E não há forma de perceber se estão para breve as negociações que podem interromper este ciclo de violência que matou o cessar-fogo assinado em Abril e o Memorando de Entendimento (MdE) em Junho e está severamente a afectar a economia mundial.

A piorar as expectativas de um retorno da paz ao Golfo Pérsico, depois da coligação israelo-americana ter começado este confito a 28 de Fevereiro,na Administração norte-americana começam a surgir contradições de difícil interpretação.

Por um lado, na terça-feira, 21, Marco Rubio, o chefe da diplomacia norte-americana e Conselheiro para a Segurança Nacional do Presidente, afirma que Washington mantém a porta aberta para novas rondas negociais com o Irão.

Pelo outro, Donald Trump, desfazendo as declarações de Marco Rubio, descarta para já voltar a falar com os iranianos e ameaça intensificar os ataques, escalando o conflito para alvos civis e económicos, incluindo centrais nucleares no Irão.

Perante este engrossar da voz de Donald Trump, em Teerão, Ebrahim Zolfaghari, o porta-voz do comando geral das forças armadas iranianas, que inclui os três ramos tradicionais e o Corpo da Guarda Revolucionária do Irão (IRGC), já veio garantir que a resposta será imediata.

Nessa resposta, o general Ebrahim Zolfaghari garante uma escalada de objectivos militares, que são as bases dos EUA nos países do Golfo Pérsico e a Jordânia, para as infra-estruturas civis e económicas.

O que, no limite, pode tornar insustentável a vida humana na região se os misseis e drones iranianos caírem sobre todo sistema de produção de crude e gás e, ao mesmo tempo, atingir as centrais de dessalinização da água do mar das quais a Arábia Saudita, o Catar e os Emiratos dependem em mais de 75% e o Kuwait e o Bahrein em mais de 90%.

Além disso, em cima da mesa do denominado eixo da resistência, que inclui o Irão, o Hezbollah, no Líbano, as milícias xiitas do Iraque e a Ansar Allah (Houthis), do Iémen, está alargar as frentes de guerra à Península Arábica e no Iraque.

Isso, ao mesmo tempo que nos últimos dias os Houthis fecharam o Estreito de Bab al-Mandab, que liga o Mar Vermelho/Canal do Suez ao Oceano Índico, espelhando o que o Irão fez no Estreito de Ormuz, fechando o acesso do Golfo Pérsico ao Oceano Índico.

Com este movimento em pinça, ficam aprisionados perto de 20 milhões de barris de crude, porque os sauditas ficam sem poder usar o oleoduto e Yanbu, que servia até aqui para desviar perto de 7 milhões de barris do Golfo Pérsico para o Mar vermelho, ao longo de 1200 kms, escoando assim por Bab al-Mandab mais de metade da sua produção para a Ásia.

Além do crescendo dos ataques, também na frente económica a escalada é clara, com o barril a atingir esta quata-feira, 22 de Julho, os 95 USD, o valor mais alto desde o início de Junho, ameaçando claramente toda a economia mundial, sem deixar de fora a norte-americana.

E Donald Trump tem de enfrentar as eleições intercalares de Novembro num contexto eleitoral, se não for alterado este cenário, claramente adverso e com risco, como as sondagens apontam, de perda de controlo das duas câmaras do Congresso, a dos Representantes e o Senado devido ao efeito da guerra na inflação, especialmente dos combustíveis.

Apesar da sua famosa fanfarronice, Trump não deixa de dar com uma mão o que tira com a outra, como fica explicito nas suas declarações recentes sobre a guerra na Casa Branca onde, na terça-feira recebeu o Presidente libanês Josef Aoun, o que é outro sinal da sua preocupação porque acabar com a invasão israelita do sul do Líbano é ma exigência prioritário de Teerão.

Antes de se reunir com Josef Aoun, Trump, avança a Lusa, afirmou que as autoridades iranianas "querem encontrar-se a todo o custo", mas garantiu que os Estados Unidos não têm interesse em retomar contactos enquanto Teerão não demonstrar uma vontade séria de negociar.

"E até que estejam prontos para se encontrarem de forma significativa, não temos o mínimo interesse", declarou, ainda citado pela Lusa.

O chefe de Estado norte-americano avisou também que qualquer tentativa de reconstrução de instalações nucleares iranianas será alvo de novos bombardeamentos.

"Estão nisto por causa das armas nucleares e estão a tentar, possivelmente, reconstruir uma instalação. Vamos atacar essa instalação", afirmou.

Trump deixou ainda um aviso aos rebeldes huthis do Iémen, aliados do Irão, garantindo que os Estados Unidos responderão caso o grupo tente bloquear o tráfego marítimo no mar Vermelho.

"Até agora, isso não aconteceu. Pode acontecer, mas vamos lidar com a situação. Se algo assim acontecer, vamos lidar com isso. Já o fizemos com os huthis antes, e não temos notícias deles há algum tempo", concluiu Trump.