Em escassas quatro horas, já no fim do dia de segunda-feira, 04, os Emiratos Árabes Unidos accionaram as suas defesas antiaéreas contra misseis e drones... no fim "apenas" a refinaria de Fujairah foi parcialmente atingida e a verdade voltou a ser a maior vítima.
Foram notícias, no mínimo, ligeiramente exageradas, porque a paz ainda não está morta, seja porque o Irão não voltou a ser atacado pela coligação israelo-americana, que começou este conflito a 28 de Fevereiro, seja porque não se sabe quem atacou Fujairah.
O Irão, apontando para a ocorrência de uma operação de "falsa bandeira", que é quando um lado da guerra encena uma situação para culpar o adversário pela sua execução, neste caso direccionando as suspeitas para Israel, negou os ataques aos EAU.
O chefe do Comando Unificado Militar do Irão, que agrega as forças regulares do Exército, Marinha e Força Aérea e o Corpo da Guarda Revolucionária (IRGC), usou ainda de uma ambiguidade estratégica que lhe permite usufruir do resultado mas sem os louros.
Irão não confirma ataques aos EAU
O Irão não admite estar por detrás dos ataques, o que pode ter contribuído para a, por ora, contenção norte-americana, mas o general Ali Abdollahi sublinha que as explosões nos Emiratos são "resultado do aventureirismo norte-americano no Golfo Pérsico".
Com esta formulação, que ficou conhecida já nesta manhã de terça-feira, 05, o comando militar iraniano responde à "Operação Liberdade" lançada ontem por Donald Trump, também ela apresentada de modo ambíguo, que visa, ao que tudo indica, assegurar o trânsito internacional pelo Estreito de Ormuz quer o Irão aceite, quer não.
Para já, os dois lados da barricada contradizem-se em todos os sentidos da rosa-dos-ventos, com os EUA a garantirem que os navios que estavam encalhados no Golfo Pérsico estão a passar o Estreito de Ormuz de oeste para este...
O Irão anunciou que nada passa nem de oeste para este nem de este para oeste da passagem marítima que liga o Golfo Pérsico ao Mar de Omã (Oceano Índico).
E Teerão avançou ainda que dois navios de guerra dos EUA que estavam a navegar nas suas proximidades foram atacados por estarem a violar o cessar-fogo que "vigora" há 4 semanas, o que prontamente foi negado pelo Comando Central americano (CentCom).
A verdade foi, como sempre, a primeira vítima
Neste jogo de espelhos onde a verdade fica diluída na falta de "luz", os EUA anunciaram ainda terem afundado várias lanchas rápidas iranianas que atacavam navios comerciais, com Teerão a responder acusando os americanos de estarem, de novo, a atacar embarcações civis, matando cinco pescadores ou comerciantes de cabotagem.
O único facto que não oferece dúvidas é que a refinaria de Fujairah, nos Emiratos, localizada na costa do Mar de Omã (ver foto), esteve longas horas a arder. Levando o fogo aos marcados petrolíferos que, nesta terça-feira, 05, ainda estão quentes com o barril bem acima dos 100 USD, apesar de uma ligeira correcção em baixa.
Para já, os únicos ataques retaliatórios contra o Irão saíram do Concelho dos Países do Golfo (GCC, sigla em inglês), com sauditas, kuwaitianos e cataris a condenarem o lançamento de misseis e drones contra o vizinho EAU.
O que quer Trump?
Analistas como Douglas MacGregor, antigo coronel do Exército dos EUA, com várias missões no Iraque e no Afeganistão, e ex-conselheiro da primeira Administração Trump, Wsshington está numa espécie de limbo sem saber o que fazer para sair deste imbróglio para onde os EUA foram empurrados por Israel.
Isto, porque se quisessem uma justificação para reatar os ataques ao Irão, como o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyhau, já disse estar apenas à espera de um sinal da Casa Branca, quando Teerão diz que atacou dois navios de guerra dos EUA, Donald Trump tinha essa justificação traduzida por um "casus belli".
Não o fez por duas razões, como se pode apreender, em síntese, de um conjunto alargado de analistas; ou porque Trump não pode esticar mais a corda eleitoral face às eleições intercalares de Novembro, devido ao impacto devastador desta guerra na economia...
... seja porque os EUA e Israel, como fica claro nas próprias declarações oficiais do Pentagono e da Casa Branca, estão sem munições quer para a defesa antiaérea, quer de ataque, levando mesmo à interrupção das exportações de armas para a Europa e para os aliados asiáticos.
Jacques Baud, antigo coronel e oficial de intelligentsia suíço e da NATO, nota que se os EUA optarem agora por uma nova vaga de ataques ao Irão, de forma a, como voltou a dizer Donald Trump, "varrer este país do mapa", só terão munições para "quatro a cinco dias de ataques intensos".
As implicações geoestratégicas
Além disso, os estrategas de Washington, como acrescenta Larry Johnson, antigo analista da CIA, tal como Baud e MacGregor, em diversos podcasts no YouTube, procuram afanosamente convencer Trump a conter-se em novos ataques ao Irão porque isso pode levar a uma liquefação dos laços entre os EUA e os países do GCC, parceiros fundamentais no Golfo Pérsico que Washington não pode perder.
