Neste Cacimbo meio estranho, desses que já não sabemos se é mesmo Cacimbo ou se é o clima a dar-nos o troco, o céu azul, o ar seco, as temperaturas baixam um pouco por todo o País, criam o cenário perfeito. E as queimadas não falham: todos os anos, nesta altura, Angola arde. As autoridades sabem. Os ambientalistas sabem. Até os sobas sabem. As queimadas são recorrentes, não é uma coisa nova. Nos últimos anos, têm sido mais frequentes e deixaram de lavrar apenas a mata. Agora têm impacto sobre infra-estruturas, sobre estradas, sobre pontes. E, pior, sobre vidas humanas.
O que está em causa? Florestas a arder. Fauna a ser devastada. Queimadas anárquicas para a prática da agricultura e da caça furtiva. Estas queimadas são feitas de forma desregrada.
O argumento cultural é o mais usado. É tradição, dizem. É a caça, é a abertura de campos agrícolas, é a renovação dos pastos. Mas o que era tradição quando os sobas coordenavam as queimadas com regras, com aceiros, com respeito pelo tempo certo, hoje é anarquia. O que era prática ancestral passou a ser destruição gratuita. A tradição morreu. O que ficou foi o hábito.
As queimadas são proibidas por lei, mas o País arde e ninguém é responsabilizado. Os sobas pedem poderes para multar; as autoridades não agem; os incendiários continuam impunes. Não é cultura, é prevaricação. É preguiça, pois as queimadas são usadas para limpar a terra. É um crime ambiental. É destruição de património nacional. E enquanto não houver fiscalização, enquanto não houver multas, enquanto não houver vontade política para enfrentar o problema, Angola continuará a arder e a perder, todos os anos, uma parte de si mesma. Só não quer ver quem não quer. E enquanto não o virmos e não o apagarmos, continuaremos a queimar o nosso futuro.
