Nesta publicação, o Presidente dos Estados Unidos avisa que os navios da Marinha de Guerra norte-americana vão passar a escoltar os petroleiros e cargueiros que estão há dois meses impedidos de atravessar o Estreito de Ormuz por imposição iraniana.
E a resposta do Comando Conjunto do Irão, que junta o Exército, Marinha e Força Aérea e a Guarda Revolucionária (IRGC) foi imediata e desafiadora: "O Irão mantém o controlo total do Estreito e todos os navios que o atravessarem sem autorização serão atacados".
Este aviso é dirigido tanto às embarcações comerciais, cargueiros, petroleiros e metaneiros, como aos navios de guerra dos EUA que, segundo Donald Trump, vão escoltar todos aqueles que o Irão estiver a impedir o trânsito nesta passagem estratégica.
"O Irão quer a paz mas está totalmente preparado para a guerra e tem muitas surpresas preparadas para os Estados Unidos", avisou o chefe do Comando Unificado iraniano, general Ali Abdollahi, citado pela Al Jazeera.
Na mesma declaração aos media iranianos, o general Ali Abdollahi avisa que "todos os navios dos EUA serão atacados se se aproximarem do Estreito de Ormuz", fazendo ainda saber que os navios comerciais terão o mesmo destino se atravessarem sem autorização esta passagem marítima.
Logo após a publicação do Presidente norte-americano, o Comando Central dos EUA (CentCom), que rege a operação militar em curso no Golfo Pérsico, confirmou a ordem emitida aos navios de guerra na região.
De acordo com as coordenadas divulgadas por Donald Trump, a Marinha norte-americana passa , a partir desta segunda-feira, 04, ao serviço de todos os navios que não tenham autorização iraniana para transitar de e para o Golfo Pérsico.
"Países de todo o mundo pediram aos EUA ajuda para libertar a passagem no Estreito de Ormuz para as suas embarcações que estão retidas apesar de nada terem a ver com as disputas em curso naquela região", avançou Trump.
Acrescentando na mesma nota que, perante esse pedido feito aos EUA, deu ordens para que os navios de guerra que estão na região "guiem de forma segura estas embarcações comerciais através daquela passagem" protegendo-os da ameaça iraniana.
Batizada de "Projecto Liberdade", esta operação norte-americana, apesar da retórica "soft" de Trump, no sentido de que se trata de navios de países sem qualquer ligação ao conflito, tem, porém, tudo menos inocência no seu "ADN".
Desde logo, porque, a partir do momento em que fechou o Estreito de Ormuz, no início de Março, após o ataque lançado pela coligação israelo-americana contra o Irão, avançando para a guerra a meio de negociações, o Irão avisou que só navios autorizados passariam.
Aviso que manteve sempre activo até agora, excepto algumas horas quando, há cerca de três semanas, foi anunciado um cessar-fogo pelos EUA, que levantou sob a condição de Trump levantar o bloqueio naval ao Irão no Mar de Omã, o que não foi feito e Ormuz voltou a encerrar.
Ormuz não era importante para os EUA...
Isto acontece depois de Trump ter dito e repetido que a abertura de Ormuz era responsabilidade dos países que mais sofrem com o seu encerramento, como os europeus e asiáticos, exigindo-lhes que formassem uma coligação naval com esse fim.
Ninguém cedeu ao repto lançado em Washington, porque, como fizeram saber os países europeus, o Estreito de Ormuz sempre esteve aberto até ao momento em que os EUA atacaram o Irão, sendo, por isso, um problema que os norte-americanos têm de resolver.
Na publicação de Trump está contido ainda outro ponto curioso, que é, pela primeira vez, é feita uma referência às condições das tripulações que estão há dois meses nos navios bloqueados no Golfo Pérsico onde já falta comida e água potável, o que permitiu ao Presidente dos EUA enquadrar esta nova fase numa "perspectiva humanitária".
Igualmente curioso, como notam vários analistas, é que esta medida, que tem todos os ingredientes para ser a base para a retoma dos confrontos, surge quando o Irão fez chegar a Donald Trump uma nova e inovadora proposta negocial com 14 pontos.
Proposta que Donald Trump já leu e já enviou a resposta a Teerão, mas sobre a qual ainda pouco se sabe, excepto que o próprio, antes de responder aos iranianos, disse aos jornalistas que "muito dificilmente os EUA poderão aceitá-la".
Com o impasse a ganhar raízes, mantendo-se o Estreito de Ormuz fechado, com os mercados energéticos cada vez mais desconfiados, mantendo-se o barril de crude acima dos 100 USD, 110 USD o Brent em Londres e 103 o WTI em Nova Iorque, os sinais são cada vez mais evidentes de que a guerra será retomada em breve.