Mas tal poderá suceder porque estes, especialmente a Arábia Saudita, o Kuwait e o Catar, há muito que imploram a Donald Trump para acabar com esta guerra devido aos efeitos colaterais sobre as suas sociedades e economias.
E não é para menos, visto que o Irão tem, repetidamente, feito saber que todos os países com bases norte-americanas, que são todos eles, alguns com várias, e, logo, aliados activos dos EUA, são alvos legítimos no âmbito da sua estratégia de retaliação.
Desde logo as bases militares presentes nos seus territórios (ver links em baixo), mas também as infra-estruturas energéticas e civis, como centrais de dessalinização, em resposta-espelho aos ataques a este tipo de unidades no Irão pela coligação israelo-americana.
Por outro lado, Donald Trump e os seus conselheiros militares sabem que a partir do mês de Maio, como tem sublinhado Sayed Marandi, professor da Universidade de Teerão, ouvido por diversos media, as temperaturas nesta parte do mundo atingem níveis insustentáveis para homens e máquina num campo de batalha.
Este analista lembra que todas as guerras lançadas pelos americanos nesta parte do mundo, seja no Iraque ou no Afeganistão, ou mesmo na Síria, ocorrem nos meses mais frios, porque inclusive o equipamento militar soçobra aos mais de 50 graus centígrados à sombra diários.
A arma da água potável e a China à espreita
Outro factor que pode estar a inibir os norte-americanos é que se o Irão, como já avisou estar no seu mapa de alvos nos países do Golfo e de Israel, atacar as centrais de dessalinização de água do mar, das quais todos eles dependem entre 70% e 80%, e nalguns casos, como Kuwait e Catar, em mais de 90%, a vida fica impossível e milhões de pessoas terão de partir para fora da região.
"O Presidente dos EUA sabe disto e sabe que se avançar para uma invasão terrestre do Irão, as consequências serão dramáticas para os seus aliados na região, bem como para os militares que terão de aguentar um clima insustentável para a vida humana se não se for natural destas geografias", avisa Sayed Marandi.
A questão da invasão terrestre é dada como certa por vários analistas, incluindo o major-general Agostinho Costa, que em declarações ao Novo Jornal afirmou ser "esse caminho o mais certo", sob a justificação de que os EUA fizeram deslocar uma máquina de guerra de tal dimensão que esse é o desfecho mais natural.
Com efeito, os analistas, incluindo o coronel Douglas MacGregor, notam que a deslocação da actual máquina de guerra americana na região já ultrapassou o patamar do que poderia ser uma forma de pressão para levar Teerão a ceder na mesa das negociações.
E ainda mais condizente com a ideia de uma invasão terrestre, ou múltiplas operações terrestres limitadas, devido ao clima agreste nesta altura do ano, é que a ponte aérea de C-5 Galaxy, os maiores aviões de carga do mundo, decorre sem interrupções há largas semanas.
E já estarão nesta geografia, coincidem nessa ideia MacGregor e Jacques baud, "mais de 60 mil soldados", na maior parte forças especiais e de elite, como os Delta, Rangers, Seals ou as forças expedicionárias do Indo-Pacífico e da 82ª Divisão Aerotransportada (paraquedistas).
Que evolução teremos pela frente nos próximos dias, ninguém pode dizê-lo com segurança mínima, mas há uma coisa que se sabe e foi o próprio Donald Trump que o disse: o Presidente dos EUA quer chegar à China, no dia 14 de Maio, com uma vitória clara para "oferecer" ao seu homólogo Xi Jinping, que seria a reabertura incondicional de Ormuz e a redução à insignificância do programa nuclear iraniano.
Trump rejeita nova proposta de paz iraniana
O novo plano de paz iraniano, desenhado com 14 pontos, onde Teerão resume aquilo que já se sabe, mas introduz um novo calendário para chegar a conclusões, nomeadamente atirar a questão do seu programa nuclear para uma fase posterior, e dar um mês sem guerra para resolver o problema do Estreito de Ormuz, foi já rejeitado por Donald Trump.
O Presidente dos EUA mantém que quer tudo e de uma só vez, que é eliminar o programa nuclear iraniano totalmente, exige que Teerão lhe entregue o urânio enriquecido a 60%, ainda abaixo do nível militar, mas perigosamente próximo, e a reabertura sem condições do Estreito de Ormuz.
Teerão considerou, de novo, depois de receber a resposta norte-americana, que os EUA não percebem que é impossível vergar o Irão que as suas exigências maximalistas só conduzem ao perigoso impasse em que se está.
Face a esta resposta, os iranianos não apenas se recusam a aceitar reabrir Ormuz sem condições, menos ainda abdicar do seu programa nuclear civil, nem pensar em limitar o potencial do seu programa de misseis balísticos e hipersónicos...
E o chefe do Comando Unificado, general Ali Abdollahi, voltou a avisar que qualquer atasque norte-americano ou israelita, terá uma resposta imediata e advertiu que o Irão tem "umas surpresas para Washington" guardadas, aconselhando Trump a afastar ainda mais os seus navios de guerra da costa iraniana.









