Em menos de 48 horas, os norte-americanos atacaram por duas vezes unidades militares iranianas nas imediações do Estreito de Ormuz, na cidade portuária de Bandar Abbas, e já nesta manhã de quinta-feira, 28, ficou-se a saber que o Irão ripostou.

Por três vezes os EUA traíram o cessar-fogo iniciado iniciado em Abril após semanas devastadoras para iranianos, países árabes do Golfo Pérsico com bases americanas ali existentes, e Israel, mas esta foi a única com uma reacção musculada iraniana.

Com efeito, segundo os media iranianos, após o segundo ataque sobre Bandar Abbas, pelo menos um míssil balístico e quatro drones foram disparados contra a base dos EUA no Kuwait, onde, alega Teerão, foram coordenados os ataques.

O primeiro efeito desta insistência norte-americana em não deixar florescer a paz no Golfo Pérsico foi nos mercados petrolíferos, que já estavam a estacionar próximo dos 90 USD e voltam a dirigir-se de novo para a fasquia dos 100 USD por barril de Brent.

A razão alegada para este retomar das hostilidades por parte dos EUA, quando em Teerão os media estatais já apontavam para um acordo mínimo sobre o conteúdo de um "memorando de entendimento", foi "a necessidade auto-defesa", num momento em que Donald Trump já tinha voltado a surpreender ao anunciar que uma cordo não é suficiente para acabar a guerra, tem de ter "um extraodinário acordo".

A necesidade de auto-defesa é um argumento que só o Presidente dos Estados Unidos e os seus comandantes militares conhecem, porque não há registo de que o Irão tenha violado o cessar-fogo em vigor há perto de dois meses, embora alguns analistas comecem a vigiar de perto a importância do controlo de Ormuz. E o que é para Trump um "extraodinário acordo" também só ele sabe.

Ao que se pode perceber pelas últimas publicações de Donald Trump na sua rede social Truth Social, este pretende que o Irão ceda totalmente na sua ambição de manter um controlo partilhado com Omá sobre o Estreito de Ormuz e quer ainda que os iranianos admitam uma redução quase a zero da sua capacidade de manter um programa nuclear civil.

Só com essas exigências cumpridas é que, sabe-se agora, os EUA admitem levantar o bloqueio naval ao Irão e libertar uma parte dos fundos congelados no exterior bem como eliminar as pesadas sanções económicas que já perduram há décadas sobre Teerão.

É que, apesar de Trump, bem como o seu secretário de Estado e Conselheiro para a Segurança Nacional, Marco Rubio, ter sublinhado por diversas vezes nestas semanas, e mesmo durante o conflito aberto, que os EUA não precisam do Estreito de Ormuz, tudo indica o contrário no seu comportamento actual.

Isso mesmo defendem analistas como John Mearsheimer, da Universidade de Chicago, que nota ser insustentável politicamente para Trump o efeito na economia dos EUA não ter aquela passagem marítima aberta.

Ou Samir Puri, do Kings College de Londres, citado pela Al Jazeera, defendendo que Washington precisa tanto do Estreito de Omuz livre de qualquer controlo iraniano que está disposto a correr o risco de um reatar do conflito.

Outra razão aduzida por Puri é que aquela passagem marítima escoa 20% do crude e do gás consumidos globalmente, além de diversas matérias-primas estratégicas, como os fertilizantes, e é um dos pilares que garante vantagens negociais a Teerão se Trump ceder.

Também o major-general Agostinho Costa admite, nas suas análises na CNN Portugal, que pelo Estreito de Ormuz vai passar uma boa parte do futuro acordo, deixando em perspectiva que é de tal forma estreita esta passagem que nela pode ficar entalada a paz.

Outro factor comummente referido por analistas que se podem ouvir nos media alternativos, fora do guião alinhado com Washington, como Douglas MacGregor, antigo coronel dos EUA e conselheiro da primeira Administração Trump, é a influência do lobby israelita em Washington sobre as decisões da Casa Branca.

Este analista nota ainda que os objectivos de norte-americanos e israelitas neste conflito são incompatíveis, porque se Telavive só admite o colapso do regime em Teerão, para Washington, pelo menos na retórica em uso, trata-se de uma guerra para garantir que o Irão não obtém uma arma nuclear e, agora, o Estreito de Ormuz se mantém livre.

O que faz com que sejam incompatíveis é que o que Israel pretende é impossível sem uma invasão terrestre dos EUA, que seria a maior tragédia da história moderna dos norte-americanos, ou com um ataque nuclear, enquanto o que Donald Trump exige está no campo do negociável.

Este novo reacender da fornalha no Golfo Pérsico não é, para já, o reinício da guerra aberta, mas se estas demonstrações de poder para forçar condições na mesa das negociações se mantiverem, uma pequena faísca pode levar de novo as chamas ao capim seco.

E isso parece ser o entendimento dos mediadores entre Teerão e Washington, porque as autoridades de um e de outro país ainda não chegaram á fala directa desde que a 28 de Fevereiro a coligação israelo-americana começou esta guerra sem qualquer justificação razoável conhecida.

A não ser a alusão antiga e gasta do "papão" dos aiatolas que querem destruir Israel e fomentam o terrorismo global... acusações sem alicerces que as aguentem historicamente porque o Irão não ataca um país vizinho há séculos, literalmente, mas os EUA e Israel têm uma longa lista de vítimas conhecidas na região: Líbano, Síria, Iraque, Líbia, Afeganistão...

Quase à margem deste xadrez complexo decorre a guerra no Líbano, onde Israel aumenta a pressão sobre o sul deste país terraplanando localidade após localidade com bombas alegando combater o Hezbollah, embora se trate de uma ocupação territorial e que o Irão exige integrar num futuro acordo de cessar-fogo.

O que deixa em aberto a possibilidade de Donald Trump estar a criar estas "dificuldades" do nada apenas para ganhar tempo ao seu amigo e primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyhau, de modo a que este possa acabar a tarefa de consolidar a ocupação da parte sul libanesa entre o Rio Litani e a fronteira israelita, uma antiga e persistente aspiração de Telavive.