Outra curiosidade foi o início dos exercícios militares anuais co-organizados entre os EUA e Marrocos, com a participação de vários países do continente, que começaram a 27 de Abril e terminam a 08 de Maio, este ano focados no treino de operações de desembarque e de abertura de áreas livres (testas de ponte) com emprego de tropas especiais para invasões terrestres num território com semelhanças orográficas com partes do Irão.
Além disso, nas últimas horas foi conhecida a autorização de venda pelo Congresso dos EUA de mais de 9 mil milhões USD em sistemas de defesa antiaérea e municções a Israel e aos paises árabes do Golfo Pérsico onde os norte-americanos possuem bases militares, o que alguns analistas apontam como um sinal de que as hostilidades estão perto de ser retomadas.
Isto, quando vários analistas, como o Novo Jornal tem avançado (ver links em baixo), apontam como "o mais certo" ser que a gigantesca máquina de guerra deslocada pelos EUA para as imediações do Irão signifique o avanço para uma invasão terrestre ou operações terrestres especificas e exigentes do ponto de vista do apoio e coordenação logística.
Outros analistas notam que este anúncio de Trump aparece quando as normas legais que regem o Congresso dos EUA exigem que ao fim de 60 dias este renove a autorização e financiamento para continuar operações de combate no estrangeiro.
Ora, isso já aconteceu e obrigou o Presidente Donald Trump a anunciar que "a guerra acabou", o que lhe retira espaço de manobra para manter o Irão sob ataque sem uma causa sólida por detrás, que seria conseguida caso os iranianos atacassem um navio de guerra dos EUA.
E isso é quase certo que vai acontecer se, como anunciou Trump na sua rede social, os navios da Marinha norte-americana passarem a escoltar navios comerciais entre o Golfo Pérsico e o Oceano Índico, porque a IRGC atacá-los-á de imediato, "oferecendo" assim o casus belli ao Presidente norte-americano para recomeçar a guerra do "zero".
A imediata evidência de que este momento está a ser aproveitado para isso é que Donald Trump, mesmo entre as suas sucessivas incoerentes declarações, manteve sempre a ideia de que o Estreito de Ormuz é mais importante para a Europa e para a Ásia que para os EUA.
Isto, devido à sua dependência do petróleo e do LNG dos países do Golfo, desde logo o gigante mundial da produção de crude que é a Arábia Saudita, e do gás que é o Catar, além dos fertilizantes, alumínio e hélio (indústria dos microchips) quem são já ameaças à vitalidade da economia global.
O novo plano de paz iraniano
Este novo road map iraniano para a paz, que foi enviado a Donald Trump via Paquistão, está assente em três etapas, sendo a primeira a ideia de que é possível elevar o actual cessar-fogo à condição de "fim da guerra" com as partes a aceitarem que as negociações são a única via para a resolução dos problemas,
Esta nova realidade - um "pacto de não-agressão" que inclui os aliados do Irão e Israel - seria garantida por uma entidade internacional com autoridade assistida pelas próprias partes, de forma a assegurar que não há um regresso à guerra, o que faz todo o sentido visto que os EUA e Israel já atacaram, de surpresa, o Irão por duas vezes a meio de negociações.
Assim que esta garantia estiver activa, Teerão compromete-se a abrir o Estreito de Ormuz gradualmente e, com o tempo, criar um mecanismo de supervisão desta passagem estratégicas, não se opondo ao "apoio" norte-americano na sua implementação, sendo, ao mesmo tempo, gradualmente levantado o bloqueio dos EUA aos portos iranianos.
A passagem por Ormuz ficaria sujeita a uma "portagem" que seria destinada à reparação de danos de guerra causados pelos ataques da coligação israelo-americana; ainda que os EUA anulam o estado de mobilização militar na região.
Com estes pontos em plano funcionamento, as partes, Irão e EUA, voltam à mesa das negociações sobre o programa nuclear iraniano, começando com Teerão a suspender por 15 anos todo e qualquer processo de enriquecimento de urânio, findo este prazo, o enriquecimento seria limitado ao mínimo para uso civil.
Ao mesmo tempo, as partes negociariam o destino do urânio que o Itão já tem enriquecido, seriam definidos os passos a dar para levantar as sanções internacionais ao Irão, o descongelamento dos fundos iranianos no estrangeiro.
Para a terceira fase, este plano de 14 pontos prevê que o Irão e os seus vizinhos, desde logo os petroEstados árabes do Golfo Pérsico, iniciariam um processo de criação de uma ordem regional de segurança que abrangeria todo o Médio Oriente, o que levaria ao fim dos conflitos regionais, desde logo o fim da agressão israelita na Palestina e no Líbano.








