ter sido atacado duas vezes, em Junho de 2025, e agora a 28 de Fevereiro, quando decorriam negociações, e agora reforçada com o bloqueio naval que fere as regras do cessar-fogo e o ataque a um navio comercial iraniano, já esta semana, no Golfo de Omã.

Alias, este ataque ao cargueiro "Touska", de propriedade iraniana mas com carga chinesa, foi visto em Teerão, e também entre vários analistas, como um acto pensado propositadamente para impedir as negociações devido à sua "insensatez", como lhe chamaram as autoridades iranianas.

Alias, Abbas Araghchi veio de imediato dizer que os EUA estão a prolongar um cessar-fogo que já não existe porque "bloquear o acesso aos portos iranianos é um acto de guerra" e uma "violação flagrante" das tréguas, avisando que os iranianos "sabem muito bem como lidar com esta pressão (bullying) norte-americana".

Com isto, Teerão está a dizer que não treme com as ameaças de Donald Trump, que voltou a repetir horas antes de o cessar-fogo terminar e o prolongar no "minuto" anterior, que se os iranianos não cederem "todas as pontes e centrais eléctricas" serão destruídas.

O Irão não cedeu, Trump não bombardeou, pelo contrário, recusou na ameaça e prolongou o cessar-fogo, "para dar uma nova oportunidade aos iranianos" de cederem ás suas exigências que não mudaram em nada e sobre as quais Teerão já avisou serem "totalmente inaceitáveis".

O que uma e a outra parte querem é bem conhecido e não parece difícil de alcançar, visto que os EUA há muito que abandonaram a ideia de mudar à força o regime iraniano, de impor uma redução quase a zero do seu programa de misseis com capacidade dissuasora e abandonar as relações com os seus aliados regionais, Hezbollah, no Líbano, e Hoiuthis, no Iémen.

O que os EUA querem hoje é algo que o Irão ou já disse aceitar, que é não obter armas nucleares, ou que já existiam antes desta guerra, que era a abertura do Estreito de Ormuz, que apenas foi encerrado após os ataques da coligação israelo-americana, como, de resto, Teerão avisara que faria.

Então porque é que isso não basta aos EUA? Porque agora o Irão aceita abrir Ormuz mas com condições, impondo uma "portagem" como acontece, por exemplo, no Canal do Suez, no Mar Vermelho, como forma de obter verbas para reconstruir o pais dos atasques destas seis semanas.

E quanto ao programa nuclear, o Irão mantém que não quer obter ogivas atómicas, mas não desiste de enriquecer urânio para fins civis como é permitido pelos acordos internacionais e dezenas de países sem armas nucleares fazem...

Além disso, Teerão não abdica de ver levantadas as sanções que há décadas atrofiam a sua economia e quer que os mais de 10 mil milhões USD congelados em bancos no estrangeiro, por imposição dos EUA, sejam devolvidos...

Estas condições, como resume John Mearsheimer, um dos mais prestigiados especialistas em política internacional e professor da Universidade de Chicago, "não deviam sequer ser um problema", porque um acordo de paz significa que os países signatários deixam de estar em guerra e isso levaria, naturalmente, à extinção das razões para as sanções e para o congelamento de fundos no exterior.

O problema, explica Jacques Baud, antigo coronel da intelligentsia suíça e da NATO, e autor de vários livros sobre conflitos no Médio Oriente, é que se não é assim, parece muito que os EUA estão, mais uma vez, a procurar ganhar tempo estratégico para retomarem os ataques ao Irão.

E isso, no que também o major-general Agostinho Costa, concorda, em declarações ao Novo Jornal, é sustentado com o esforço hercúleo dos norte-americanos em fazer deslocar para a região, numa ponte aérea gigantesca, equipamento e militares que, ao que tudo indica, visam o avanço para uma operação terrestre de larga envergadura no Irão.

Estes analistas lembram que, inicialmente, Donald Trump tinha apontado para um cessar-fogo de 45 dias, considerado excessivo pelo Irão, especialmente para quem está bem intencionado em chegar a um acordo para acabar com a guerra, o que levou as partes a assentar em duas semanas de paragem nas hostilidades.

Alias, a IRGC, que é a estrutura militar iraniana que coordena todas as acções de guerra, já avisou que a próxima fase da guerra será totalmente diferente e mais devastadora, prometendo o seu porta-voz, tenente-coronel Ebrahim Zolfaqari, colocar em combate novos sistemas de misseis hipersónicos anti-navio e terra-terra.

Com essas novas armas, o Irão, lembrou a propósito Mohammad Marandi, professor da Universidade de Teerão e um dos mais conhecidos analistas iranianos, "retaliará olho por olho aos ataques dos EUA e de Israel, com apoio dos países seus aliados do Golfo Pérsico", referindo-se à Arábia Saudita e Emiratosn Árabes Unidos, Catar, Kuwait e Bahrein.

"Desta vez o Irão está disposto a garantir que não voltará a ser atacado, retaliando com devastação sobre Israel e os países do Golfo, destruindo as suas infra-estruturas energéticas e rodoviárias, e se for preciso, de dessalinização de água, sem as quais a vida é impossível nesta região, ainda para mais quando as temperaturas vão começar a subir para cima dos 40 e 50 graus", avança este analista próximo do Governo de Teerão e visto como a voz civil do que se pensa entre as autoridades de topo do regime iraniano.

Isto, quando em Washington, Donald Trump insiste que o Irão "vai aceitar um acordo de uma forma ou de outra", referindo-se ás negociações em Islamabad, ou sob a pressão dos bombardeamentos com que promete destruir o país se Teerão não aceitar as suas condições para colocar um ponto final a esta guerra.

Isto quando, igualmente, entre os agora ex-aliados mais famosos de Donald Trump, como Tucker Carlson, antigo pivot da FOX News, e um dos seu amiores apoiantes dentro do movimento MAGA (Make America Great Again), ou Joe Kent, ex-chefe do Departamento Nacional de Contraterrorismo, o acusam de estar "ao serviços dos interesses de Israel e não dos americanos".

Igualmente pesado para Trump foram as declarações de John Kerry, antigo secretário de Estado de Barack Obama, quando este, na semana passada, veio dizer publicamente que o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyhau, procurou convencer o Presidente na altura para declarar guerra ao Irão.

Kerry explicou que Barack Obama recusou liminarmente essa ideia de Netanyhau em plena Sala Oval, onde, garantiu, o chefe do Governo israelita já tinha tentado o mesmo com George W. Bush e depois voltou a tentar com Joe Biden, sem conseguir os seus intentos, porque esses Presidentes entendiam que não era do interesse dos EUA e dos norte-americanos.

"Benjamin Netanyhau só conseguiu convencer os EUA a envolverem-se numa guerra com o Irão, sem qualquer justificação, nem razão, quando Donald Trump chegou agora à Casa Branca", apontou Kerry, acusando-o de ser uma "ferramenta" ao serviço de Telavive, o mesmo que Joe Kent já tinha dito, acrescentando que o Irão não era nem é uma ameaça para os interesses dos Estados Unidos.

Perante este contexto, havendo ou não nova ronda negocial na capital do Paquistão, a incerteza sobre o desenho futuro desta guerra entre norte-americanos e israelitas contra o Irão, manter-se-á até que seja possível definir uma solução com garantias internacionais as quais Israel não tenha como derrubar para manter a "sua" guerra com os iranianos.