Mas se a declaração de António Costa foi surpreendente, ao dizer que a Europa ocidental tem de começar a preparar-se para regressar ao diálogo com a Rússia, a do chanceler alemão deixou quase todos de boca aberta.

É que Friedrich Merz, numa altura em que já quase ninguém, entre os media internacionais mais relevantes, tem a guerra da Ucrânia nas suas páginas principais, voltou a chamar as atenções para este conflito com apenas duas frases.

"A Ucrânia tem de se preparar para ceder territórios porque é urgente acabar com a guerra e esse será o passo essencial para a sua entrada na União Europeia", foi uma das suas frases, a outra foi quando o líder alemão disse que falar com Moscovo é agora vital para a Europa.

Como cereja no topo do bolo, embora com mais ironia, o primeiro-ministro eslovaco, Robert Fico, um dos poucos, além do húngaro Viktior Orban, que sai agora de cena por ter perdido as eleições, que nunca deixou de falar com Putin, veio agora expor a verdade.

E para isso recorreu às "conversas de casa de banho" onde todos os líderes europeus que o criticavam fortemente em público por falar com Putin, o seguiam de forma a lhe poderem perguntar "o que é que o Putin tinha dito" sem dar nas vistas.

O que este momento estranho na diplomacia europeia revela é que os líderes do bloco dos 27 estão entre a espada e a parede ao verem as suas economias colapsar devido às consequências da guerra na Ucrânia que aceleraram agora com o conflito no Golfo Pérsico.

É que a inflação está a disparar em todos os países devido à subida do preço dos combustíveis no rasto dos efeitos do fecho do Estreito de Ormuz, que além do petróleo e do gás, mantém fora dos mercados milhões de toneladas de compostos vitais para fertilizantes agrícolas dos quais a agricultura europeia é dependente.

E é precisamente o efeito cumulativo das sanções europeias à energia russa, barata e abundante, que antes da guerra permitiam à indústria alemã, francesa ou italiana serem altamente competitivas, com as falhas geradas nos mercados pela guerra lançada pelos EUA e Israel contra o Irão, que está a desesperar as lideranças em Bruxelas.

O problema está a ganhar dimensões tais que no último Conselho Europeu, que teve lugar há dias no Chipre, o seu presidente, António Costa, anunciou que vai começar a explorar formas de retomar o diálogo com a Federação Russa sobre a Ucrânia.

Neste anúncio, que muda radicalmente a estratégia da Europa Ocidental para com a Rússia, pelo menos aparentemente, Costa contou mesmo com a ajuda do Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, que não apenas o apoiou mas também pediu aos 27 que se preparem para falar com Vladimir Putin.

A toda esta metamorfose diplomática de Bruxelas para Moscovo não é, seguramente, alheio o facto de o Presidente norte-americano estar há longos meses, praticamente desde que regressou à Casa Branca, em Janeiro de 2025, a tirar o pé da Europa.

E se o envio de armas para a Ucrânia já tinha sido colocado em mínimos dos quatro anos de conflito entre russos e ucranianos, agora Donald Trump pode ter dado um golpe fatal nas aspirações ucranianas de conseguir sair desta guerra com um acordo razoável.

É que os EUA não só deixaram de fornecer armas e dinheiro a Kiev, também acabam de anunciar, através do seu Presidente, que a Europa, inclusive os seus aliados na NATO, vão deixar de receber armas norte-americanas.

A justificação de Trump é que os EUA precisam urgentemente de repor o que saiu dos seus arsenais, que foram quase até zero, primeiro com o conflito no leste europeu, e agora com a guerra com o Irão, o que tem um efeito paralelo devastador para os ucranianos.

É que até aqui, os EUA apenas deixaram de entregar armas a Kiev, mas forneciam-nas aos europeus, que, por sua vez, as adquiriam para entregar a Zelensky. Tudo acaba de mudar, porque sem o material militar americano, a Ucrânia fica no limite da capacidade de resistir aos ataques russos.

Esta medida de Trump pode ser ainda mais dramática porque, quase ao mesmo tempo, anunciou a retirada de 5 mil militares norte-americanos estacionados na Alemanha, o que não sendo muitos, entre dezenas de milhares na Europa, é um sinal que acentua a distância de visões entre americanos e europeus.

Isto, quando Vladimir Putin anunciou um cessar-fogo temporário, no quadro das comemorações do Dia da Vitória, a 09 de Maio, sobre a Alemanha nazi, em 1945, que surge em circunstâncias extraordinárias neste conflito devido aos êxitos ucranianos nos ataques sucessivos a refinarias e portos de carga na Rússia.

Além disso, a Ucrânia tem apostado na perseguição à denominada "frota fantasma" que a Rússia usa para levar crude aos quatro cantos do mundo escapando às sanções ocidentais, especialmente aquelas que incidem sobre as seguradoras para o transporte de energia.

Há, porém, um ponto ainda sob análise dos especialistas que é o telefonema feito por Vladimir Putin a Donald Trump após a visita do ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros, na passada semana, onde, pelo menos nas horas seguintes, cresceu a expectativa de que a paz no Golfo Pérsico estaria mais próxima com a eventual mediação russa para aquele conflito, embora hoje a realidade sejam relativamente distinta.

Telefonema esse que pode ter movido Trump em direcção a uma redução do apoio à Ucrânia, cortando o acesso a novas armas aos aliados europeus de Kiev, mas também a decisão de Putin usar a sua influência para convencer o Irão a amolecer a sua posição negocial com os EUA para acabar com o conflito no Médio Oriente.

No que toca ao conflito entre ucranianos e russos, a expectativa está agora em perceber qual o potencial do cessar-fogo proposto pelos russos para 09 de Maio na busca de uma solução negociada para este conflito, considerando a mudança de agulha na Europa face a Moscovo.

Desde logo o que disse o chanceler alemão, Friedrich Merz, sobre a cedência territorial ucraniana como condição para acabar com o mais longo, devastador e letal conflito na Europa desde 1945 cujas consequências se vão espalhar pelas próximas décadas neste continente.