O "super El Niño", que trará ao mundo este ano de 2026 secas extremas e inundações abruptas, com o sul de Angola no mapa de risco agravado, é já um sintoma da doença que afecta o Planeta Terra há décadas e se agrava ano após ano e para a qual não há vacina: as alterações climáticas.
Agora, além de ter pela frente aquele que pode ser o mais grave episódio climático resultante das alterações climáticas, o mundo terá de começar a preparar-se, avisa o painel de a Atualização Climática Global Anual a Decenal, da Organização Meteorológica Mundial (OMM), para anos seguidos de aumentos recorde de temperatura.
A OMM aponta, no seu último relatório, para a sequência de quatro anos, de 2026 até 2030, com as temperaturas médias globais anuais junto à superfície entre 1,3°C e 1,9 acima da média da era pré-industrial, entre 1850 e 1900, que é a época em que teve início a poluição em grande escala gerada pelos combustíveis fósseis.
Apesar de para o cidadão comum, 1,5º C acima da temperatura média não parecer excepcionalmente grave, a verdade é que o Planeta está numa situação de fragilidade climática que qualquer anomalia gera consequências devastadoras, desde logo nas correntes marítimas, que são o regular global da temperatura ambiente.
E isso é o que está na génese do conhecido fenómeno El Niño, ou o seu inverso, o La Niña, que resultam de um sobreaquecimento das águas do Oceano Pacífico, ou o seu arrefecimento anormal, que vão influenciar todo o clima planetário, gerando mudanças nos ventos, nas correntes dos oceanos, que são os condimentos para a receita da tragédia que nos espera.
Desde logo secas extremas e prolongadas, em regiões como o sul da Europa, o oeste das Américas, Austrália ou a África Austral, onde o sul de Angola é uma região sobejamente exposta a este fenómenos, secas extremas com o El Niño e cheias devastadoras com La Niña.
A OMM, a agência da ONU para o clima, estima que a situação da "doença" climática planetária se venha a agravar exponencialmente com as secas a serem o combustível perfeito para os períodos mais secos que se sucedem uns aos outros...
O "menino" que não é bem-vindo
E é neste caldo dramático que um "super El Niño", o mais severa desde 1887, segundo os cientistas climáticos, tem chegada prevista ao sul do continente africano para finais de 2026.
E, com ele, secas prolongadas que podem gerar uma crise humanitária de proporções raramente vistas pelo seu impacto na agricultura. Nalguns países já se prepara a sua chegada com a criação de reservas alimentares estratégicas.
Este cenário pessimista é suportado pelos dados de organizações como a Administração dos EUA para a Atmosfera e Oceanos (NOAA) e a Organização Mundial Meteorológica da ONU (WMO), que apontam a África Austral como uma das regiões pintadas a vermelho no mapa do risco global.
Todos os especialistas, com raras excepções, defendem que os países com risco acrescido de serem impactados por este fenómeno que resulta do sobreaquecimento das águas do Oceano Pacífico, que altera ventos e correntes marítimas em todo o mundo, devem agora preparar-se para o pior.
É que, se se vier a confirmar, um efeito semelhante ao que é agora esperado só há registo conhecido em 1877, quando o ainda não baptizado "El Niño", provocu fome generalizada em praticamente todo o mundo, matando mais de 50 milhões de pessoas, 4% da população mundial em finais do século XIX.
E este gigantesco "El Niño", previsto para este ano, resultado directo das alterações climáticas, se ocorrer aliado aos efeitos da guerra no Médio Oriente, onde o fecho do Estreito de Ormuz está a retirar de circulação compostos vitais para fertilizantes em todo o mundo, tem tudo, alertam os especialistas, para ser um pesadelo para vários países.
E os da África Austral, da América do Sul, com destaque para o Brasil, ou na Oceânia, com a Austrália na linha da frente, só para citar alguns exemplos, são quem deve, de acordo com especialistas e organizações internacionais, tomar precauções mais sérias, desde logo antever uma provável escassez alimentar por causa da redução da produção agrícola imposta seja pela seca extrema e prolongada, seja por inundações abruptas.
E já há alguns sinais de que em países na linha da frente deste graúdo "El Niño" estão a ser pensadas estratégias para lidar com problemas daí resultantes, como na Europa, onde, sem mencionar as razões, se começa a falar da reconstrução de reservas alimentares estratégicas, sendo Portugal um desses exemplos, visto que o sul da Europa é outra geografia de risco.
Quanto à África Austral, de que Angola faz parte, embora com exposição mais acentuada nas suas províncias do sul, nas últimas duas décadas, não faltam exemplos dos efeitos nefastos deste tipo de fenómeno climático (ver links em baixo), com secas sem fim e inundações súbitas e trágicas.
Por detrás deste efeito em acelerado crescimento estão os registos feitos nas águas do Oceano Pacífico, com subidas de temperaturas, como avança a BBC, recorde, estando actualmente 0,5º graus acima do normal, o que para os medidores usados para efectiuar previsões é só por si um cenário pouco animador, sugerindo um aquecimento claramente anormal.
Segundo dados do NOAA, e da WMO, as medições actuais apontam para um aquecimento das águas do Pacífico em aceleração e o pico deste efeito deverá ser sentido no último trimestre de 2026 e início de 2027, ano que não deverá escapar ao recorde do ano mais quente de sempre.
Citado pelas agências, Nathanial Johnson, técnico da NOAA, considera estar-se perante "uma ocorrência rara" que se se mantiver na actual evolução levará inevitavelmente a um super "El Niño", com consequências que é cedo para antecipar com relativa precisão mas que pode ser ainda pior que as actuais previsões mais alarmistas.
Isso mesmo deixa perceber o BoM, o Instituto de Meteorologia da Austrália, que usa critérios de previsão distintos dos seus congéneres internacionais, apontando para uma subida da temperatura da água do Pacífico em 0.8ºC.
Para piorar este cenário, o BoM avança que já registou uma mudança na direcção dos ventos anormal no Pacífico, o que significa que este fenómeno já está a produzir alterações e a influenciar a atmosfera.
